domingo, 16 de setembro de 2012
Eu ou Ego - texto da Clinica Psiquê
ÿ Ego
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. É o sujeito da ação consciente. Num certo sentido é o primeiro
complexo a se formar na consciência, sendo seu centro. Estrutura-se a partir
do inconsciente e é, muitas vezes, confundido com o centro organizador e
diretor do aparelho psíquico. Conhecer a si mesmo não é conhecer o eu ou
ego, que só conhece seus próprios conteúdos, mas, também, aquele centro
organizador. O processo de desenvolvimento da personalidade, a
individuação, consiste em diferenciar o ego de suas estruturas arquetípicas
auxiliares. O ego, o Self (centro organizador da psiquê) e o ego onírico (o eu
dos sonhos) são instâncias psíquicas diferentes. O ego se baseia no arquétipo
do Si-Mesmo, sendo, de certa forma, seu agente no mundo da consciência.
Desarme do ego
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“Senhor, quando foi que te vimos com
fome, com sede, forasteiro, nu,
enfermo ou preso, e não te
assistimos? Então lhes responderá:
em verdade vos digo que sempre que
o deixastes de fazer a um destes mais
pequeninos, a mim o deixastes de
fazer.” Mateus, 25:44 e 45.
A palavra salvação, colocada por Allan Kardec, como título do capítulo XV de
O Evangelho Segundo o Espiritismo, merece uma interpretação adequada ao que
queremos demonstrar, pois ela tem um sentido mais psicológico que religioso.
Salvar-se não se refere, necessariamente, a uma ameaça externa, nem tampouco a
uma atitude para com o semelhante. Não há ameaça grave nem abismo a que o ser
humano esteja ameaçado de cair, muito menos um inimigo contra o qual deva se
precaver sob pena de perder a Vida. A salvação compreende a adoção de um estado
de consciência que disponibilize a mente para a captação do mundo como ele se
apresenta, isto é, sem os filtros impeditivos das defesas do ego. Salvar-se é
predispor-se a viver a Vida sentindo suas conseqüências com maturidade e
equilíbrio, quaisquer que sejam elas.
A salvação diz respeito a uma mudança de atitude psíquica. Trata-se de
estabelecer um estado de espírito que possibilite a apreensão das leis de Deus sem os
1
NOVAES, Adenáuer. Mito Pessoal e Destino Humano. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2005,
p. 251.
2
NOVAES, Adenáuer. Psicologia do Evangelho. 2. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 1999, p.
90-93.medos e os receios impregnados nos mecanismos de defesa que normalmente o ser
humano adota frente à Vida e perante aquilo que desconhece. O ‘inimigo’, por assim
dizer, é oculto, interno, inconsciente, e age sutilmente nos escaninhos da mente
humana. A salvação compreende a necessidade de aprender a lidar com esse inimigo
interno, correspondente à sombra pessoal.
Por outro lado, a afirmação de que fora da caridade não há salvação supõe que
não existe outro estado possível. É determinante que se aja daquela forma sem a
qual não se alcança o que se pretende. Nesse sentido, a caridade não é tão somente
uma atitude externa ou um ato isolado. É também um estado de espírito, uma atitude
psíquica. Uma predispõe a outra atitude mais elevada.
A caridade é um meio, como uma ponte que nos leva de um lugar a outro, sem
os perigos de se cair no abismo. Não se trata de uma atividade externa, como um
compromisso social ou uma regra decorrente de um preceito religioso. Pode-se até
iniciar-se a compreensão de seu significado pela prática externa, mas isso não
garante alcançar seu sentido real. O exercício da caridade, como de qualquer
atividade humana, leva à consolidação de seu sentido oculto. Em paralelo à prática,
deverá ocorrer a internalização da mensagem significante, intrínseca à experiência.
Num sentido psicológico, a caridade elimina as projeções, pois me possibilita
enxergar o outro naquilo em que ele necessita e não no que desloco de minha
personalidade e projeto nele. Doar algo a alguém é desprender-se de si mesmo
vendo o outro como ele é. É não projetar sua sombra no outro. Ela, a caridade, leva
o indivíduo a sair de si e a perceber o outro no momento evolutivo em que se
encontra, permitindo que aquele que a exerce saia dos limites de seu ego e vá na
direção do Self próprio e do outro.
