terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
OS TRABALHADORES DA VINHA
Judeus trabalhando na vinha
Jesus falava às massas e utilizava um recurso curioso para que seus ensinos e histórias permanecessem nas mentes dos que o assistiam. Ele escolhia narrativas de conclusão insólita, aparentemente injusta, o que faz com que todos se questionem: o que ele quer dizer com isso?
As parábolas instigantes sobreviveram ao tempo.
A parábola dos trabalhadores da vinha é conhecida no meio espírita como a parábola dos trabalhadores das diversas horas do dia. Kardec dedicou um capítulo inteiro ao seu comentário em "O Evangelho Segundo o Espiritismo".
Contexto
A história é contada apenas no capítulo 20 do evangelho de Mateus, o que não deixa muitas pistas sobre o contexto. No capítulo 19, Jesus parece estar instruindo seus discípulos e apóstolos. Ele fala dos eunucos pelo amor do reino de Deus e do perigo das riquezas (a história do moço rico).
As Relações de Trabalho
No Deuteronômio, um dos livros do pentateuco moisaico, encontram-se regras para a contratação de trabalho (24:14-15). Os pagamentos eram diários, e era proibida a exploração do trabalhador pobre. Iahweh afirma aos empregadores que não se esquecessem que a vida do trabalhador pobre e de sua família depende do pagamento da jornada de trabalho.
Um bom conselho para os dias de hoje, mas interessa-nos saber que era comum e usual a contratação de trabalhadores no período apontado por Jesus.
Denário Romano de Prata
No império romano à época, era usual o pagamento do dia de trabalho com o valor de um denário, que valia "dez asses" (daí a origem do nome), e segundo a wiki era suficiente para comprar 8 quilos de pão, ou seja, permitia com sobra a alimentação de uma família.
A história
Vinha
Como a maioria das parábolas, Jesus conta a história para referir-se ao Reino dos Céus. Um dono de vinha sai em busca de trabalhadores e os encontra no mercado no início do dia. Acerta com eles o pagamento de um denário e os envia para a vinha. Como o número de trabalhadores fosse insuficiente, o dono da vinha volta na terceira hora, na sexta, na nona e na undécima hora. Em todos os casos pergunta aos tabalhadores por que estavam na praça e todos alegam que não conseguiram trabalho. Ele oferece-lhes trabalho sem negociar valores. No momento do pagamento, ele dá um denário a todos, a começar dos trabalhadores da última hora, que trabalharam apenas uma hora ou menos, o que gera murmúrios e reclamações entre os que trabalharam doze horas. O dono da vinha (que também é pai de família) reafirma o cumprimento do acordo feito no início do dia e pergunta-lhes: "é mau o teu olho porque eu sou bom?"
Jesus conclui a história com a famosa frase: "os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos."
Interpretação
Em "O evangelho segundo o espiritismo", Kardec publica quatro comunicações de espíritos que se referem à parábola. Constantino (Bordeaux, 1863) interpreta os trabalhadores da última hora aos espíritas e recomenda que empreguem bem sua existência, que não é mais que "um instante fugidio na imensidade dos tempos".
Outra comunicação é de Henri Heine (Paris, 1863), que considera Moisés, os apóstolos cristãos, os mártires cristãos, os pais da igreja, sábios e filósofos como os trabalhadores das diversas horas do dia, e reafirma entender os espíritas como trabalhadores da última hora.
Heinrich Heine
Erasto (Paris, 1863) recomenda aos espíritas que divulguem a reencarnação e a elevação dos espíritos, e antecipa que os grandes desprezariam seu discurso, os sábios exigiriam provas e os humildes a aceitariam.
Por fim, o Espírito Verdade, considera ditosos os que trabalharem nos campos do Senhor (a Terra) sem interesses e motivados pela caridade.
Reflexões de Espíritas: Schutel e Vinícius
Cairbar Schutel escreveu em seu "Parábolas e ensinos de Jesus" algumas páginas explicando a parábola e comentando-a. Ele encontra justiça na atitude do dono da vinha, argumentando ser possível que os trabalhadores da undécima hora tivessem se esforçado mais que os demais.
Cairbar Schutel
Schutel foi muito perseguido pela igreja católica de sua época e parece fazer um desabafo em seu texto, criticando espíritas que não se afirmavam publicamente como tal, escolhendo o trabalho do atendimento aos espíritos, por exemplo. Entendo sua situação, mas não consigo ver a questão da mesma forma, passadas muitas décadas.
Vinícius dedicou dois capítulos de livros a comentar o tema.
Ele também traz o parábola para os dias de hoje, e compara o ato dos trabalhadores da undécima hora ao da viúva do gazofilácio, que Jesus destaca não pelo volume dos resultados, mas pelo sentido subjetivo do ato. Ao contrário da tradição beneditina e taylorista, Vinícius valoriza o trabalho em si, e não o tempo de trabalho.
Ele desenvolve seu pensamento de tal forma que parece estar escrevendo para os dias de hoje. Fala de pessoas que se "exaurem em uma labuta febril e penosa", querendo ser mais meritória aos olhos de Deus.
Pedro de Camargo fala de espíritas que negligenciam seus deveres familiares, profissionais e sociais em função de uma agenda cheia de compromissos espíritas visando, calculistas, serem mais merecedores aos olhos de Deus. Vinicius destaca outra frase do Cristo: "Misericórdia quero e não sacrifício"
OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA - ESE
Instruções dos Espíritos: Os últimos serão os primeiros. - Missão dos espíritas. - Os obreiros do Senhor.
1. O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha. - Tendo convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. -Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, - disse-lhes: Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram. - Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. - Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? - É, disseram eles, que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a minha vinha.
Ao cair da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros.
- Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um denário cada um. - Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber mais; porém, receberam apenas um denário cada um. -Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, - dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso do dia e do calor.
Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. - Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom?
Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos. (S. MATEUS, cap. XX, vv. 1 a 16. Ver também: "Parábola do festim das bodas", cap. XVIII, nº 1.)
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
Os últimos serão os primeiros
2. O obreiro da última hora tem direito ao salário, mas é preciso que a sua boa-vontade o haja conservado à disposição daquele que o tinha de empregar e que o seu retardamento não seja fruto da preguiça ou da má-vontade. Tem ele direito ao salário, porque desde a alvorada esperava com impaciência aquele que por fim o chamaria para o trabalho. Laborioso, apenas lhe faltava o labor.
Se, porém, se houvesse negado ao trabalho a qualquer hora do dia; se houvesse dito: "tenhamos paciência, o repouso me é agradável; quando soar a última hora é que será tempo de pensar no salário do dia; que necessidade tenho de me incomodar por um patrão a quem não conheço e não estimo! quanto mais tarde, melhor"; esse tal, meus amigos, não teria tido o salário do obreiro, mas o da preguiça.
Que dizer, então, daquele que, em vez de apenas se conservar inativo, haja empregado as horas destinadas ao labor do dia em praticar atos culposos; que haja blasfemado de Deus, derramado o sangue de seus irmãos, lançado a perturbação nas famílias, arruinado os que nele confiaram, abusado da inocência, que, enfim, se haja cevado em todas as ignominias da Humanidade? Que será desse? Bastar-lhe-á dizer à última hora: Senhor, empreguei mal o meu tempo; toma-me até ao fim do dia, para que eu execute um pouco, embora bem pouco, da minha tarefa, e dá-me o salário do trabalhador de boa vontade? Não, não; o Senhor lhe dirá: "Não tenho presentemente trabalho para te dar; malbarataste o teu tempo; esqueceste o que havias aprendido; já não sabes trabalhar na minha vinha. Recomeça, portanto, a aprender c, quando te achares mais bem disposto, vem ter comigo e eu te franquearei o meu vasto campo, onde poderás trabalhar a qualquer hora do dia.
Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora. Bem orgulhoso seria aquele que dissesse: Comecei o trabalho ao alvorecer do dia e só o terminarei ao anoitecer. Todos viestes quando fostes chamados, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas há quantos séculos e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que quisésseis penetrar nela! Eis-vos no momento de embolsar o salário; empregai bem a hora que vos resta e não esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que vos pareça, mais não é do que um instante fugitivo na imensidade dos tempos que formam para vós a eternidade. - Constantino, Espírito Protetor. (Bordéus, 1863.)
3. Jesus gostava da simplicidade dos símbolos e, na sua linguagem máscula, os obreiros que chegaram na primeira hora são os profetas, Moisés e todos os iniciadores que marcaram as etapas do progresso, as quais continuaram a ser assinaladas através dos séculos pelos apóstolos, pelos mártires, pelos Pais da Igreja, pelos sábios, pelos filósofos e, finalmente, pelos espíritas. Estes, que por último vieram, foram anunciados e preditos desde a aurora do advento do Messias e receberão a mesma recompensa. Que digo? recompensa maior. Últimos chegados, eles aproveitam dos labores intelectuais dos seus predecessores, porque o homem tem de herdar do homem e porque coletivos são os trabalhos humanos: Deus abençoa a solidariedade. Aliás, muitos dentre aqueles revivem hoje, ou reviverão amanhã, para terminarem a obra que começaram outrora. Mais de um patriarca, mais de um profeta, mais de um discípulo do Cristo, mais de um propagador da fé cristã se encontram no meio deles, porém, mais esclarecidos, mais adiantados, trabalhando, não já na base e sim na cumeeira do edifício. Receberão, pois, salário proporcionado ao valor da obra.
