terça-feira, 2 de julho de 2013

O desejo oculto - Adenáuer Novaes

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á.” Mateus, 7:7.

Nas várias vidas sucessivas estabelecemos metas que nem sempre alcançamos. Desejos reprimidos, frustrações não resolvidas, que acabam por ocupar um grande espaço na psiquê. Vão se somando, tornando-se um grande e enovelado complexo, cuja dissolução se torna impraticável a curto espaço de tempo. Os grandes feitos e as conquistas morais do Espírito acabam por reduzir gradativamente o tamanho daquele complexo, permitindo que se viva sem que ele necessariamente constele ou suba à consciência.

As desencarnações prematuras (crianças, jovens, adultos-jovens), ocorridas principalmente por acidentes, mesmo que obedecendo o necessário planejamento, provocam, após o desencarne, a frustração de planos que foram cuidadosamente elaborados e que se constituíram na razão de viver do  ex-encarnado. Esses cortes num futuro que fora antecipadamente idealizado, promovem o surgimento de desejos internos, guardados em camadas da psiquê, que anseiam por realizar-se. Face ao esquecimento do passado, tornam-se núcleos de ansiedade e tristeza, cuja erradicação necessitará de realização ou reelaboração do que foi negado.

Aos poucos esses desejos íntimos são organizados num processo único ou em alguns semelhantes, que, quando realizados, preenchem de satisfação o Espírito, sem que ele se dê conta do motivo de sua incontida alegria. O acúmulo demasiado dessas frustrações provoca crises depressivas, além de baixa auto-estima.

Nesse sentido, podemos dizer que a psiquê, como uma função do Espírito, tem a capacidade de armazenar os desejos mais recônditos e, no momento oportuno, realizá-los a fim de liberá-lo da contenção sofrida. O pedido antes feito, em algum tempo, quando as circunstâncias favorecerem, será realizado. Nem sempre da mesma forma que foi solicitado, face à união com outros desejos que se assemelham, mas algo será realizado.

A colocação do Cristo vai ao encontro do Self, tendo em vista sua função ordenadora e condutora psíquica do desenvolvimento do Espírito. Na medida que evoluímos, cada vez mais reestruturamos a nossa psiquê, que passa a atender a novos modos de executar as emoções, pensamentos e desejos do Espírito. Pedir é, em certo sentido, estabelecer novo modo de execução. A repetição do pedido provocará uma reorganização na função de execução, promovendo a obtenção do que se solicitou. 

A psiquê funciona como um canal condutor da vontade do Espírito. A exemplo de um canal condutor de um líquido, que, se alterada sua forma, modificará o formato do contorno do líquido conduzido, a psiquê poderá ser remodelada, modificando o produto desejado. A vontade, a emoção e o pensamento, oriundos do Espírito, serão exteriorizados de formas distintas a depender da estrutura da psiquê, veículo (função) responsável pela execução.

A afirmação do Cristo se dirige também à intimidade psíquica do Espírito. Seu alcance permite que o Espírito registre o poder que possui, bem como a responsabilidade de sua vontade sobre o mundo. A vontade gera emoções,que, por sua vez, geram pensamentos, e estes, atitudes que nos situam no mundo. Somos responsáveis pelo que queremos, sentimos, pensamos e fazemos ou deixamos de fazer.

A mente humana executa os nossos desejos mais íntimos, face a uma função estrutural, enraizada no Espírito. Pedir a Deus, à Vida ou ao Universo, não importa o nome que se dê, torna-se, dessa forma, algo importantíssimo, face às conseqüências que acarreta ao Espírito. “Pedi, e dar-sevos-á” funciona como um alerta, isto é, parece que o Cristo nos previne: Cuidado! O que você desejar, obterá, pois há uma função que se estruturará para atender seu pedido.

O pedido que fazemos, nem sempre é atendido como o queremos, pois nos falta percepção do que é melhor para nosso processo evolutivo. Se pedirmos algo inadequado, inconveniente ou mesmo impossível, a psiquê se estruturará para nos oferecer as circunstâncias que favorecerão uma lição que nos eduque a pedir.

Mobilizamos o universo a nossa volta com nossos desejos. O universo conspira a favor da evolução do
Espírito. As leis de Deus funcionam nesse sentido. Quanto mais evoluídos somos, mais flexível se torna nosso destino, mais capacidade temos de modificá-lo. Isso possibilita que estruturemos a psiquê a serviço do amor, da harmonia e da paz, sem que criemos mecanismos artificiais de desenvolvimento mental. Aprendemos, aos poucos, através das repetidas experiências reencarnatórias e com paciência, como pedir e obter o que é melhor para o Espírito, e não para o ego.

Os pedidos que normalmente fazemos à Vida, ou mesmo a Deus, se situam na esfera do desejo do ego e se destinam a atender as necessidades materiais, porém esses pedidos são geralmente aqueles em que não obtemos o objeto desejado. No lugar do objeto recebemos lições que novamente nos ensinarão a aprender a pedir.

Muito cuidado devemos ter ao pedir, pois estaremos modificando nossa estrutura psíquica, face à força do desejo e aos poderes que atribuímos ao ego. Acertadamente responderam os Espíritos Codificadores a Allan Kardec sobre o maior obstáculo ao progresso, como sendo o egoísmo ao lado do orgulho.

Esse desejo interno que todos temos, e que às vezes se manifesta como o de possuir, de viver, de amar, de crescer, vem do Espírito, porém, quando o fazemos para satisfação exclusivamente pessoal, ele provém do ego, tornando-se egoísmo.

O universo do ser humano nasce com sua consciência da própria existência. Não há Vida real sem a consciência da existência e do motivo para o qual se existe. O evangelho, ou a mensagem do Cristo, ou mesmo a mensagem transformadora do Espiritismo, possibilita, quando vivida, a consciência da existência.

A afirmação do Cristo “pedi, e dar-se-vos-á” possibilita a percepção de que o mundo se configura na forma como o enxergamos. Ele passa a ter os contornos dos nossos desejos e das nossas atitudes. A flexibilidade da vida é uma atribuição nossa, tanto quanto sua rigidez. O mundo é o que vemos e sentimos. Como a realidade é não o sabemos, porém, com certeza, ela é mais do que somos capazes de concebê-la. Essa parcela da realidade que não somos capazes de captar representa aquilo que necessitamos ir em busca. Quando a conquistarmos, veremos que ainda nos falta muito, mas muito mais do que imaginávamos. Os limites do corpo e as capacidades limitadas da psiquê não permitem aquela visão completa.

Nesse sentido, podemos entender a afirmação categórica do Cristo: “Aquele que crê em mim, fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará.”, isto é, há muito mais a se conhecer sobre nós mesmos do que imaginamos que já sabemos. É um processo contínuo de crescimento que jamais cessa.