sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Força do Desejo – na Psicanálise e no Espiritismo

A Força do Desejo – na Psicanálise e no Espiritismo


Homem de costas com interrogações na frenteDesejo, para a criança é tomar um sorvete, ou brincar com o amiguinho, ou na era de hoje, se distrair com celular ou tablet na internet.

Para o ser comum o desejo acaba num outro desejo, ou seja, é incessante. Quando vem um desejo, logo é substituído por outro. Solteiro, deseja se casar; casado, anseia retomar a liberdade de solteiro; separado, reaparece o desejo de novo enlace; compra uma roupa, e logo a moda o faz trocar por outra; consegue a custo o automóvel dos sonhos, e mal coloca os pneus no asfalto, é invadido pela ideia de troca-lo após assistir a propaganda do carro do ano.

E por ai vai…  É a inquietação do ser humano.  Não é à toa que Freud definiu na Interpretação dos Sonhos que: “desejo é o impulso de recuperar a perda da primeira experiência de satisfação”.
De modo simplista, podemos dizer que para a Psicanálise o desejo não se realiza, considerando o homem como um ser em busca de uma incessante demanda (objeto do desejo), cuja satisfação não acaba quando alcança, pois logo vai à busca de nova satisfação (novo desejo).

Lacan define que o desejo é o desejo do outro. O desejo dirige-se sempre a outro desejo. Ele não esta relacionado diretamente ao objeto que o satisfaz, e por isso o desejo não se esgota.  Não é nada fácil compreender esta afirmação psicanalítica em poucas linhas. Dentre os desejos mais reconhecidos, de sexo e fome, tomaremos como exemplo a fome.

Acreditamos que estejamos ansiosos por uma razão desconhecida. Somos acometidos com sintoma de fome, cuja sensação de satisfação se daria, segundo aquele momento, comendo algo doce. Logo tomamos um sorvete de chocolate, que mal termina, e já nos vem o anseio deseducado de comer um gostoso bolo de chocolate. Lá vamos nós tratarmos de satisfazer este novo desejo através de um novo objeto; não foi desta vez que o bolo (que não estava tão gostoso assim) cumpriu sua função de nos saciar, e novamente somos apanhados com novo alvo: “imagine se isso fosse uma barra chocolate”.

Notamos o percurso do desejo iniciado pela falta de algo interior até a barra de chocolate, que depois de triturá-la, provavelmente voltaremos para o inicio do trajeto.

Santo Agostinho foi o primeiro a distinguir três tipos de desejos: desejo de conhecimento, desejo sensual em sentido mais amplo, e desejo de dominar. André Luiz afirma que o “Desejo é a realização antecipada”, para quem a sentença “procura e achará”, equivale a dizer: “encontrarás o que desejas”.

Graças ao intercâmbio de fontes de sabedoria da Doutrina Espírita, como André Luiz, pela abençoada missão de Chico Xavier, e tantos outros Mestres do Amor, é sempre salutar reconhecer a distinção entre o desejo e a vontade. Emmanuel é claro quanto a potencia da Vontade frente ao Desejo, ressalta que é na vontade que controlamos e comandamos os problemas do destino. Sem ela, diz o Benfeitor, o Desejo pode se enganar trazendo séculos de aflição e reparação. E sentencia: Só a Vontade é suficientemente forte para sustentar a harmonia do espírito. (Emmanuel / F.C. Xavier, Pensamento e Vida).

Apresentamos assim a Vontade, a “mãe” que transfere sabedoria ao “filho” Desejo. Este filho que se apresenta como um túnel mal iluminado, que recebe a luz da mãe vontade – a consciência. A direção é definida pelo Criador, enquanto a rota depende de nós.

Assim, nesta busca incessante entorno da vitória do bem, na viagem de lazer (desejo) ora apararemos um matagal para abrirmos o caminho (vontade), ora trocaremos os pneus de nosso carro (vontade) para prosseguirmos nosso passeio de recreação (desejo), até que numa dessas viagens, a fusão destes conceitos ocorrerá de tal forma natural, que já não saberemos distinguir entre desejo e vontade, pois ambos andaram unidos como siameses. O desejo será naturalmente submisso à vontade, como as folhas à raiz.

Na questão 911 do O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se não haverá paixões tão vivas e irresistíveis, que a vontade seja impotente para dominá-las – em resposta, os Espíritos asseveram que vencê-las é uma vitória do Espírito sobre a matéria.

O Codificador como seguidor fiel de Jesus que nos fortaleceu ao afirmar “podeis fazer isso e muito mais”, nos orientou: “Possuímos em nós mesmos, pelo pensamento e a vontade, um poder de ação que se estende muito além dos limites de nossa esfera corpórea.”.
Assim, sabemos que somos responsáveis pelas escolhas de nossos desejos, uma vez que somos os autores de sua elaboração consciente ou inconscientemente, ou seja, quer seja ele regido pelo princípio do prazer (rota de vantagens) ou princípio da realidade (rota apropriada).  Portanto, cabe a nós darmos o sentido e direção às nossas existências no campo físico e extrafísico.

Como relembramos queridos leitores, o caminho já nos foi indicado pelo Doutor mór das almas: “Conhecereis a verdade e ela te libertará”, ensinando que o caminho da libertação está em seguir a vontade. E esta se faz através do autodescobrimento, cujo primeiro passo é examinar as possibilidades com decisão e enfrentá-las sem mecanismos de desculpas, segundo alerta Joanna de Ângelis, (O homem Integral- Joanna de Ângelis).

A par do que refletimos sobre o conceito de desejo e vontade a luz da psicanalise e espiritismo, temos a dizer que indefere qual das duas palavras o leitor utiliza no seu no seu dia-a-dia, uma vez que não teremos outra saída para lidar com as “pegadinhas” inconstantes e constantes dos desejos, senão firmarmos conosco mesmo um propósito interior de responsabilidade. O que quer dizer: enfrentar o objeto (escolha) adequado e não abraçar apenas o confortável, – eis o caminho seguro para minimizar as sensações de angustias que perseguem nosso atual estágio.

Em outras palavras a psicanálise de Lacan faz coro: “somos responsáveis pelos nossos desejos, por isso também pode nos trazer culpa”.  Esta reflexão favorece a orientação do autentico psicanalista e psicólogo transpessoal Dr. Adão Nonato: “esperneie, mas faça a coisa certa”.
Como crianças em fase de aprendizagem, onde muitos de nós ainda esbravejamos, que possamos usar as mamadeiras da harmonia, as chupetas da razão, as fraldas da consciência, e os brinquedos das conquistas, e assim nos alegrarmos em qualquer jardim de diversão que possamos estar.