O belo dogma da reencarnação eterniza e precisa a filiação espiritual. Chamado a prestar contas do seu mandato terreno, o Espírito se apercebe da continuidade da tarefa interrompida, mas sempre retomada. Ele vê, sente que apanhou, de passagem, o pensamento dos que o precederam. Entra de novo na liça, amadurecido pela experiência, para avançar mais. E todos, trabalhadores da primeira e da última hora, com os olhos bem abertos sobre a profunda justiça de Deus, não mais murmuram: adoram.
Tal um dos verdadeiros sentidos desta parábola, que encerra, como todas as de que Jesus se utilizou falando ao povo, o gérmen do futuro e também, sob todas as formas, sob todas as imagens, a revelação da magnífica unidade que harmoniza todas as coisas no Universo, da solidariedade que liga todos os seres presentes ao passado e ao futuro. - Henri Heine. (Paris, 1863.)
Missão dos espíritas
4. Não escutais já o ruído da tempestade que há de arrebatar o velho mundo e abismar no nada o conjunto das iniqüidades terrenas? Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres.
Não mais vos assusteis! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. O verdadeiros adeptos do Espiritismo!... sois os escolhidos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados. Certamente falareis a criaturas que não quererão escutar a voz de Deus, porque essa voz as exorta incessantemente à abnegação. Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos, como aos déspotas! Palavras perdidas, eu o sei; mas não importa. Faz-se mister regueis com os vossos suores o terreno onde tendes de semear, porquanto ele não frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e da charrua evangélicas. Ide e pregai!
Ó todos vós, homens de boa-fé, conscientes da vossa inferioridade em face dos mundos disseminados pelo infinito!... lançai-vos em cruzada contra a injustiça e a iniqüidade. Ide e proscrevei esse culto do bezerro de ouro, que cada dia mais se alastra. Ide, Deus vos guia! Homens simples e ignorantes, vossas línguas se soltarão e falareis como nenhum orador fala. Ide e pregai, que as populações atentas recolherão ditosas as vossas palavras de consolação, de fraternidade, de esperança e de paz.
Que importam as emboscadas que vos armem pelo caminho! Somente lobos caem em armadilhas para lobos, porquanto o pastor saberá defender suas ovelhas das fogueiras imoladoras.
Ide, homens, que, grandes diante de Deus, mais ditosos do que Tomé, credes sem fazerdes questão de ver e aceitais os fatos da mediunidade, mesmo quando não tenhais conseguido obtê-los por vós mesmos; ide, o Espírito de Deus vos conduz.
Marcha, pois, avante, falange imponente pela tua fé! Diante de ti os grandes batalhões dos incrédulos se dissiparão, como a bruma da manhã aos primeiros raios do Sol nascente.
A fé é a virtude que desloca montanhas, disse Jesus. Todavia, mais pesados do que as maiores montanhas, jazem depositados nos corações dos homens a impureza e todos os vícios que derivam da impureza. Parti, então, cheios de coragem, para removerdes essa montanha de iniqüidades que as futuras gerações só deverão conhecer como lenda, do mesmo modo que vós, que só muito imperfeitamente conheceis os tempos que antecederam a civilização pagã.
Sim, em todos os pontos do Globo vão produzir-se as subversões morais e filosóficas; aproxima-se a hora em que a luz divina se espargirá sobre os dois mundos.
Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque, principalmente entre os mártires do trabalho, desta provação terrena, encontrareis fervor e fé. Ide; estes receberão, com hinos de gratidão e louvores a Deus, a santa consolação que lhes levareis, e baixarão a fronte, rendendo-lhe graças pelas aflições que a Terra lhes destina.
Arme-se a vossa falange de decisão e coragem! Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai!
Ide e agradecei a Deus a gloriosa tarefa que Ele vos confiou; mas, atenção! entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai, pois, vosso caminho e segui a verdade.
Pergunta. - Se, entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho?
Resposta. - Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de Sua lei; os que seguem Sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição. - Erasto, anjo da guarda do médium. (Paris, 1863.) (1)
(1) Na terceira edição francesa esta mensagem saiu incompleta e sem assinatura. Completamo-la em confronto com a 1ª edição do original. - A Editora da FEB, em 1948.
Os obreiros de Senhor
5. Aproxima-se o tempo em que se cumprirão as coisas anunciadas para a transformação da Humanidade. Ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade! Seus dias de trabalho serão pagos pelo cêntuplo do que tiverem esperado. Ditosos os que hajam dito a seus irmãos: "Trabalhemos juntos e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra", porquanto o Senhor lhes dirá: "Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra!" Mas, ai daqueles que, por efeito das suas dissensões, houverem retardado a hora da colheita, pois a tempestade virá e eles serão levados no turbilhão! Clamarão: "Graça! graça!" O Senhor, porém, lhes dirá: "Como implorais graças, vós que não tivestes piedade dos vossos irmãos e que vos negastes a estender-lhes as mãos, que esmagastes o fraco, em vez de o amparardes? Como suplicais graças, vós que buscastes a vossa recompensa nos gozos da Terra e na satisfação do vosso orgulho? Já recebestes a vossa recompensa, tal qual a quisestes. Nada mais vos cabe pedir; as recompensas celestes são para os que não tenham buscado as recompensas da Terra." Deus procede, neste momento, ao censo dos seus servidores fiéis e já marcou com o dedo aqueles cujo devotamento é apenas aparente, a fim de que não usurpem o salário dos servidores animosos, pois aos que não recuarem diante de suas tarefas é que ele vai confiar os postos mais difíceis na grande obra da regeneração pelo Espiritismo. Cumprir-se-ão estas palavras: "Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros no reino dos céus." - O Espírito de Verdade. (Paris, 1862.)
A PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA
Um homem possuia uma grande vinha, onde colhia bastante uvas.
Um dia, saiu de casa bem cedo para procurar novos trabalhadores para seu vinhedo.
Chegando à praça da cidade, perto de sua casa, encontrou alguns homens sem emprego. Combinou com eles o salário daquele tempo, que era um denário por dia. Os operários, satisfeitos, aceitaram imediatamente o convite e, por ordem do proprietário, seguiram para o trabalho da vinha.
As nove horas da manhã, o vinhateiro voltou àpraça, onde havia sempre, como era costume naquela época, pessoas que procuravam serviço. Encontrou mais alguns homens desempregados e disse-lhes:
— Ide também trabalhar na minha vinha. Eu vos pagarei o que for justo.
E os trabalhadores seguiram para o campo e começaram sua tarefa.
Ao meio-dia, e depois às três da tarde, o vinhateiro voltou à mesma praça e fez o mesmo, contratando novos trabalhadores.
As cinco horas da tarde, pela última vez nesse dia, esteve no mesmo local, onde encontrou igualmente alguns homens sem serviço. Perguntou-lhes, então:
— Por que estais aqui, o dia inteiro, desocupados?
E os homens responderam:
— Senhor, aqui estamos porque ninguém contratou nossos serviços até agora.
Respondeu o vinhateiro:
- Ide também vós trabalhar na minha vinha.
Ao anoitecer, o senhor da vinha chamou o administrador e disse-lhe que fizesse o pagamento dos salários aos trabalhadores.
Naqueles tempos, os operários recebiam o pagamento diariamente; esse salário de cada dia era chamado jornal. Por isso, eram chamados também jornaleiros.
— Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos e acabando pelos primeiros — ordenou o vinhateiro.
Foram chamados os que chegaram às cinco horas da tarde e só trabalharam uma hora. E cada um deles recebeu um denário.
E assim, os outros que começaram a tarefa às três horas da tarde e ao meio-dia. Por fim, chegaram os que começaram o serviço pela manhã bem cedo. Pensavam que iriam receber mais (pois viram os trabalhadores da última hora receberem um denário). O administrador, porém, pagou igualmente aos primeiros um denário.
Então, estes começaram a resmungar contra o senhor da vinha, alegando:
— Estes últimos trabalharam somente uma hora e tu os igualaste a nós, que agüentamos o peso do dia e o calor sufocante.
O proprietário, entretanto, disse a um deles que mais murmurava:
— Meu amigo, eu não te faço injustiça; não combinaste comigo o jornal de um denário? Recebe, pois, o que te pertence, sem reclamação. Eu quero dar aos últimos tanto quanto dei a ti. Não achas que tenho direito de fazer o que me agrada daquilo que me pertence? Por que sentes ciúme e inveja? Não tenho, por acaso, o direito de ser bondoso?
*
Termina Jesus a Parábola dizendo: “Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão últimos”.
Esta bela história, filhinho, mostra como Deus executa Sua Perfeita Justiça.
À primeira vista, parece que os operários queixosos tinham razão de reclamar contra o vinhateiro, pois eles trabalharam mais tempo que os últimos, que só tiveram uma hora de serviço. Esse, filhinho, é o raciocínio humano, é idéia da justiça humana, que só considera o lado exterior das coisas. No caso da parábola, os operários não tinham direito de reclamação, porque estavam recebendo o salário combinado na praça com seu patrão. Era o salário comum naquele tempo, para o trabalho de um dia. O senhor da vinha havia prometido pagar um denário e cumpriu sua palavra.
Não houve nenhuma injustiça da parte do proprietário da vinha. Ele quis pagar támbém um denário, isto é, o salário justo, aos trabalhadores de última hora, certamente porque viu que o serviço feito por estes, nessa única hora, foi feito com boa vontade, amor e cuidado. Ele considerou, não o tempo, mas, a qualidade do serviço feito.