Esse deslocamento na direção do outro não se trata apenas de uma ação, mas,
principalmente, de um sentimento; um estado de ser interior, de sentido de
desprendimento. Esse estado psicológico predispõe o indivíduo à percepção de si
mesmo, pois o coloca em contato com a sombra do outro e, conseqüentemente, com
a sua própria, face à vontade de prestar auxílio.
Praticar a caridade pode ser apenas estar caridoso, isto é, realizar uma tarefa
como outra qualquer. Quando se trata de um estado de espírito, o indivíduo é
caridoso, isto é, trata-se de um traço de sua personalidade. Passar de um estado a
outro requer, além de outros aspectos, conhecimento de si mesmo. Ser caridoso é
entrar em contato com sua essência divina, com o Self, cujo sentido básico é a
organização psíquica para o contato com Deus.
Aquele estado favorece o caminho para a dissolução dos complexos enraizados
no inconsciente, pois inibe as reações defensivas do ego. Quando se atua
caridosamente, de acordo com um sentimento interno, vence-se a barreira que
impede a conscientização dos complexos. O sentimento de caridade permite o
desarme defensivo do ego e a utilização demasiada das personas, isto é, das
máscaras.
A atitude caridosa que atende somente a regras externas atua de modo
contrário, ou seja, inflacionando o ego com sentimentos de vaidade e orgulho. Por mais que ajude o outro, a caridade aparente pode funcionar como um disfarce para a
satisfação dos desejos de reconhecimento e destaque daquele que a pratica. Por
outro lado, ser caridoso para com os demais pode significar uma fuga das próprias
questões, de modo a não entrar em contato com sua sombra, evitando curar-se a si
mesmo.
O sentimento de caridade, complementado pela ação caridosa, diminui o poder
do ego estimulando o processo de desenvolvimento espiritual. Psiquicamente, o
indivíduo consegue melhor elaborar seus conteúdos inconscientes bem como
aqueles conscientes que impedem a percepção de si mesmo. Esse sentimento
provém do Espírito e se torna consciente com o exercício constante e persistente da
ação caridosa.
Somos naturalmente condicionados a atitudes externas de acordo com o senso
comum oriundo da educação, da cultura e da convivência, o que nos torna seres de
ação movidos pelo coletivo. É possível perceber que, face à existência da
individualidade, há motivações singulares, nascidas da essência espiritual de cada
um, porém as tendências coletivas são poderosos guias da Vida do ser humano. O
exercício da caridade, bem como o cultivo do sentimento da caridade, conseguem
reduzir o efeito dessa tendência natural a viver o coletivo. A caridade inibe as
tendências coletivas, arquetípicas, que nos impulsionam para longe de nós mesmos.
Essas tendências não são de todo prejudiciais. Se de um lado, nos distanciam do
alcance da nossa realização pessoal, de outro, porém, nos colocam em condições de
viver em sociedade.
As relações sociais naturalmente geram tensões, disputas e diferenças,
colocando o ser humano em constante embate entre sua individualidade e as
exigências do mundo. Ora ele afirma sua individualidade, ora ele busca sua
identidade com o grupo social de que faz parte. O alívio dessas tensões significa o
encontro consigo mesmo e a paz com o mundo. A caridade proporciona a necessária
identidade com o mundo por trazer consigo a empatia nas relações com o próximo.
Ela permite a identidade com o semelhante de tal forma que o indivíduo se sente uno
com o outro, igualando-se a ele na sua necessidade. Psiquicamente diminui as
barreiras que provocam tensões e elimina as vaidades do ego, aproximando as
pessoas umas das outras.
Estar em paz é garantia para o equilíbrio psíquico, previne os acessos abruptos
do inconsciente e inibe as obsessões. Nesse estado, o indivíduo entra em contato
com os Bons Espíritos, favorecendo sua motivação para viver. Semelhante estado se
alcança com a vivência da caridade. Ela promove o bem estar psíquico preparando a
mente para vencer as investidas persistentes dos conflitos oriundos das vidas
passadas enraizados no inconsciente. A “fina camada” que separa a vida consciente
da inconsciente, onde se encontram as experiências esquecidas da atual encarnação e
das vidas anteriores, permite a passagem, para o aprendizado do Espírito, dos
complexos afetivos oriundos de antigas situações dolorosas. Essa influência
constante do passado sobre o presente é amenizada pelo sentimento de caridade, que
age como um filtro, atenuando os efeitos sobre a vida consciente.A ação da caridade sobre o próximo é uma terapia fundamentada no amor que
atinge principalmente aquele que a executa.
