domingo, 8 de novembro de 2015

Autotransformação na Religião

Considero as religiões, em particular o Espiritismo, um conhecimento estruturante para a personalidade autônoma. Seus princípios e suas práticas contribuem sobremaneira para a formação do indivíduo harmonicamente ajustado à sociedade, para a construção de uma personalidade ótima e para a consciência de ser Espírito.

Afora as inserções no Centro Espírita pelas portas da obsessão, o espírita atravessa distintas fases de aprendizado até a consolidação definitiva do saber proposto pelo Espiritismo. Perceber-se Espírito, tendo integrado à personalidade aquilo que é ensinado pelos postulados espíritas, é meta a ser atingida. Até lá, passa-se pelas fases de aproximação, informação, crença e consciência.

Para uma melhor compreensão das fases anteriormente citadas, assinalo abaixo as principais características que observo:

Aproximação. Nessa fase, o espírita, ou candidato a espírita, demonstra uma simpatia e interesse superficial pelas idéias ou pelas práticas espíritas. Sem comprometimento efetivo, alguns princípios são adotados como pano de fundo de idéias e julgamentos, mas sem uma integração completa à personalidade. A afirmação de ser espírita, quando dita, é com reservas e em ambientes receptivos. Poucas leituras são feitas, principalmente de livros muito conhecidos, sem maiores estudos e profundidade reflexiva. Eventualmente assisti a palestras de oradores famosos e de grandes eventos espíritas. Gosta do passe e faz sua caridade redentora de culpas conscientes e inconscientes. Geralmente freqüenta outros cultos.

Informação. Nessa fase ocorre um interesse maior em conhecer argumentos mais consistentes a respeito das teses e fenômenos espíritas. Há um engajamento em práticas tipicamente doutrinárias, com adoção de linguagem espirítica. Há compromissos de renovação interior e interesse em discutir questões espíritas com terceiros. Costuma apresentar-se como espírita, interessando-se pela disseminação do Espiritismo. Lê os clássicos do Espiritismo, comparando seus conceitos com os de outras religiões, declarando abertamente a supremacia das teses espíritas. Geralmente está engajado numa instituição espírita, desenvolvendo alguma atividade semanal, levando a sério a prática da caridade.

Crença. Nesta fase o indivíduo se torna um militante e fiel trabalhador da causa espírita, tendo lido todos os clássicos e boa parte da literatura espírita. Fala sobre Espiritismo em qualquer ambiente, sendo combatente contra as idéias materialistas. É conhecido em seu meio social, principalmente por ser espírita. Está envolvido em mais de uma atividade na instituição espírita, geralmente dirigindo uma delas. Fez e faz sua renovação interior, sendo sinceramente espírita-cristão. Trabalha pela causa espírita, sendo sinceramente convicto do Espiritismo. Participa ativamente do Movimento Espírita, sendo reconhecido pelas obras e atividades filantrópicas que desenvolve.

Consciência. Nesta fase, alcança-se a compreensão da proposta do Espiritismo para si mesmo. O indivíduo mantém a militância espírita, com a compreensão da diversidade de práticas nas distintas Casas Espíritas. Contextualiza os princípios espíritas, filosofando sobre eles, sem dogmatismo ou cerceamento ao livre pensar. Mantém constante contato psíquico com pessoas desencarnadas, sem se alienar da vida comum. Vive uma ética própria, desenvolvida a partir de princípios cristãos, tendo um sistema de valores sem cobranças de perfeição. Descobre no Espiritismo como constituir sua religião pessoal. Integrou os princípios do Espiritismo à sua vida íntima.

Uma mesma pessoa poderá permanecer numa das três primeiras fases toda uma existência, principalmente na terceira, sem alcançar a quarta fase, a consciência de ser Espírito. Isso varia de pessoa a pessoa e de como recebeu orientações a respeito do Espiritismo e de que forma adentrou o chamado Movimento Espírita.

É fundamental abrir-se espaço nas instituições espíritas para facilitar o acesso à quarta fase que deve fazer parte da personalidade de todo espírita, principalmente os militantes. Tal acesso não implica em abolirem-se práticas que são importantes para o acesso às fases iniciais. Para tanto é necessária a implantação, em acréscimo às atividades rotineiras de uma Casa Espírita, de: grupos de estudos avançados de Espiritismo, publicações de protocolos científicos constando resultados de experimento, grupos de crescimento e desenvolvimento pessoal com caráter de terapia de grupo, núcleo de Psicologia do Espírito, núcleo de Educação com implantação de Escola Experimental de educação infantil com base numa pedagogia espírita, núcleo de mídia e comunicação para propaganda institucional e, por fim, núcleo de captação de recursos para sustentação financeira da Casa.

Com isso, o Espiritismo ampliaria suas propostas de transformação do ser humano e de combate ao materialismo em seus principais fundamentos (orgulho e egoísmo), constituindo-se, a partir do Centro Espírita, num campo de transformação para seus adeptos esclarecidos e não apenas para freqüentadores eventuais e curiosos que desejam a salvação mágica.

É compreensível que o Espiritismo se apresente e seja praticado como qualquer religião, pois seu surgimento o caracteriza como tal. Isso, inclusive, proporciona maior aceitação popular, contribuindo para a disseminação e assimilação de seus princípios básicos. É também salutar a discussão de idéias visando alcançarem-se novos entendimentos a respeito de antigas questões e de temas emergentes e contemporâneos.

O desenvolvimento da personalidade ótima dentro do Centro Espírita se faz pela busca constante e a partir de atividades constituídas para essa finalidade. Deixar o trabalhador do centro Espírita à tarefa de sozinho, sem reforço positivo, sua reforma íntima, tem se tornado impraticável.

E-mail: adenauer@larharmonia.org.br