Assim é a Justiça Divina, filhinho. Ela nos recompensará, um dia, na Eternidade, pelo trabalho que fizermos em favor do Reino de Jesus na Terra. A recompensa, porém, será dada, não em consideração ao número de horas de nosso serviço, nem à quantidade do mesmo. Não, meu filho, Deus não olhará o lado exterior, visível, nem o volume de nossas obras. Deus nos julgará pela qualidade de nosso trabalho, pela sinceridade de nossos atos, pela nossa boa vontade no auxílio aos outros, pelo amor, cuidado e dedicação com que cumprirmos nossas tarefas. Deus olha a qualidade de nosso trabalho e não as horas de nosso serviço. A Justiça Divina considera nosso coração e nosso caráter, e não nosso relógio e nossa balança.
Que seu serviço, filhinho, na Vinha do Evangelho, agora ou mais tarde, quando você crescer, seja sempre feito com boa vontade, com sinceridade, com amor. Que você não se habitue a reclamações. Que você nunca inveje o que seja dado aos outros, como fizeram os trabalhadores das primeiras horas. Respeite o trabalho e o entusiasmo dos companheirinhos novos, que vão chegando para a Escola de Evangelho e começando a fazer alguma coisa para Jesus. Não sinta ciúme, se eles receberem qualquer atenção, ou provas de bondade, dos professores. A Parábola é uma grande lição contra o Espírito de reclamação, contra a mania das queixas, contra o veneno da inveja.
Que você, filhinho, procure fazer sempre, com boa vontade e humildade, qualquer serviço, pequenino ou maior, que Jesus confia ao seu coração.
A PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA
Jesus, certa feita, narrou a parábola que ficou conhecida como a dos “trabalhadores da última hora”, tida como uma das de interpretação mais difícil. Todavia, utilizando a fé raciocinada, que a Doutrina Espírita nos recomenda, tentemos compreender o que o Divino Mestre quis nos ensinar. Segue abaixo o texto, conforme Mateus 20:1-16:
“O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha. – Tendo convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. – Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, – disse-lhes: Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram. – Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. – Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É, disseram eles, que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a minha vinha. – Ao cair da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros. – Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um denário cada um. – Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber mais; porém, receberam apenas um denário cada um. – Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, – dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso do dia e do calor. – Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? – Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. – Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom? – Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos.”
Jesus afirmou, em outra ocasião: “O Reino dos Céus está dentro de vós”, o que podemos interpretar da seguinte forma: a semente da evolução rumo à perfeição relativa foi plantada por Deus dentro da intimidade de cada ser, dependendo do seu próprio esforço a aquisição das virtudes, que possibilitam a maior ou menor “intimidade” com Ele. Assim é que Jesus, modelo de Perfeição Relativa para nós, habitantes da Terra, planeta do qual Ele é o Sublime Governador, pode dizer: “Eu e o Pai somos Um”, tamanha Sua sintonia com Deus, não por privilégio imerecido, mas por ter sido, dos Espíritos que encarnaram na Terra, o único que descreveu uma trajetória evolutiva isenta de erros de ordem moral.
Quanto à comparação do Reino dos Céus com uma vinha, onde cada trabalhador seja convidado a servir, recebendo um salário, podemos entender que essa vinha seja o próprio Espírito: cabe a cada um “trabalhar” seu intelecto e sua moralidade. O salário é a própria evolução, que somente Deus tem condições de avaliar quanto cada um merece. Não é o tempo que é levado em conta, pois o tempo representa mera convenção humana: para Deus não há tempo.
Os Espíritos que se mostram descontentes com os critérios de remuneração, ou sejam, as Leis Divinas, são rebeldes, egoístas, que ainda carecem de aperfeiçoamento nessa área, sendo, portanto, atrasados na escala evolutiva.
Os Espíritos evoluídos se sentem felizes em trabalhar na própria evolução, que se processa através da reforma moral, beneficiando indiretamente todos os demais seres da Criação que lhes estão ao alcance.
Os que adquiriram a humildade são os mais evoluídos, pois obedecem espontaneamente as Leis Divinas, dando Jesus o exemplo máximo dessa virtude durante toda a Sua trajetória terrena, inclusive quando lavou os pés dos Seus discípulos, mostrando-lhes a importância da humildade.
Os orgulhosos, egoístas e vaidosos são os últimos na escala evolutiva, pois estão atrelados ao primitivismo ético-moral e, por isso, não podem ser designados para missões realmente relevantes para a evolução espiritual da humanidade.
Todos são destinados à evolução intelecto-moral, mas muitos não se interessam principalmente quanto ao aspecto ético-moral, que exige sacrifícios e renúncia às coisas do mundo.
A presente interpretação representa apenas o desejo de contribuir para a reflexão, à luz da Doutrina Espírita.
Luiz Guilherme Marques
Os trabalhadores da última hora
Silvio Seno Chibeni
1. Introdução
Como todo estudioso do Espiritismo sabe, o título do presente artigo é o título dado por Allan Kardec ao capítulo 20 de O Evangelho Segundo o Espiritismo. O que poucos talvez tenham notado é que esse é o único capítulo do livro que não possui comentários do próprio Kardec: à transcrição da passagem evangélica – a intrigante parábola dos trabalhadores da última hora – seguem-se imediatamente as Instruções dos Espíritos, em número de quatro. Isso, porém, não passa de detalhe curioso, já que os textos de Kardec e os dos Espíritos expressam um pensamento uno, não sendo raro que os primeiros superem os segundos em alcance, clareza e precisão. O que mais importa são os ensinamentos contidos no capítulo. Iremos, por economia de espaço, restringir nossa análise à parábola e ao primeiro texto escolhido por Kardec para comentá-la, de autoria de Constantino, Espírito Protetor, recebida em Bordeaux em 1863.
2. A parábola
Para comodidade do leitor, transcreveremos agora todo o texto da parábola citado por Kardec. Notemos, desde já, que se trata de uma das muitas ocasiões em que Jesus procura ensinar algo sobre Deus e as leis divinas – “o reino dos céus” – por meio de uma comparação com uma estória envolvendo coisas e situações ordinárias. Eis a parábola, registrada em Mateus 20:1-16:
O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha. – Tendo convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. – Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, – disse-lhes: Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram. – Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. – Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É, disseram eles, que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a minha vinha. – Ao cair da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros. – Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um denário cada um. – Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber mais; porém, receberam apenas um denário cada um. – Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, – dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso do dia e do calor. – Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? – Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. – Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom? – Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos.
3. Começando a entender...
Das parábolas evangélicas, algumas são de compreensão relativamente fácil, como a do bom samaritano (Lc 10:25-37) ou a do semeador (Mt 13:1-9), que o próprio Jesus explicou aos discípulos (Mt 13:18-23). Outras, porém, trazem dificuldades interpretativas consideráveis, exigindo mais meditação e maior familiaridade com o conjunto da doutrina cristã para que um sentido razoável seja alcançado. Dissemos um sentido, porque a riqueza alegórica dessas estórias contadas pelo Mestre em geral deixa aberta a possibilidade de diversas interpretações.
A parábola dos trabalhadores da última hora seguramente pertence à classe das parábolas “difíceis”, já que compara o reino dos céus, onde tudo é justiça, com uma situação aparentemente injusta: a remuneração igual a jornadas de trabalho desiguais.
Não obstante essa dificuldade central, a parábola contém, felizmente, alguns pontos mais ou menos claros, com os quais devemos principiar nossos esforços interpretativos. Trata-se de várias “pontes” que ligam os elementos da estória com o reino dos céus:
o pai de família
–
Deus
a vinha
–
o Universo
os trabalhadores
–
os seres humanos
o trabalho na vinha
–
o trabalho no bem
as horas
–
qualquer período de tempo
o salário
–
a felicidade
Embora nem todas as ligações sugeridas sejam triviais, acreditamos que sejam as que mais naturalmente ocorrem a quem se dedique a entender o texto evangélico. O sentido geral do ensinamento é que é difícil de apreender, dado o aparente conflito da idéia de um Deus justo com o modo pelo qual o senhor da vinha remunerou os trabalhadores. Logicamente, só temos duas opções para eliminar o conflito: ou supomos que Jesus de fato pretendeu caracterizar Deus como injusto; ou revemos nossa impressão inicial, de que o comportamento do senhor da vinha foi injusto. Ora, como a primeira alternativa é insustentável, face ao conjunto dos ensinamentos cristãos, temos de desenvolver a segunda opção. Para tanto, comecemos atentando para o seguinte:
O pai de família pagou aos trabalhadores da primeira hora exatamente o valor combinado, de modo que não os prejudicou, como ele mesmo lembrou quando eles se queixaram;
Quanto aos demais, a parábola nada diz sobre acerto de salário, sugerindo-nos que os trabalhadores aceitaram a oferta de trabalho sem pré-condições;
O próprio senhor da vinha justifica sua ação, dizendo que foi um ato de bondade: o denário que mandou dar aos que foram convocados mais tarde seria, pois, parte remuneração pelas horas que trabalharam e parte auxílio espontâneo.
Assim, quando consideramos os casos separadamente vemos que em suas relações com cada grupo de obreiros o senhor nada fez de errado.
Mas mesmo nos termos em que a questão é colocada no item (c), ficamos incomodados com o fato de que o senhor distribuiu o benefício-extra desigualmente: quanto mais tarde chegaram, menor a parcela do denário correspondente à remuneração, e portanto maior a que representaria o auxílio.
Talvez seja útil transpor a questão para situações de nosso dia-a-dia. Quando saímos pela rua e damos esmolas desiguais a dois pedintes estaremos sendo injustos? Quando contribuímos, em trabalho ou dinheiro, com duas instituições de caridade, porém em maior medida a uma do que à outra, é injustiça?
Nossas reflexões sobre esse problema podem ser auxiliadas pelas considerações expendidas por Constantino na mencionada instrução. Passemos, pois, a ela.