Eu ou ego
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Chamo de eu ou ego a representação do Espírito no mundo externo. Ele é, de
um lado, a síntese momentânea da personalidade integral, do outro, uma função que
permite a ligação da consciência com os conteúdos conscientes. Através dele o
Espírito se realiza, transformando milhões de anos de evolução na efemeridade de
um instante. A existência do ego é fundamental ao Espírito, visto que sua
manifestação direta no mundo sem esse intermédio tornar-se-ia impossível dada a
natureza de sua essência.
Segundo Jung, o ego é o sujeito da consciência e surge constituído de
disposições herdadas e de impressões adquiridas inconscientemente. Jung também
considerava o ego um complexo. Creio também que o ego, por representar o Self,
também traz um modelo dele oriundo.
É a consciência emprestada ao mundo pelo Espírito, dando-lhe a feição
material. Torna-se sua manifestação de identidade ao se apresentar ao mundo.
Mesmo durante o sono, nos estados de coma, na idade infantil, ele está
presente, ainda que temporariamente inibido. No sono, face ao entorpecimento do
corpo, ele se encontra mais livre dos condicionamentos da matéria carnal. Nos
estados de coma, bem como no período de preparação reencarnatória permanece
vigilante em face da possibilidade de deixar ou entrar no corpo. Na criança, logo
após o nascimento, inicia-se nova fase de agregação de valores, emoções,
conhecimentos e experiências para a estruturação de um novo ego.
A formação do eu ou ego é uma exigência evolutiva imprescindível à aquisição
das leis de Deus. Sem essa estrutura funcional é impossível a percepção da
singularidade do Espírito. É com o ego que o espírito se realiza e apreende as leis de
Deus.
A cada nova experiência reencarnatória, quando ainda criança, por força da
convivência social, a psiquê vai formando uma identidade pessoal que permite o
aparecimento do ego. As fases estabelecidas por Piaget para o desenvolvimento
cognitivo, sinalizam para a maturação de estruturas psíquicas, portanto
perispirituais, no processo de aprendizagem. A primeira fase é a sensório-motor, na
qual há o predomínio das sensações e imagens e pressupõe a assimilação por
repetição dos estímulos ambientais. A segunda fase é a pré-operatória, na qual há o
domínio dos símbolos e o desenvolvimento da linguagem e dos sentimentos
interpessoais. A terceira fa se é a operatório-concreto na qual há o domínio de
classes, de números e o pensamento lógico se estrutura. E, por último, a fase
operatório-formal, na qual estrutura-se o pensamento abstrato. Essas fases
3
NOVAES, Adenáuer. Psicologia do Espírito. 2. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2004, p.
99-101.descrevem de forma lógica como as capacidades latent es do Espírito, já estruturadas
no perispírito, alcançam a vida consciente, porém se referem necessariamente à
formação do eu. Elas não se referem às capacidades do espírito.
Sua estruturação se inicia a cada nova encarnação e desencarnação, visto que,
sempre que a realidade externa muda radicalmente, ele se apresenta como recurso do
Espírito para o necessário aprendizado.
O corpo faz parte do eu ou ego enquanto este se sentir identificado com aquele.
Por conseguinte o ego se auto-estrutura contraindo-se ou se expandindo. Pode-se
afirmar que o corpo é uma extensão da consciência.
Antes de transcender o ego ou mesmo de tentar anulá-lo, devemos pensar em
conhecê-lo, estruturá-lo, e, se for o caso, redefini-lo. É equívoco pensar em
renúncias e desapego para quem ainda não conseguiu, por motivos diversos, da atual
ou de outras encarnações, estruturar adequadamente seu ego.
O ego estabelece o domínio do tempo e do espaço. Por causa dele existe
passado, presente e futuro. Não há tempo no domínio do Espírito. Da mesma forma,
o ego delimita um espaço. Para o Espírito não há espaço, mas apenas existência.
A entrada no corpo, físico ou perispiritual, desloca a consciência do Espírito
para o ego. A matéria atrai o Espírito à semelhança de um imã sobre um metal.
O ego é um portal de acesso à zona consciente e elo de ligação psíquica da
matéria com o perispírito. Por ele transitam experiências do campo da consciência,
desde aquelas que são captadas diretamente pelos sentidos até as que são devolvidas
do inconsciente.
