sexta-feira, 6 de maio de 2011

Persona e Sombra.


Segundo o Dicionário Crítico de Análise Junguiana o termo Persona deriva da palavra latina para máscara usada por atores na época clássica. Daí, persona refere-se à máscara ou face que uma pessoa põe para confrontar o mundo. A Persona pode se referir à identidade sexual, um estágio de desenvolvimento (tal como a adolescência), um status social, um trabalho ou profissão. Durante toda uma vida, muitas personas serão usadas e diversas podem ser combinadas em qualquer momento específico.

A concepção, de Jung, da Persona é a de um Arquétipo, significando, neste contexto, que existe uma inevitabilidade e ubiqüidade para a persona. Em qualquer sociedade, um meio de facilitar o relacionamento e o intercâmbio é exigido; essa função é parcialmente efetuada pelas Personas dos indivíduos em questão. Diferentes culturas estabelecerão diferentes critérios para a Persona e haverá alteração e evolução ao longo do tempo uma vez que o padrão arquetípico subjacente é suscetível de variação infinita. Às vezes, a Persona é referida como o “Arquétipo social”, envolvendo todos os compromissos próprios para se viver em uma comunidade.

Resulta que a Persona não deve ser pensada como inerentemente patológica ou falsa. Há um risco de patologia se uma pessoa se identifica de forma demasiadamente íntima com sua Persona. Isto implicaria uma falta de conscientização de um papel muito além do social (advogado, analista, operário) ou de papel sexual (mãe) e também uma falha de levar em conta a maturação (por exemplo), uma evidente dificuldade em se adaptar ao fato de ter crescido. A identificação com a Persona leva a uma forma de rigidez ou fragilidade psicológica; o Inconsciente tenderá, antes, a irromper com ímpeto na Consciência, que emergirá de forma controlável. O Ego, quando identificado com a persona, é capaz somente de uma orientação externa. É cego para eventos internos e, daí, incapaz de responder a eles. Resulta ser possível permanecer-se inconsciente da própria Persona.

Estes últimos comentários apontam para o lugar que Jung atribuía à Persona na estrutura da Psique. Era como um mediador entre o Ego e o mundo externo (quase do mesmo modo que Anima e Animus mediam entre o ego e o mundo interno). Portanto, pode-se cogitar da Persona e de anima/animus como opostos. Enquanto a persona está ocupada com uma adaptação consciente e coletiva, anima/animus estão ocupados com uma adaptação àquilo que é pessoal, interior e individual.

Em 1945, Jung deu uma definição mais direta e clara da Sombra: “a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser” (CW 16, parág. 470). Nesta simples afirmação estão incluídas as variadas e repetidas referências à sombra como o lado negativo da personalidade, a soma de todas as qualidades desagradáveis que o indivíduo quer esconder, o lado inferior, sem valor, e primitivo da natureza do homem, a “outra pessoa” em um indivíduo, seu próprio lado obscuro. Jung era perfeitamente consciente da realidade do mal na vida humana.

Vezes e mais vezes enfatizou que todos nós temos uma Sombra, que toda coisa substancial emite uma Sombra, que o Ego está para a Sombra como a luz para a penumbra, que é a sombra que nos faz humanos.

Todo mundo carrega uma Sombra, e quanto menos ela está incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é. Se uma inferioridade é consciente, sempre se tem uma oportunidade de corrigi-la. Além do mais, ela está constantemente em contato com outros interesses, de modo que está continuamente sujeita a modificações. Porém, se é reprimida e isolada da consciência, jamais é corrigida, e pode irromper subitamente em um momento de inconsciência. De qualquer modo, forma um obstáculo inconsciente, impedindo nossos mais bem-intencionados propósitos (CW 11, parág. 131).

É a Freud que Jung dá o crédito de chamar a atenção do homem moderno para a dissociação entre os lados claro e escuro da psique humana. Abordando o problema sob um ângulo cientifico e sem qualquer finalidade religiosa, percebia que Freud descobrira o abismo da escuridão na natureza humana, que o iluminado otimismo do cristianismo ocidental e a era científica haviam procurado ocultar. Jung falava do método de Freud como a mais detalhada e profunda análise da Sombra jamais realizada.

Jung admitia tratar a Sombra de um modo diferente da abordagem freudiana, que achava limitada. Reconhecendo que a sombra é uma parte viva da personalidade e que “quer viver com esta” de alguma forma, identifica-se, antes de tudo, com os conteúdos do Inconsciente pessoal. Lidar com estes envolve o indivíduo ter de harmonizar-se com os instintos e como a expressão destes foi submetida ao controle pelo coletivo. Mais ainda, os conteúdos do Inconsciente pessoal estão inexplicavelmente fundidos com os conteúdos arquetípicos do Inconsciente coletivo, estes por sua vez contendo seu próprio lado obscuro. Em outras palavras, é impossível erradicar a Sombra; daí, o termo empregado mais freqüentemente pelos psicólogos analíticos para o processo do confronto com a Sombra na análise é “pôr-se em termos com a Sombra”.

Visto a Sombra ser um Arquétipo, seus conteúdos são poderosos, marcados pelo afeto, obsessivos, possessivos, autônomos – em suma, capazes de alarmar e dominar o ego estruturado. Como todos os conteúdos capazes de se introduzir na Consciência, no início aparecem na projeção e, quando a consciência se vê em uma condição ameaçadora ou duvidosa, a sombra se manifesta como uma projeção forte e irracional, positiva ou negativa, sobre o próximo. Aqui Jung encontrava uma explicação convincente não só das antipatias pessoais, mas também dos cruéis preconceitos e perseguições de nosso tempo.

No que concerne à Sombra, o objetivo da psicoterapia é desenvolver uma conscientização daquelas imagens e situações mais passíveis de produzir projeções de sombra na vida individual. Admitir (analisar) a Sombra é romper com sua influência compulsiva.
Postado por Saúde Mental e Harmonização

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