4. Recorrendo a Constantino...
O texto de Constantino compõe-se de quatro parágrafos, que passam gradativamente aos níveis interpretativos mais alegóricos da parábola. O curto parágrafo inicial atém-se ainda de forma quase que exclusiva ao sentido literal do texto evangélico:
[§ 1] O obreiro da última hora tem direito ao salário, mas é preciso que a sua boa-vontade o haja conservado à disposição daquele que o tinha de empregar e que o seu retardamento não seja fruto da preguiça ou da má-vontade. Tem ele direito ao salário, porque desde a alvorada esperava com impaciência aquele que por fim o chamaria para o trabalho. Laborioso, apenas lhe faltava o labor.
Vemos que o Espírito destaca alguns aspectos importantes que ainda não havíamos considerado. Há uma condição para o recebimento do denário: a disposição permanente para o trabalho. Aqueles que foram contratados à terceira, sexta, nona e undécima hora tinham boa-vontade, ansiavam por trabalhar. Faltou-lhes, porém, a oportunidade. Quando o senhor da vinha os convocou, aceitaram pressurosamente e, segundo se depreende, sem sequer inquirir pela remuneração.
Visando a realçar esse ponto, no segundo parágrafo Constantino estende a parábola para uma hipotética situação contrastante:
[§ 2] Se, porém, se houvesse negado ao trabalho a qualquer hora do dia; se houvesse dito: “tenhamos paciência, o repouso me é agradável; quando soar a última hora é que será tempo de pensar no salário do dia; que necessidade tenho de me incomodar por um patrão a quem não conheço e não estimo! quanto mais tarde, melhor”; esse tal, meus amigos, não teria tido o salário do obreiro, mas o da preguiça.
As disposições positivas dos trabalhadores da última hora podem, assim, ser entendidas como fatores que sensibilizaram o pai de família, induzindo-o ao gesto de generosidade.
Ademais, vale lembra que ao perguntar, no item 930 de O Livro dos Espíritos,acerca da situação das pessoas que se vêm impossibilitadas de trabalhar por causas independentes de sua vontade, Kardec obtém a observação de que “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome”. E, explicando o ponto, os Espíritos acrescentam: “Com uma organização social criteriosa e previdente, ao homem só por culpa sua pode faltar o necessário.” É, pois, uma clara alusão à solidariedade que os homens devem se esforçar por implantar no mundo.
Felizmente, notamos que esse pensamento, de vanguarda para a época, já vem se difundindo entre as lideranças mais lúcidas de nossa sociedade, tanto assim que em muitos países já existe o seguro-desemprego, para acudir aos trabalhadores que contingencialmente se encontrem sem oportunidade de emprego. Nenhuma pessoa sensata classificaria de injusto esse dispositivo, muito pelo contrário.
Ora, nessa perspectiva o senhor da parábola seria alguém que, mesmo naqueles tempos primitivos, teria sido tocado pela dificuldade daqueles homens que impacientemente esperavam pela oportunidade de ganhar seu pão, solidarizando-se com eles por meio, primeiro, da oferta de trabalho e, depois, pelo auxílio pecuniário adicional.
Afastando-nos agora um pouco do sentido literal da estória, ensaiemos a sua interpretação em termos do “reino dos céus”. Com base no que foi visto até aqui, infere-se que com a parábola Jesus procurou salientar a virtude da boa-vontade e da disposição para o trabalho. Num plano mais amplo, o trabalho não deve, é claro, ser entendido unicamente como o trabalho ordinariamente assim considerado, as atividades braçais e intelectuais passíveis de remuneração. “Toda ocupação útil é trabalho”, conforme a resposta à questão 675 de O Livro dos Espíritos. Tudo o que concorra para o desenvolvimento próprio, do semelhante e, em geral, da criação, é trabalho, nessa conceituação estendida.
A mensagem mais evidente da parábola é, pois, a importância de nosso engajamento nas atividades da “vinha” universal. Ele traz para nós o “salário” da felicidade: o bem-estar físico, a satisfação intelectual, o prazer do cultivo do Belo, a tranqüilidade moral.
A diversidade dos grupos de trabalhadores da parábola indica a diversidade dos seres criados e das tarefas a desempenhar em cada estágio de sua evolução. Deus reconhece essa diversidade, convocando cada um a seu tempo para as tarefas adequadas ao momento. E contanto que haja disposição para o trabalho, todos recebem o fruto de seus labores, por mais modestos que sejam. Não espera o Senhor que, num dado “dia” todos desempenhem as mesmas tarefas. A meta de todos deve ser a de colaborar cada vez mais na obra divina, mas a convocação divina leva em conta a capacidade presente de cada um. A nós cabe estar permanentemente dispostos ao labor, para que não sejamos como os servos imaginados por Constantino, que receberam somente o “salário da preguiça”, ou seja, a estagnação evolutiva.
Não somente a preguiça e a indiferença têm de ser evitadas, mas também a afoiteza e a precipitação. Por falta de bom-senso, arriscamo-nos freqüentemente em tarefas para as quais não estamos, presentemente, preparados. Pior ainda: movidos pelo orgulho lançamo-nos em empreendimentos que se nos afiguram “grandes”, não pelo bem que deles decorra, mas pela evidência em que nos coloquem. O malogro parcial ou total, e a dura decepção de nossa vaidade é o resultado inevitável de tais iniciativas.
A igualdade dos “pagamentos” que cada trabalhador de boa-vontade recebe reflete a bondade divina, que valoriza tudo aquilo que venhamos a fazer na obra do bem. Não ressaltou Jesus esse ponto na expressiva passagem do óbolo da viúva? (Ver Mc 12:41-44 e Lc 21:1-4, bem como os comentários de Kardec a essa passagem no item 6 do capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo.)
Outra virtude veladamente evocada pela parábola é o desinteresse. Conforme já notamos, os trabalhadores da última hora e todos os demais que foram convocados depois do início do dia aceitaram a oferta de trabalho sem perguntar quanto ganhariam. Do mesmo modo, nossa meta é fazer o bem pelo bem, tão logo a ocasião apareça, e não “por cálculo”, contabilizando os benefícios que dele nos advenham. Kardec sabiamente inseriu um estudo sobre esse ponto logo após o referente ao óbolo da viúva, nos itens 7 e 8 do capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Todo esse capítulo, aliás, contém reflexões valiosas sobre o assunto, complementando as fundamentais elucidações contidas na seção inicial do capítulo “Da perfeição moral” de O Livro dos Espíritos.
Por fim, além da indolência e do interesse, mais um vício parece ser exprobrado na parábola: a inveja (“Tens mau olho, porque sou bom?”). Vendo o gesto de generosidade do pai de família, os trabalhadores da primeira hora queixaram-se, muito embora no que lhes dissesse respeito ele houvesse agido com correção. Aproveitando uma sugestão interpretativa feita anteriormente, seria mais ou menos como se nos queixássemos do governo por conceder auxílio-desemprego a um colega provisoriamente desempregado. Além de injustificável inveja, faltaríamos com a solidariedade, que deve reinar entre os homens em geral. (Questão deixada para o leitor: Quem os trabalhadores da primeira hora poderiam simbolizar?)
5. Ainda com Constantino...
Após ter comentado, assim, a situação dos preguiçosos e indiferentes, Constantino prossegue, penúltimo parágrafo da mensagem:
[§ 3] Que dizer, então, daquele que, em vez de apenas se conservar inativo, haja empregado as horas destinadas ao labor do dia em praticar atos culposos; que haja blasfemado de Deus, derramado o sangue de seus irmãos, lançado a perturbação nas famílias, arruinado os que nele confiaram, abusado da inocência, que, enfim, se haja cevado em todas as ignomínias da Humanidade? Que será desse? Bastar-lhe-á dizer à última hora: Senhor, empreguei mal o meu tempo; toma-me até ao fim do dia, para que eu execute um pouco, embora bem pouco, da minha tarefa, e dá-me o salário do trabalhador de boa vontade? Não, não; o Senhor lhe dirá: “Não tenho presentemente trabalho para te dar; malbarataste o teu tempo; esqueceste o que havias aprendido; já não sabes trabalhar na minha vinha. Recomeça, portanto, a aprender e, quando te achares mais bem disposto, vem ter comigo e eu te franquearei o meu vasto campo, onde poderás trabalhar a qualquer hora do dia.”
Agora não se trata mais da indolência do servo que despreza o trabalho, mas da ação destrutiva daquele que, ao invés de ajudar, atrapalha a obra divina. A extensão dos comentários de Constantino para esse tópico é particularmente relevante para nós, Espíritos ligados à Terra. A observação dos fatos confirma a classificação de Kardec na seção “Destinação da Terra – Causas das misérias humanas”, do capítulo 3 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, da Terra como planeta especialmente destinado ao abrigo de Espíritos desajustados com as leis divinas. Como reafirmaria depois Emmanuel, “todas as entidades espirituais encarnadas no orbe terrestre são Espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado, com exceção de Jesus-Cristo...” (O Consolador, questão 243).
Também sabemos, à luz dos ensinos cristãos e espíritas, que nossa interferência indébita na harmonia universal traz para nós conseqüências negativas, sofrimentos e tribulações que visam a impor limites à nossa ação maléfica, despertando-nos para o bem. Não desenvolveremos esse tema aqui, por sobejamente explorado na boa literatura espírita.
Centremos nossa atenção nas singulares palavras de Constantino. Como entender a reação atribuída ao Senhor, diante do servo mau: “Não tenho presentemente trabalho para te dar...” ? Tolher-nos-ia Deus a oportunidade do trabalho depois que falimos? Sabemos, por outro lado, que é somente pelo trabalho no bem que repararemos nossos erros, apagando suas repercussões. (Ver o “Código penal da vida futura”, no capítulo 7 da primeira parte de O Céu e o Inferno.)