O acesso do ego aos conteúdos do inconsciente gravados no perispírito, bem
com às leis de Deus já conquistadas pelo Espírito é automático e não depende da
suspensão da consciência, porém nunca é direto, visto que eles são guardados no
formato de símbolos conectados emocionalmente. O ego trabalha de forma linear e
seqüencial, portanto numa freqüência incompatível à existente no perispírito. O que
ocorre é que o acesso nem sempre é desejado, porém a influência dos conteúdos é
constante.
DEPRESSÃO
Na raiz psicológica do Transtorno Depressivo ou de comportamento afetivo, encontra-se uma insatisfação do ser em relação a si mesmo, que não foi solucionada. Predomina no Self um conflito resultante da frustração de desejos não realizados, nos quais impulsos agressivos se rebelaram ferindo as estruturas do ego que imerge em surda revolta, silenciando os anseios e ignorando a realidade. Os seus anelos e prazeres disso resultantes, porque não atendidos, convertem-se em melancolia, que se expressa em forma de desinteresse pela vida e pelos seus valiosos contributos, experienciando gozos masoquistas, a que se permite em fuga espetacular do mundo que considera hostil, por lhe não haver atendido as exigências.
Sem dúvida, outros conflitos se apresentam, e que podem derivar-se de disfunções reais ou imaginárias da libido, na comunhão sexual, produzindo medos e surdas revoltas que amarguram o paciente, especialmente quando considera como essencial na existência o prazer do sexo, no qual se motiva para as conquistas que lhe parecem fundamentais.
Vivendo em uma sociedade eminentemente erótica, estimulada por um contínuo bombardeio de imagens sonoras e visuais de significado agressivo, trabalhadas especificamente para atender as paixões sensuais até a exaustão, não encontra outro motivo ou significado existencial, exceto quando o hedonismo o toma e o leva aos extremos arriscados e antinaturais do gozo exorbitante.
Ao lado desse fator, que deflui dos eventos da vida, o luto ou perda, como bem analisou Sigmund Freud, faz-se responsável por uma alta cifra de ocorrências depressivas, em episódios esparsos ou contínuos, assim como em surtos que atiram os incautos no fosso do abandono de si mesmo. Esse sentimento de luto ou perda é inevitável, por ferir o Self ante a ocorrência da morte, sempre considerada inusitada ou detestada, arrebatando a presença física de um ser amado, ou geradora de consciência de culpa, quando sucede imprevista, sem chance de apaziguamento de inimizades que se arrastaram por largo período, ou ainda, por atos que não foram bem elaborados e deixaram arrependimento, agora convertidos em conflito punitivo. Ainda se manifesta como efeito de outras perdas, como a do trabalho profissional, que atira o indivíduo ao abismo da incerteza para atender a família, para atender-se, para viver com segurança no meio social; outras vezes, a perda de algum afeto que preferiu seguir adiante, sem dar prosseguimento à vinculação até então mantida, abrindo espaço para a solidão e a instalação de conflito de inferioridade; sob outro aspecto ainda, a perda de um objeto de valor estimativo ou monetário, produzindo prejuízo de uma ou de outra natureza...
Qualquer tipo de perda produz impacto aflitivo, perturbador, como é natural. Demora-se algum tempo, que não deve exceder a seis ou oito semanas, o que constitui um fenômeno emocional saudável. No entanto, quando se prolonga, agravando-se com o passar do tempo, torna-se patológico, exigindo terapêutica bem elaborada.
Pode-se, no entanto, evitar as conseqüências enfermiças da perda, mediante atitudes corretas e preventivas.
Terapia profilática eficaz, imediata, propiciadora de segurança e de bem-estar, e a ação que torna o indivíduo identificado com os seus sentimentos, que deve exteriorizar com freqüência e naturalidade em relação a todos aqueles que constituem o clã ou fazem parte da sua afetividade.
