segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Fatores de Perturbação (Joanna de Ângelis)


Para ler ouvindo O Caminho Pisado, da minha banda preferida, Os Paralamas, tirada de um dos discos que eu peguei emprestado do meu pai e um dia pretendo devolver. Essa música fala sobre rotina e eu me pego cantando com frequência enquanto vou para o trabalho.

Joanna de Ângelis tem um livro chamado O Homem Integral em que apresenta sua "singela contribuição" para nos auxiliar na busca por equilíbrio e amadurecimento emocional tendo o mestre Jesus como modelo para nossa conduta. O livro completo está disponível nesse endereço aqui e meus comentários são sobre o primeiro capítulo, que estudamos juntos no 3 ciclo da mocidade.

O capítulo inicial do estudo de Joanna para encontrar o Homem Integral chama-se Fatores de Perturbação e são justamente os elementos que afastam o indivíduo espiritual de sua maturidade psicológica. Cada um desses fatores afeta e agrava o efeito dos demais, por isso a autora os apresenta como um sistema que prejudica a criatura. São quatro os fatores de perturbação, apresentados na seguinte ordem:

A rotina. "Disfarçada como segurança, emperra o carro do progres­so social e automatiza a mente, que cede o campo do raciocí­nio ao mesmismo cansador, deprimente.

O homem repete a ação de ontem com igual intensidade hoje; trabalha no mesmo labor e recompõe idênticos passos; mantém as mesmas desinteressantes conversações: retorna ao lar ou busca os repetidos espairecimentos: bar, clube, tele­visão, jornal, sexo, com frenético receio da solidão, até al­cançar a aposentadoria.. - Nesse ínterim, realiza férias progra­madas, visita lugares que o desagradam, porém reúne-se a outros grupos igualmente tediosos e, quando chega ao denominado período do gozo-repouso, deixa-se arrastar pela inu­tilidade agradável, vitimado por problemas cardíacos, que resultam das pressões largamente sustentadas ou por neuro­ses que a monotonia engendra."

A ansiedade. "As constantes alterações da Bolsa de Valores, a compressão dos gastos, a correria pela aquisição de recursos e a disputa de cargos e funções bem remunerados geram, de um lado, a insegurança individual e coletiva. Por outro, as ameaças de guerras constantes, a prepotência de governos inescrupulosos e chefes de atividades arbitrários quão ditadores; os anúncios e estardalhaços sobre enfermidades devastadoras; os comunicados sobre os danos perpetrados contra a ecologia prenunciando tragédias iminentes; a catalogação de crimes e violências aterradoras respondem pela inquietação e pelo medo que grassam em todos os meios sociais, como constante ameaça contra o ser e o seu grupo, levando-os a permanente ansiedade que deflui das incertezas da vida.

A preocupação de parecer triunfador, de responder de forma semelhante aos demais, de ser bem recebido e considerado é responsável pela desumanização do indivíduo, que se torna um elemento complementar no grupamento social, sem identidade, nem individualidade."

O medo. "Num contexto social injusto, a insegurança engendra muitos mecanismos de evasão da realidade, que dilaceram o comportamento humano, anulando, por fim, as aspirações de beleza, de idealismo, de afetividade da criatura.

Encarcerando-se, cada vez mais, nos receios justificáveis do relacionamento instável com as demais pessoas, surgem as ilhas individuais e grupais para onde fogem os indivíduos, na expectativa de equilibrarem-se, sobrevivendo ao tumulto e à agressividade, assumindo, sem darem-se conta, um comportamento alienado, que termina por apresentar-se igualmente patológico."

A solidão. "A necessidade de relacionamento humano, como mecanismo de afirmação pessoal, tem gerado vários distúrbios de comportamento, nas pessoas tímidas, nos indivíduos sensíveis e em todos quantos enfrentam problemas para um intercâmbio de idéias, uma abertura emocional, uma convivência saudável.

Enxameiam, por isso mesmo, na sociedade, os solitários por livre opção e aqueloutros que se consideram marginalizados ou são deixados à distância pelas conveniências dos grupos.

A sociedade competitiva dispõe de pouco tempo para a cordialidade desinteressada, para deter-se em labores a benefício de outrem.

O atropelamento pela oportunidade do triunfo impede que o indivíduo, como unidade essencial do grupo, receba consideração e respeito ou conceda ao próximo este apoio que gostaria de fruir."

Cada um dos fatores de perturbação facilita o surgimento dos demais em uma sociedade massacrada pelas cobranças e exigências do Ter ao invés do Ser. Vivemos com necessidade de aprovação social, familiar, conjugal, profissional, ao mesmo tempo com medo de falhar. Como solução ao dilema, muitas pessoas definem para suas encarnações objetivos muito simples, que não tocam verdadeiramente a alma, mas que não provocarão frustração. São os verdadeiros sonhos pequenos que esvaziam na alma a capacidade de sonhar.

Joanna propõe uma outra resposta para o dilema dos quatro fatores de perturbação. Ela apresenta como solução a liberdade. E eu encerro o texto com os comentários sobre a liberdade real, desejando que a reflexão seja útil a todos nesse início de semana.

"As conquistas externas atulham as casas e os cofres de coisas, sem torná-­los lares  nem  recipientes  de  luz,  destituídos  de  significado,  quando  nos  momentos  magnos das grandes dores, dos fortes dissabores, da morte, que chegam a todos...

A liberdade, que se encerra no túmulo, é utópica, mentirosa.

Livre,  é  o  Espírito  que se  domina  e se  conquista. Movimentando-se  com  sabedoria por toda parte, idealista e amoroso, superando as injunções pressionadoras  e amesquinhantes."