Inspecionando mais atentamente o texto, vemos que o Senhor não impede para sempre o servo “cevado em todas as ignomínias” de trabalhar em sua vinha. Depois que reaprender a trabalhar construtivamente, ser-lhe-á novamente franqueado o vasto campo de ação na vinha.
Mas por que esse impedimento temporário? É que a prática do mal pode de tal forma destrambelhar-nos que, por algum tempo, naturais limitações nos advirão. Seria como um motorista insensato, que provoca um acidente e vai hospitalizado. Enquanto permanecer internado, não poderá desenvolver todas as atividades para as quais estaria em princípio capacitado. É um período de recomposição.
Do mesmo modo, aos nossos desatinos espirituais sobrevém um estágio de reequilíbrio, de aprendizado pela dor, de reflexão. Se, porém, esse estágio no “hospital” divino nos limita em alguns aspectos – as idiotias, as paralisias, as enfermidades degenerativas incuráveis, a miséria extrema, etc. – sempre resta-nos a possibilidade de agir no bem pela paciência e resignação, pelos esforços para corrigir-nos, pela gratidão a quem nos auxilie, pelo sorriso de esperança, e por tantas outras formas.
6. Seriam os espíritas os trabalhadores da última hora?
Concluindo este nosso estudo, vejamos agora o último parágrafo do texto de Constantino. Com base nele, bem como numa passagem da Instrução que o segue, de Henri Heine, difundiu-se no meio espírita a idéia de que “os espíritas são os trabalhadores da última hora”. Não é raro vermos esse pensamento exposto até mesmo com uma certa ponta de orgulho. Afinal, na parábola os trabalhadores da undécima hora são aqueles que mais se beneficiaram da magnanimidade do senhor. Estaríamos todos, então, admitidos à vinha, com salário integral e tudo.
Será isso o que os Espíritos escreveram, ou deram a entender? Examinaremos aqui apenas o que diz Constantino, pois a mensagem de Heine parte de uma perspectiva diferente e requereria outro artigo. Eis o parágrafo:
[§ 4] Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora. Bem orgulhoso seria aquele que dissesse: Comecei o trabalho ao alvorecer do dia e só o terminarei ao anoitecer. Todos viestes quando fostes chamados, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas há quantos séculos e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que quisésseis penetrar nela! Eis-vos no momento de embolsar o salário; empregai bem a hora que vos resta e não esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que vos pareça, mais não é do que um instante fugitivo na imensidade dos tempos que formam para vós a eternidade.
A leitura atenta deste trecho não parece corroborar a referida interpretação. Primeiro, a frase inicial qualifica os espíritas: “Bons espíritas...”. O adjetivo ‘bons’ em geral passa despercebido! Logo, a frase não diz respeito aos espíritas em geral, mas aos bons espíritas. E todos conhecemos a impressionante lista de qualidades dos bons espíritas, que Kardec registrou no capítulo 17 do Evangelho Segundo o Espiritismo, seções “O homem de bem” e “Os bons espíritas”.
Além disso, a frase não tem o artigo definido ‘os’ antes de ‘obreiros da última hora’, como normalmente se diz. A inclusão do artigo emprestaria ao pensamento um ar de sectarismo e orgulho incompatível com a índole da doutrina espírita. Os bons espíritas não são os obreiros da última hora, com a implícita exclusão dos outros homens, mas simplesmente obreiros da última hora. Eles são aqueles que passaram, numa “hora” relativamente recente da história da humanidade, a trabalhar, ao lado de tantos outros, na vinha do Senhor.
E mais: nem mesmo entendida corretamente a comparação de Constantino serviria de fundamento a qualquer sentimento ufanista no meio espírita. Afinal, os trabalhadores da última hora não tiveram nenhum mérito relativamente aos da primeira hora. Simplesmente são aqueles para quem, por uma razão ou por outra, a tarefa chegou um pouco mais tarde.
Prosseguindo, o Espírito modifica um pouco a alegoria, ao salientar que mesmo estes em geral ignoraram durante séculos os apelos do Senhor para o trabalho na vinha! A rigor, então, os bons espíritas não deveriam se orgulhar nem mesmo de terem sempre estado aguardando ansiosamente o chamado para a obra divina. Estão, via de regra, na condição geral da humanidade terrena, de Espíritos que fizeram mau uso de seu livre-arbítrio em passado próximo ou distante.
No entanto, o que os caracteriza – sem a exclusão de outros, repetimos – é que agora já superaram aquele período de “hospitalização”, e reaprenderam a trabalhar no bem. Esse o seu maior salário: a bênção de já poderem trabalhar na construção de sua felicidade, mediante o amor ativo ao próximo e a si mesmos.
Que dizer agora dos espíritas que ainda não podem ser ditos bons? Esses são os que, não obstante terem as luzes dos princípios espíritas ao seu alcance, ainda resistem indolentemente a trabalhar, ou a trabalhar tanto quanto sua condição permitiria; ou aqueles, em condição mais lastimável ainda, que ainda se “cevam nas ignomínias” morais, sem envidar esforços para emendar-se.
É claro que essa classificação não é nítida, ou seja, não há apenas dois grupos de espíritas. Há uma gradação contínua, começando naqueles francamente retardatários e terminando nos que já entendem e vivenciam plenamente as diretrizes divinas para os homens. Caberá a nós determinar, pelo exame isento de nossos pensamentos e atos, nossa posição nessa escala, e incessantemente procurar galgar posições cada vez mais avançadas, pela reparação de nossos erros, pela superação de vícios e conquista de virtudes.
Referências bibliográficas
Emmanuel. O Consolador. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 8a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1940.
Kardec, A. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
–––. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro. 111a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
–––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DA VINHA
PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DA VINHA,
OU PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA,
OU PARÁBOLA DOS TRABALHADORES DAS DIVERSAS HORAS DO DIA.
"Porque o Reino dos Céus é semelhante a um proprietário, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha. E feito com os trabalhadores o ajuste de um denário por dia, mandou-os para a sua vinha.
Tendo saído cerca hora terceira, viu estarem outros na praça desocupados, e disse-lhes: Ide também vós para a minha vinha, e vos darei o que for justo. E eles foram. Saiu outra vez cerca da hora sexta, e da nona, e fez o mesmo. E cerca da undécima, saiu e achou outros que lá estavam e perguntou-lhes: Por que estais aqui todo o dia desocupados? Responderam-lhe: Porque ninguém nos assalariou. Disse-lhes: Ide também pra a minha vinha.À tarde, disse o dono da vinha ao seu administrador.
Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos e acabando pelos primeiros. Tendo chegado os que tinham sido assalariados cerca da undécima hora, receberam um denário cada um. E vindo os primeiros, pensavam que haviam de receber mais; porém, receberam igualmente um denário cada um.
Ao receberem-no, murmuravam contra o proprietário, alegando:
Estes últimos trabalharam somente uma hora, e os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia e o calor extremo!. Mas o proprietário disse a um deles: Meu amigo, não te faço injustiça; não ajustaste comigo por um denário? Toma o que é teu e vai-te embora, pois quero dar a este último tanto como a ti. Não me é licito fazer o que me apraz do que é meu? Acaso o teu olho é mau, porque eu sou bom? Assim os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos". (Mateus, XX, 1-16)
À primeira vista, pode parecer que Jesus, nesta parábola, esteja consagrando a arbitrariedade e a injustiça.
De fato, não seria falta de equidade pagar o mesmo salário, tanto aos que trabalham doze horas, como aos que trabalham dois terços, a metade, um terço, ou apenas um duodécimo da jornada?
Sê-lo-ia, efetivamente, se todos os trabalhadores tivessem a mesma capacidade e eficiência. Tal, porém, não é o que se verifica. Há operários diligentes, de boa vontade, que, devotando-se de corpo e alma às tarefas que lhes são confiadas, produzem mais e melhor, em menos tempo que o comum, assim como há os mercenários, os que não têm amor ao trabalho, os que se mexem somente quando são vigiados, os que estão de olhos pregados no relógio, pressurosos de que passe o dia, cuja produção, evidentemente, é muito menor que a dos primeiros.
Uma vez, pois, que o mérito de cada obreiro seja aferido, não pelas horas de serviço, mas pela produção, que interessa ao dono do negócio saber se, para dar o mesmo rendimento um precisa de doze horas, outro de nove, outro de seis, outro de três e outro de uma?
Malgrado a diversidade das horas de trabalho, a remuneração igual, aqui, é de inteira justiça.
Transportando-se esta parábola para o campo da espiritualidade, o ensino não se perde; pelo contrário, destaca-se ainda mais. O pai de família é Deus; a vinha somos nós, a Humanidade; e o trabalho, a aquisição das virtudes que devem enobrecer nossas almas.
Para realizar esse desiderato, uns precisam de menos tempo, outros de mais, conforme cumpram, bem ou mal, os seus deveres.
O prêmio, entretanto, é um só: a alegria, o gozo espiritual decorrente da própria evolução alcançada.
Neste texto evangélico confirma-se, ainda que de forma velada, a doutrina reencarnacionista.
Os trabalhadores da primeira hora são os espíritos que contam com maior número de encarnações, mas que não souberam aproveitá-las, perdendo as oportunidades que lhes foram concedidas para se regenerarem e progredirem.
Os trabalhadores contratados posteriorrmente simbolizam os espíritos que foram gerados há menos tempo, mas que, fazendo melhor uso do livre-arbítrio, caminhando em linha reta, sem se perderem por atalhos e desvios, lograramem apenas algumas existências o progresso que outros tardaram a realizar. Assim se explica porque "os primeiros poderão ser dos últimos e os últimos serem os primeiros" a ganhar o reino dos céus.