Repetem-se as oportunidades desperdiçadas, nas quais se pode dizer aos familiares quanto eles são importantes, quanto são amados, explicitar aos amigos o valor que lhes atribui, aos conhecidos o significado que eles tem em relação à sua vida... Normalmente se adiam esses sentimentos dignificadores e de alta magnitude, que não apenas felicitam aqueles que os exteriorizam, mas também aqueloutros, aos quais são dirigido, gerando ambiente de simpatia e de cordialidade. Nunca, pois, se devem postergar essas saudáveis e verdadeiras manifestações da afetividade, a fim de serem evitados futuros transtornos de comportamento, quando a culpa pretenda instalar-se em forma de arrependimento pelo não dito, pelo não feito, mas sobretudo pelo mal que foi dito, pela atitude infeliz do momento perturbador... Esse tipo de evento de vida – a agressão externada, o bem não retribuído, a afeição não enunciada – pode ser evitado através dos comportamentos liberativos das emoções superiores.
Muitos outros choques externos como acidentes, agressões perversas, traumatismos cranianos contribuem para o surgimento do transtorno da afetividade, por influenciarem os neurônios localizados no tronco cerebral próximo ao campo onde o cérebro se junta à medula espinhal. Nessa área, duas regiões específicas enviam sinais a outras da câmara cerebral: a rafe, encarregada da produção da serotonina e o Locus coeruleus, que produz a noradrenalina, sofrendo os efeitos calamitosos dessas ocorrências, assim como de outras, desarmonizam a sua atividade na produção dessas valiosas substancias que se encarregam de manter a afetividade, propiciando a instalação dos transtornos depressivos.
Procedem, também, dos eventos de natureza perinatal, quando o Self, em fixação no conjunto celular, experienciou a amargura da mãe que não desejava o filho, do pai violento, dos familiares irresponsáveis, das pelejas domésticas, da insegurança no processo da gestação, produzindo sulcos profundos que se irão manifestar mais tarde como traumas, conflitos, transtornos do comportamento...
A inevitável transferência de dramas e tragédias de uma para outra existência carnal, insculpidos que se encontram nos refolhos do Eu profundo – o Espírito viajor de multifários renascimentos carnais – ressumam como conflito avassalador, a princípio em manifestação de melancolia, de abandono de si mesmo, de desconsideração pelos próprios valores, de perda da auto-estima...
Pode-se viver de alguma forma sem a afeição de outrem, sem alguns relacionamentos mais excitantes, no entanto, quando degenera o intercâmbio entre o Self e o ego o indivíduo perde o direcionamento das suas aspirações e entrega-se às injunções conflitivas, tombando, não poucas vezes, no transtorno depressivo.
Esse ressumar de arquétipos profundos, em forma de imagens arquetípicas punitivas, aguarda os fatores que se apresentam nos eventos de vida para manifestar-se, amargurando o ser, que se sente desprotegido e infeliz.
Incursa a sua consciência em culpa de qualquer natureza, elabora clima psíquico para a sintonia com outras fora do corpo somático, que se sentem dilapidadas, e sendo incapazes de perdoar ou de refazer o próprio caminho, aspiram pelo desforço covarde e insano, atirando-se em litígio feroz no campo de batalha mental, produzindo sórdidos processos de parasitose espiritual, de obsessões perversas.
Quando renasce o Self assinalado pelas heranças pregressas, no momento em que se dá a fecundação, mediante o mediador plástico ou perispírito, imprimem-se, nas primeiras células, os fatores necessários à evolução do ser, que oportunamente se manifestarão, no caso de culpa e mágoa, de desrespeito por si mesmo, de autocídio e outros desmandos, em forma de depressão. A hereditariedade, portanto, jamais descartada, é resultado do processo de evolução que conduz o infrator ao clima e à paisagem onde é convidado a reparar, a conviver consigo mesmo, a recuperar-se...
Pacientes predispostos por hereditariedade à incursão no fosso da depressão, carregam graves procedimentos negativos de experiências remotas ou próximas, que se fixaram no Self, experimentando o impositivo de liberação dos traumas que permanecem desafiadores, aguardando solução que a psicoterapia irá proporcionar.
Uma catarse bem orientada eliminará da consciência a culpa e abrirá espaços para a instalação do otimismo, da auto-estima, graças aos quais os valores reais do ser emergem, convidando-o à valorização de si mesmo, na conquista de novos desafios que a saúde emocional lhe irá facultar, emulando-o para a individuação, para a conquista do numinoso.
Em razão do largo processo da evolução, todos os seres conduzem reminiscências que necessitam ser trabalhadas incessantemente, liberando-se daquelas que se apresentam como melancolia, insegurança e receios infundados, desestabilizando-o. Ao mesmo tempo, estimulando-se a novas conquistas, enfrentando as dificuldades que o promovem quando vencidas, descobre todo o potencial de valores de que é portador e que necessitam ser despertados para as vivências enriqueceras.
O habito saudável da boa leitura, da oração, em convivência e sintonia com o Psiquismo Divino, dos atos de beneficência e de amor, do relacionamento fraternal e da conversação edificante constituem psicoterapia profilática que deverá fazer pare da agenda diária de todas as pessoas.
Joanna de Ângelis
Livro: Triunfo Pessoal
Médium: Divaldo P. Franco
Auto-Afirmação
Autor: Joanna de Ângelis (espírito)
As raízes da auto-afirmação do indivíduo encontram-se na sua infância, quando os movimentos automáticos do corpo são substituídos pelas palavras, particularmente quando é usada a negativa. Ao recusar qualquer coisa, mediante gestos, a criança demonstra que ainda não se instalaram os pródromos da sua identidade. No entanto, a recusa verbal, peremptória, a qualquer coisa, mesmo àquelas que são agradáveis, denotam que está sendo elaborada a auto-afirmação, que decorre da capacidade de escolha daquilo que interessa, ou simplesmente se trata de uma forma utilizada para chamar a atenção para a sua existência, para a sua realidade.
Trata-se de um senso de identificação infantil, sem dúvida, no qual a criança, ainda incapaz de discernir e entender, procura conseguir o espaço que lhe pertence, dessa maneira informando que já existe, que solicita e merece reconhecimento por parte das demais pessoas que a cercam.
Quando a criança concorda, afirmando a aceitação de algo, age apenas mecanicamente e por instinto, enquanto que se utilizando da negativa, também denominada conceito do não, dá início à descoberta do senso de si mesma, do seu Self, passando, a partir desse momento, a exteriorizá-lo, afirmando o NÃO, mesmo quando sem necessidade de fazê-lo. E a sua maneira de auto-identificação que, não raro, parece estranho aos adultos menos conhecedores dos mecanismos da mente infantil.
Quando ocorre a inibição da negativa — o que émuito comum — esse fenômeno dará surgimento a alguém que, no futuro, não saberá exatamente o que deseja da vida, experimentando uma existência sem objetivo, que o leva a ser indiferente a quaisquer resultados, e, por cuja razão, evita expressar-se negativamente, deixando-se arrastar indiferente aos acontecimentos, assim desvelando o estado íntimo de inibição, de timidez e de recusa de si mesmo. Com o tempo essa situação se agrava, levando-o a um estado de amorfia psicológica.
O Self, por sua vez, se estrutura e se fixa através do sentimento, e quando este se encontra confuso, sem delineamento, a auto-afirmação se enfraquece e a capacidade de dizer NÃO perde a sua força, o seu sentido.
A auto-afirmação se expressa especialmente no desejo de algo, mediante duas atitudes que, paradoxalmente se opõem: o que se deseja e o que se rejeita.
Em um desenvolvimento saudável da personalidade, sabe-se o que se quer e como consegui-lo, o que se torna decorrência inevitável da capacidade de escolha. Quando tal não ocorre, há surgimento de uma expressão esquizóide, na qual o paciente foge para atitudes de submissão receosa e de revolta interior. Silencia e afasta-se do grupo social que passa a ser visto com hostilidade, por haver-se negado a penetrá-lo, alegando, no entanto, que foi barrado... A sua óptica distorcida da realidade, trabalha em favor de mecanismos de transferência de culpa e de responsabilidade.
Mediante essa conduta, o enfermo se nega a liberação dos conflitos, mantendo-se em atitude cerrada, por falta do senso de auto-afirmação. O seu é o conceito falso de que não é bem-vindo ao grupo que ele acredita não o aceitar, quando, em verdade, é ele quem o evita e se afasta do mesmo.
À medida que vão sendo liberados os sentimentos perturbadores e negativos que se encontram em repressão, os desejos de afetividade, de expressão, de harmonia, manifestam-se, direcionando-o para valiosas conquistas.
Com o desenvolvimento da capacidade de julgar valores, surgem as oportunidades de auto-afirmação, face à necessidade de escolhas acertadas, a fim de atender aos desejos de progresso, de crescimento ético-moral e de realização interior.
Por meio de exercícios mentais, nos quais se encontrem presentes as aspirações elevadas e de enobrecimento, bem como através de movimentos respiratórios e físicos outros, para liberar o corpo da couraça dos conflitos que o tornam rígido, a auto-afirmação se fixa, propiciando um bom relaxamento, que se faz compatível com o bem-estar que se deseja.