Esta interessante parábola constitui, ainda, um cântico de esperança para todos. Por ela, Jesus nos ensina que qualquer tempo é oportuno para cuidarmos do aperfeiçoamento de nossas almas, e, quer nos encontremos nos albores da existência, quer estejamos, já, beirando a velhice, desde que aceitemos, com boa disposição, o convite para o trabalho, haveremos de fazer jus ao salário divino.
Rodolfo Calligaris.
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TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA
"Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque há muitos chamados e poucos escolhidos."
Utilizando pequenas histórias, ensinava Jesus aos homens do seu tempo as grandes verdades revestidas de simples palavras. O símbolo que usou, no presente caso, foi o dos trabalhadores que, embora trabalhando períodos desiguais, receberam a mesma paga. Mas o trabalhador da última hora teve direito ao salário porque estava com sua boa vontade, disponível desde a primeira hora.
O que tivesse recusado ao chamado para a labuta por preguiça ou, pior ainda, porque gastara suas horas cometendo atos culpáveis, esse não faria jus ao salário, devendo recomeçar a aprender a não desperdiçar o tempo.
A seqüência da parábola dos trabalhadores da última hora é interpretada do seguinte modo: os trabalhadores da primeira hora são os profetas, Moisés e todos os iniciadores de etapas do progresso, continuadas através dos séculos pelos mártires, os sábios, os filósofos e, finalmente, os espíritas, que são os operários da última hora. Eles aproveitam o trabalho dos seus predecessores, porque o homem deve herdar do homem e assim revivem hoje reviverão amanhã, a obra que começaram no passado. Conforme a lei da reencarnação, muitos profetas ou discípulos do passado voltam, mais esclarecidos, mais adiantados, trabalhando não mais nas bases mas no coroamento do edifício. Há, assim, uma filiação espiritual e a tarefa, aparentemente interrompida com o fim de uma existência, é sempre retomada mais adiante, como se fosse apanhado no ar o pensamento de seus predecessores (conforme mensagem do Espírito grande poeta Heinrich Heine).
Aos trabalhadores da última hora, os espíritas, bem como a todos aqueles que nas diversas escolas religiosas ou filosóficas ouviram o chamamento, é dirigido um apelo especial para que percebam a tempestade que começa a desabar que fará desparecer o velho mundo e consumirá as iniquidades.
Está aí o sentido da expressão de que muitos estão sendo chamados e poucos os escolhidos, segundo o bom ou mau cumprimento das suas missões e a maneira como suportaram as suas provas terrenas. A missão consiste em, sacrificando hábitos e ocupações fúteis, pregar a palavra divina, o desapego aos avarentos, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos e aos déspotas de todos os tipos.
Os homens de boa vontade, que percebem a sua inferioridade ao contemplar os mundos do espaço, partem para lutar contra a injustiça e a iniqüidade, para derrubar o culto do bezerro de ouro, cada dia crescente. Através do dom da mediunidade, homens simples e ignorantes soltarão suas línguas e falarão como nenhum orador sabe falar. As revoluções morais e filosóficas, vão eclodir em todos os pontos do globo, aproximando a hora em que a luz divina prevalecerá sobre o nosso mundo.
Se entre os chamados para o Espiritismo muitos se desviaram, como reconhecer os que se acham no roteiro certo! Podem ser reconhecidos pelo ensino e pela prática dos verdadeiros princípios da caridade, pela consolação que prodigalizam aos aflitos, pelo amor que dedicam aos seus semelhantes, pela sua abnegação e seu desinteresse pessoal. Deus quer que sua lei triunfe e os que a seguem são escolhidos.
Diz o Espírito de Verdade: "Chegastes ao tempo em que se cumprirão as coisas anunciadas para a transformação da humanidade. Felizes serão os que tiverem trabalhado no campo do Senhor com desinteresse e sem outro móvel que a caridade", pois '"as recompensas celestes são para aqueles que não houverem pedido as recompensas da Terra". E finaliza: "Deus faz neste momento a enumeração de seus servidores fiéis e marcou com seu dedo os que só têm aparência do devotamente, a fim de que não usurpem os salários dos servidores corajosos, pois é àqueles que não recuarem diante de suas tarefas que vai confiar os postos mais difíceis na grande obra da regeneração pelo Espiritismo, e estas palavras se cumprirão: os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros no Reino dos Céus".
Baruch Ben Ari
Tempo de despertar a alma - Adenáuer Novaes
“Porque o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha.” Mateus, 20:1.
O Cristo propôs salário àqueles que começassem a trabalhar mais tarde de igual valor aos que tivessem iniciado mais cedo. À primeira vista é um contra-senso, pois que, hoje em dia, se paga o salário pela hora trabalhada. Por outro ângulo, do ponto de vista ainda legal, pode-se afirmar que, depois de admitido no emprego, quando nada há para fazer no início de sua jornada de trabalho, o operário receberá a diária independente de ter iniciado a tarefa apenas no final do dia. Seria, portanto, pertinente o pagamento do mesmo salário independente da produção do operário, se não havia trabalho a ser feito.
Podemos, no entanto, estabelecer outras considerações a respeito do tema, tendo em vista a aparente injustiça na afirmação de que, cabe o mesmo salário ao que trabalhou o dia inteiro e àquele que só o fez na última hora do dia.
A complexidade da vida na Terra requer do ser humano a habilidade de aprender a fazer escolhas, pois muitos são os caminhos e processos a seguir. Há muito que aprender, não sendo possível fazê-lo numa única encarnação. Ao fazer suas escolhas estará, automaticamente, renunciando a outras, as quais poderá ter que optar mais tarde. Parecerá que, ao escolher determinada via, tenha negligenciado outras que, aparentemente, seriam mais importantes. Quando tiver que retomar aquelas vias não escolhidas, outros já a terão trilhado, parecendo displicência sua. Os que optaram primeiro pela via por ele não escolhida, serão os trabalhadores da primeira hora. Quando ele optar, será o trabalhador da última hora.
De um ponto de vista psicológico poderíamos afirmar que se trata de escolher aquilo que está mais próximo da consciência, como também o que é mais importante para o Espírito naquele momento. As escolhas recaem, muitas vezes, em resolver e vivenciar, o quanto antes, as questões primeiras do processo de Vida, tais como: profissão, casamento, filhos, dinheiro, etc, deixando-se de lado o que seria mais fundamental. Relega-se, na maioria das vezes, a último plano as questões ligadas à espiritualidade. Na visão junguiana existe uma zona psíquica consciente e outra inconsciente, sendo esta muito mais abrangente que aquela. Ao decidir-se cuidar de seu mundo interior, o ser humano pode iniciar seu processo com suas questões ligadas à área inconsciente como também iniciar pelas ligadas à área consciente. Se optar pela primeira, saberá que se trata de um processo longo e mais difícil do que se optasse pela última. Na primeira, terá que fazer um mergulho maior em sua essência, tendo que buscar aspectos mais profundos de sua personalidade, isto é, suas motivações espirituais, suas capacidades evolutivas, sua tendências arquetípicas, etc. Na última, tenderá a cuidar dos aspectos mais recentes de sua vida: infância, relacionamento familiar, escolha profissional, vivência afetiva, etc., todos estes da atual reencarnação.
Para quem optou pela primeira, ao se deparar com aqueles que optaram pela última, parecerá futilidade ou superficialidade tal preferência. Talvez ele não perceba que, um dia, terá que fazer semelhante caminho. Parecerá injusto para ele, por ter trilhado um caminho mais difícil e longo, chegar ao mesmo ponto que aquele que viveu processos, por ele considerados superficiais e, às vezes, fúteis. São os caminhos humanos e deverão ser trilhados por todos nós.
Psicologicamente, na idade adulta, é dar atenção às questões transcendentes do Self, além de cuidar das questões ligadas ao ego. Pode ser um equívoco não dar atenção à estruturação do ego na ascensão espiritual. Há pessoas que enveredam pela religiosidade exacerbada sem cuidar de sua vida pessoal.
O salário é o mesmo, porém o trabalho de estruturação do Espírito como ser interexistente da vida material e da vida espiritual é fundamental. Há que se buscar realizar-se em ambos os campos.
A última hora é o tempo não contado onde não se tem mais esperança quanto ao futuro. É o momento do entardecer na vida do ser humano. É o instante do desânimo e da possibilidade de fracasso. É também nesse momento que se deve buscar o crescimento espiritual, isto é, a atenção às coisas do Espírito. Não deve o candidato ao crescimento espiritual culpar-se por começar mais tarde e após ter vivido uma vida material preenchida de equívocos. É sempre tempo de começar a plantar a semente do próprio crescer.
Uma análise mais profunda nos levaria a entender que o Cristo também nos alertava quanto ao tempo e sua premência. Chamava-nos a atenção para que aproveitássemos todos os momentos de nossa Vida. É sempre a última hora, o derradeiro minuto, isto é, nunca é tarde para buscarmos a transformação de nossos hábitos equivocados em atitudes positivas. Talvez ele também nos alertasse quanto ao momento do planeta Terra, que passa por uma fase transitória de provas e expiações para uma outra de renovação moral. Alerta-nos para valorizarmos todos os momentos de nossa Vida na busca do equilíbrio e da paz, pois o ‘salário’ será recompensador.
Àquele que reclamara por ter recebido o mesmo salário, embora tenha trabalhado mais, ele diz: “Mas o proprietário respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último, tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom? Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos [porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos].
O preço do trabalho é o mesmo para todos os Espíritos, quer tenham começado seu processo evolutivo mais cedo ou não. Todos alcançaremos a felicidade através do conhecimento e da vivência das leis de Deus.
As palavras contidas na parábola do trabalhador da última hora nos levam a entender que não se deve retirar a esperança da vida das pessoas. Mesmo que a pessoa viva iludida, não se deve sumariamente eliminar o motivo que a mantém viva. É preciso aproveitar sua última cota de esperança e de motivação para lhe fazer perceber uma nova realidade. É dar-lhe o ‘salário’ necessário para que rompa com os equívocos do passado.
A mensagem da parábola nos convida a não viver do passado nem reclamar do que não tivemos. Fixar-se no passado é perder tempo no presente. A investigação do próprio passado só tem sentido quando buscamos acertar no presente para não mais cometermos equívocos no futuro.
O trabalhador da última hora não perde tempo em disputas estéreis com seu semelhante, uma vez que enxerga em si mesmo seu próprio adversário interior. É esse seu campo de batalha onde terá de sair vitorioso no futuro. Sua felicidade, isto é, seu ‘salário’ lhe é dado pelo seu próprio esforço em se melhorar.
As frustrações da infância ou de outras encarnações não devem se constituir em exigências do presente, mas tão somente em caminhos percorridos a fim de se apreender as leis de Deus
FÉ RACIOCINADA
“A fé inabalável só o é a que pode en-
carar frente a frente a razão, em to-
das as épocas da Humanidade.” (1)
Em torno da fé existem inúmeras afirmativas negando-lhe o caráter racional. Segundo alguns teólogos, racioci-na-se sobre a crença, mas não sobre a fé. A fé, segundo eles, é uma virtude, um dom que transcende a própria razão.
Por colocarem-na como virtude ou dom transcendental, pertencente exclusivamente à área do sentimento, é que muitas pessoas confundem emoção com fé. Por isso, é comum pessoas dizerem ter sentido uma fé imensa, capaz de levá-las a grandes realizações, no momento em que ouviam o relato de passagens do Evangelho, ou de ações levadas a efeito por benfeitores da Humanidade, ou até mesmo em decorrência da simples leitura de uma página edificante. A emoção, a vibração espiritual que os atos nobres suscitam nas almas já portadoras de al-guma sensibilidade não pode ser confundida com fé. O estado emocional é transitório, enquanto a fé é perma-nente. A emoção, se analisada e orientada pela inteligência, pode ser auxiliar valiosa para levar a criatura a modificar-se para melhor. Entretanto, se não for esclarecida pela razão pode conduzir ao fanatismo, à chamada fé cega, que é a negação da própria fé.
O mundo está cheio de exemplos tristes dos frutos do fanatismo religioso. Em nome da fé, quantas persegui-ções, quantas mortes e até guerras? Ainda nos dias atuais, principalmente na semana santa, existem pessoas que vertem seu próprio sangue, ferindo seus corpos, ou se entregam a privações terríveis no intuito de mostrar sua fé em Deus. Se raciocinassem, veriam que Deus, como Pai amoroso, bom e misericordioso, nunca poderia ser homenageado com o derramamento do sangue dos Seus filhos. Essa concepção de um deus sanguinário, com-bateu-a o Profeta Elias, séculos antes de Jesus, quando enfrentou os sacerdotes adoradores do deus Baal. (I Reis, 18: 22 a 40).
Aprende-se no Espiritismo que, na sua caminhada evolutiva, o Espírito vai conhecendo as leis de Deus, vai percebendo-lhes a perfeição e, quanto mais as conhece, mais se identifica com elas, mais confia na justiça e no amor do Criador, mais se conscientiza da Sua perfeição, mais tem fé. Essa a fé que nasce do entendimento. Inabalável, indestrutível.
Emmanuel ensina: “Ter fé é guardar no coração a luminosa certeza em Deus, certeza que ultra-passou o âmbito da crença religiosa, fazendo o coração repousar numa energia constante de realização divina da personalidade. Conseguir a fé é alcançar a possibilidade de não mais dizer eu creio, mas afirmar eu sei, com todos os valores da razão, tocados pela luz do sentimento.” (2).
A fé que o Espiritismo preconiza não é uma fé contemplativa, capaz de levar uma pessoa à imobilidade, em situações de êxtase, em que fica aguardando providências de Deus em seu favor. Ao contrário, é uma fé dinâmica, edificada vagarosa e conscientemente pelo Espírito, à medida que evolui, conforme ensina Emmanu-el: “A árvore da fé viva não cresce no coração miraculosamente. A conquista da crença edificante não é serviço de menor esforço. A maioria das pessoas admite que a fé constitua milagrosa auréola doada a alguns espíritos privilegiados pelo favor divino.” (3)
A fé espírita não é aquela que se fixa em objetos materiais como cruzes, escapulários, benti-nhos, talismãs, amuletos, medalhas, etc. O espírita tem fé em Deus, em Jesus, nos bons Espíritos, entidades dotadas de sentimento e de inteligência, seres capazes de movimentar recursos em seu favor. Essa fé é muito diferente da crença infantil num pretenso poder mágico de objetos materiais, que não poderiam jamais movi-mentar, com inteligência e sentimento, recursos a benefício de alguém.
Entretanto, é lícito se indague sobre a origem da fé raciocinada. Teria ela nascido com o Espiri-tismo? Não, a fé raciocinada nos vem de Jesus, dos ensinamentos do seu Evangelho. O Mestre mudou comple-tamente o próprio conceito de religião, introduzindo no campo até então puramente emocional da fé, o compo-nente razão, entendimento. Ninguém, até Jesus, fez tantos apelos ao raciocínio no âmbito religioso. Kardec, conhecedor profundo da atuação de Jesus, o conhecia, não como um místico, mas como um educador de almas que, ao tempo em que tocava o sentimento daqueles que o ouviam, sabia também levá-los ao entendimento das lições.. Por isso, tem a Doutrina Espírita essa característica de racionalidade. E não podia ser de outra forma, de vez que ao Espiritismo coube o papel de reviver o Cristianismo na sua pureza, simplicidade e pujança originais
Jesus nunca explorou a emoção de ninguém. Sua fala, mansa e humilde, precisa e firme, era dirigida ao senti-mento e à inteligência. Suas lições foram sempre pautadas no diálogo, através do qual propunha o exame racio-nal daquilo que ensinava.
Censurado por haver curado uma mulher paralítica num sábado, bem poderia deixar que a própria cura falasse por ele, mas não perdeu a oportunidade de, através de uma pergunta, fazer pensar aqueles que o ouviam: “(...) no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi, ou o jumento, e não o leva a beber? E não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás a tinha presa?” (Lc, 13: 15 e 16).
De outra feita, ele próprio perguntou aos doutores da lei, antes de curar um homem: “É lícito curar no sábado?” (Lc, 14: 3). Como não respondessem, Jesus curou o hidrópico e o despediu. Depois, ele volta a inqui-ri-los, a fim de conscientizá-los de que acima da letra morta há uma interpretação racional, inteligente: “Qual de vós o que, caindo-lhe num poço, em dia de sábado, o jumento ou o boi, o não tire logo?” (Lc, 14: 5).
“E orando, não useis de vãs repetições...” (Mt, 6: 7). Quer o Mestre dizer que devemos orar com plena consciência daquilo que falamos, que a nossa oração não seja uma repetição emocional de uma fór-mula decorada, como se fosse algo recitado ou declamado. Ao contrário, que seja uma mensagem consciente-mente elaborada, com um conteúdo de comunicação dirigida ao Alto, e que não seja uma simples ladainha.
Jesus, ao conversar com a samaritana, à beira do poço de Jacó, demonstra que não necessitava de inquirir alguém para informar-se de algo. Ali deixa claro para ela que conhecia-lhe o passado como a palma de sua mão. (Jo, 4: 17). Entretanto, freqüentemente fazia perguntas para suscitar dúvida no seu interlocutor, a fim de fazê-lo pensar, raciocinar e não receber passivamente um ensinamento: “Qual é mais fácil? Dizer: Os teus pecados te são perdoados; ou dizer: Levanta-te e anda?” (Lc, 5: 23).
Ao invés de fazer um discurso eloqüente e emocionado sobre a Providência Divina, o Mestre busca, através de perguntas, levar seus ouvintes a pensarem, a raciocinarem sobre Deus. Depois de lhes ter fa-lado sobre os lírios do campo, dizendo que Deus os veste, e compara sua vestimenta ao luxo do rei Salomão: “Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?” (Mt, 6: 30).
“E qual de vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhos pedirem?” (Mt, 7: 9 a 11). Também por essa passagem pode-se ver que Jesus não buscava levar ninguém a uma adoração emotiva, a uma fé cega. Ele poderia ter dito, por exemplo que se deve ter fé em Deus, criador de tudo o que existe, que é bom, amoroso, misericordioso, providente etc. Mas não, só isso não bastava. Se ficasse só nessas afirmações, teria suscitado uma fé passiva. Ele queria fazer as criaturas entenderem, através de uma comparação, que o Todo Poderoso deveria ser, neces-sariamente, melhor que um pai terreno e, portanto, capaz de dar maiores bens aos Seus filhos.
Os apelos que Jesus, nas suas lições, fazia não só ao sentimento, mas também à inteligência, foi objeto de estudo até mesmo fora do ambiente religioso, por um médico psiquiatra, Augusto Jorge Cury, quando diz: “... ele não anulava arte de pensar, ao contrário, era um mestre intrigante nessa arte. Cristo não discorria sobre uma fé sem inteligência. Para ele, primeiro se deveria exercer a capacidade de pensar e refletir antes de crer, depois vinha o crer sem duvidar. Se estudarmos os quatro evangelhos e investigarmos a maneira como Cristo regia e expressava seus pensamentos, constataremos que pensar com liberdade e consciência era uma obra-prima para ele.” (4)
O trecho do Novo Testamento que mais evidencia o ambiente pedagógico, de diálogo, de liber-dade de análise, na busca de esclarecimentos, que Jesus propiciava a todos que ouviam-lhe as lições é, certa-mente, o assim chamado “A Transfiguração”. Registra Mateus, no capítulo 17, que Jesus subiu a um alto mon-te, acompanhado de Pedro, Tiago e João. O Mestre orou e se transfigurou, cobrindo-se de luz, ao tempo em que apareceram – seguramente materializados, pois que os três discípulos os viram – Moisés e Elias, que conversa-ram com ele. Passado o momento sublime, ao regressarem, o Mestre ordena aos discípulos que não contem nada do que acontecera até ele ressuscitasse. É de se imaginar o contentamento e a emoção que devem ter sen-tido aqueles discípulos ao contemplarem Jesus coberto de luz, Moisés, o pai dos profetas, e o grande profeta Elias. Entretanto, eles não se detiveram em atitude de contemplação mística, de deslumbramento. Pelo contrá-rio, o raciocínio funcionou imediatamente, na busca de resposta para algo que lhes pareceu estranho: “E os discípulos o interrogaram, dizendo: Por que dizem então os escribas que é mister que Elias venha primeiro?” (Mt, 17: 10). Por que a pergunta? Ora, havia sido predito pelos profetas – e os escribas sempre o repetiam – que o Mestre seria precedido por Elias, que voltaria para preparar-lhe o caminho. Os discípulos, vendo Elias desencarnado, deduziram que algo estava errado: ou as profecias não espelhavam a verdade, ou aquele que se apresentara e conversara com Jesus não era Elias, ou Jesus não era o Messias! Jesus, com a tranqüilidade da-queles que detêm a verdade, respondendo, disse-lhes: “Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do homem.” (Mt, 17: 12). E, em seguida, conclui o Evangelista: “Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista.” (Mt, 17: 13). Tudo estava certo. A profecia já se havia cumprido.
Diante do que se acabou de ver, conclui-se que Jesus foi um pedagogo e não um místico. Sabia atrair seus ouvintes com as doces consolações da fé, mas não alimentava atitudes de deslumbramento contem-plativo, face aos apelos ao raciocínio com que mesclava suas sublimes lições. Encaminhava-os ao entendimento lógico, racional dos fatos! Jesus, como Mestre admirável que foi, soube criar um clima de diálogo aberto. Foi essa liberdade que levou os discípulos a buscarem imediatamente esclarecimento sobre a aparição de Elias, embora a pergunta formulada por eles contivesse embutido um grave questionamento, qual seja o da própria condição de Messias do seu Mestre. Jesus não se sente agastado e, com a segurança daqueles que estão com a Verdade, os esclarece. Assim, vê-se claramente que Jesus não impunha suas idéias, não violentava consciên-cias, nem exigia fé cega, sem exame. Não. Sua mensagem sempre foi dirigida ao intelecto e ao sentimento, bases legítimas da fé raciocinada, que o Espiritismo veio reviver.
1. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 9, item 7
2. O Consolador, perg. 354
3. Caminho, Verdade e Vida, cap. 40
4. Análise da Inteligência de Cristo, pág. 18
5. Bíblia Sagrada, trad. João Ferreira d'Almeida (todas as citações)
José Passini
Juiz de Fora MG
passinijo-se@yahoo.com.br
Publicado no Reformador – fev. 2005
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
O Espiritismo e a fé
Artigos Revistas
Octávio Caúmo Serrano
Convidados a falar sobre o tema acima na AME-PB, dissemos que quando nos perguntam o que de mais precioso o Espiritismo legou à humanidade respondemos que foi o conhecimento.
O Espiritismo não veio ao mundo, no tempo devido, para aplicar passes. A imposição de mãos para abençoar ou provocar a cura é uma prática bastante antiga; Jesus já a usava.
O Espiritismo não veio para combater a obsessão, porque esse trabalho é executado há séculos, com o nome de exorcismo, pela igreja católica.
O Espiritismo não veio para distribuir água fuidificada (também chamada água fluída), porque a água benta sempre esteve disponível nas igrejas.
O Espiritismo não veio para cantar, ou fazer reuniões inócuas, porque os cultos e as missas já fazem isso há séculos.
O Espiritismo também não veio para dar sopa, distribuir roupas ou alimentos, porque as assistências sociais dos governos ou particulares já se dedicam a isso há muito tempo.
O que o Espiritismo nos dá, pelo conhecimento que nos trouxe, é o entendimento de como tudo isso funciona e porque muitas vezes um exorcista não consegue êxito enquanto um passista ou um doutrinador consegue convencer um espírito a afastar-se da pessoa que sofre o assédio.
O processo obsessivo segundo o Espiritismo dá-se por uma estrada de mão dupla. Obsessor e obsesso são geralmente culpados por atos do passado que os deixam ligados por lembranças amargas. Mas aquele espírito maldoso nada mais é do que um irmão atrasado, magoado, ferido, que cultiva ressentimentos e desejo de vingança. Com a recuperação da “vítima” e sua iluminação interior ela se livrará do problema e poderá ajudar o outro a crescer também. Logo não é como o próprio dicionário Aurélio diz: “Obsesso - Indivíduo que se crê atormentado, perseguido pelo Demônio”.
No exorcismo, trata-se de simplesmente expulsar um demônio, que para a igreja é um espírito irrecuperável. Quando Sócrates, o que foi repetido por Jesus, falava de demônios é porque a palavra significava espírito e não satanás como depois a igreja convencionou chamar esses irmãos necessitados.
Quando recebemos ou aplicamos o passe e quando tomamos a água fluída, somos informados que existe um fator preponderante para que o sucesso se estabeleça. Chama-se merecimento. Curar alguém que precisa da dor ainda por mais um pouco não cumpre a finalidade. Muitos precisam do sofrimento para crescer. Só o conhecimento espírita, com base na Lei da Reencarnação, pode explicar essa faceta das misérias humanas.
Quando as casas espíritas convidam seus trabalhadores para serviços de assistência social – distribuição de alimentos, enxovais para gestantes, ajudar em abrigos para velhos, crianças e doentes desamparados – explica que o grande beneficiado é quem faz a doação e dá do seu carinho para os assistidos. Evita ter de viver na pele os mesmos problemas, o que fatalmente ocorre com aqueles que se mantêm omissos diante do sofrimento do próximo.
Por isso, desejamos lembrar que o Espiritismo, doutrina que está na Terra há pouco mais de cento e cinquenta anos, renovou os conceitos de fé fazendo-os muito diferentes dos que existiam antes dele.
Não significa que todos nós já tenhamos assimilado essa mudança. Refiro-me inclusive a nós, os espíritas, porque ao longo do tempo a fé foi confundida com religiosidade. Diz-nos O Evangelho Segundo o Espiritismo no seu capítulo XIX, item 12, que “a fé até o momento só foi compreendida no seu sentido religioso, porque o Cristo a revelou como poderosa alavanca, mas os homens só viram no Cristo um chefe de religião”.
Para o comum dos mortais, tem fé a pessoa que vai ao templo, seja qual for a sua doutrina, reza e cumpre seus deveres segundo os postulados que segue. Os espíritas fazem o Evangelho no Lar, tomam passes e usam água fluída, assistem às palestras, como diferentes manifestações de fé.
Consultando ainda o capítulo XIX acima referido, temos um comentário de Allan Kardec com base no enunciado de Mateus XVII-14 a 19. Nessa passagem, Jesus pratica um ato de desobsessão e aproveita para ensinar aos discípulos que eles não puderam fazer o mesmo devido à pouca fé que tinham. Convencemos um espírito a seguir novo caminho pela autoridade moral que mostramos e não pelas palavras que falamos. E pereniza a passagem de que basta a fé do tamanho de um grão de mostarda – dos menores que existem - para mover uma montanha. Kardec nos ensina que os grandes obstáculos para que tenhamos fé estão no campo material, quando não basta termos confiança em nós se priorizamos os interesses do mundo.
O Espiritismo nos ensina que não basta crer; é preciso, sobretudo, compreender. E a lei da reencarnação é a chave para todo esse entendimento.
Se fizermos um enquete entre cem pessoas religiosas e lhes perguntarmos se elas têm fé, todas dirão que sim. Que assistem à missa ou ao culto ou à palestra. Que oram diariamente, praticam a caridade. Mas nenhuma só se manterá firme na sua fé se um sofrimento imprevisto chegar como doença, debacle financeira, abalo do lar ou qualquer outro.
A melhor definição de fé, portanto, seria que tudo o que nos acontece está autorizado por Deus e, portanto, é bom para nós. Um cataclismo que destrói cidades e vidas atende à lei de Deus para o progresso do homem. Não acontece por acaso sem que Deus pudesse impedir. Quem compreende, resigna-se diante dos problemas, apesar de continuar sua luta; mesmo ocorrendo a morte. Afinal, o que é ela diante da vida? A vida verdadeira é eterna e nela, portanto, somos imortais!
Só o Espiritismo, entre as doutrinas cristãs, nos dá esse entendimento. Por isso dissemos no início que a maior herança que ele nos deixou foi a possibilidade de adquirirmos conhecimento. E conhecendo a verdade, como já informou Jesus, seremos livres!
Revista RIE - Setembro de 2009
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