Com o desenvolvimento intelecto-moral da criança, passando pela adolescência e firmando os propósitos de autoconquista, mais bem delineadas surgem as linhas de segurança da personalidade que enfrenta os desafios com tranqüilidade e esperanças renovadas.
Nesse particular, a vontade desempenha importante papel, trabalhando em favor de conquistas incessantes, que contribuem para o amadurecimento psicológico, característica vigorosa da saúde mental e moral.
Em cada vitória alcançada através da vontade que se faz firme cada vez mais, o ser encontra estímulos para novos combates, ascendendo interiormente e afirmando-se como conquistador que se não contenta em estacionar nos primeiros patamares defrontados durante a escalada de ascensão. Desejando as alturas, não interrompe a marcha, prosseguindo impertérrito no rumo das cumeadas.
Esta é a finalidade precípua do desenvolvimento emocional, estabelecendo diretrizes que definam a realidade do ser, que se afirma mediante esforço próprio. Em tal cometimento, não podem ficar esquecidos o contributo dos pais, da família, da sociedade, e as possibilidades inatas, que remanescem do seu passado espiritual.
Estando, na Terra, o Espírito, para aprender, reparar e evoluir, nele permanecem as matrizes da conduta anterior, facultando-lhe possibilidades de triunfo ou impondo-lhe naturais empecilhos que lhe cumpre superar.
Quando a auto-afirmação não se estabelece, apresentando indivíduos psicologicamente dissociados da própria realidade, tem-se a medida dos seus compromissos anteriores fracassados e da concessão que a Vida lhe propicia por segunda vez para regularizá-los.
Cumpre, portanto, ao psicoterapeuta, o desenvolvimento de uma visão profunda do Self, de forma especial, em relação ao ser eterno que transita no corpo em marcha evolutiva.
Somente assim, se poderá entender racionalmente o porquê de determinados indivíduos iniciarem a auto-afirmação nos primeiros meses da infância, enquanto outros já se apresentam fanados, incapazes de lutar em favor da sua realidade, no meio onde passará a experienciar a vida.
A sociedade marcha inexoravelmente para a compreensão do Espírito eterno que o homem é, do seu processo paulatino de evolução através dos renascimentos, herdeiro de si mesmo, que transfere de uma para outra etapa as realizações efetuadas, felizes ou equivocadas, qual aluno que soma experiências educacionais, promovendo-se ou retendo-se na repetição das lições não gravadas, com vistas à conclusão do curso.
A Terra assume sua condição de escola que é, trabalhando os educandos que nela se encontram e propiciando-lhes iguais oportunidades de evolução e de paz.
Psicografia de Divaldo Franco. Livro: Amor, Imbatível Amor.
Encontro com o Self - Adenáuer Novaes
“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” Mateus, 5:5 e 9.
Além de nos colocar em contato com a necessidade de nos pautarmos externamente em atitudes de não-violência, convida-nos ao apaziguamento do nosso mundo íntimo, muitas vezes em turbilhão, face aos desequilíbrios alicerçados em experiências desarmoniosas do passado. A não-violência não é apenas um comportamento externo, mas, principalmente, um estado de espírito. Por força das leis de Deus, nosso estado interior atrai circunstâncias externas no intuito de proporcionar o necessário equilíbrio e aprendizagem. A violência externa que nos atinge é fruto da desorganização interna que nos constitui. Equilibrar o mundo interior significa não mais necessitar atravessar processos educativos onde a violência seja componente.
As dificuldades externas ocorrem em função da necessidade de educarmos nosso mundo interno. É o mundo interno que “comanda” o externo. Nas vezes que questionamos a Vida sobre o motivo pelo qual ainda atravessamos certos problemas, devemos nos responder que continuaremos a vivenciá-los até que nos equilibremos interiormente.
Considerar os brandos e pacíficos bem-aventurados é estabelecer que o nosso mundo íntimo deve alcançar o estado da paz interior como condição para a real felicidade.
A paz interior é o maior bem pessoal. Há quem considere a saúde física como o maior bem que se pode ter, esquecendo-se de que um corpo sadio não garante paz de espírito. Outros consideram que a saúde financeira representa garantia de felicidade, esquecidos de que a paz interior não se compra, mas se conquista com esforço, dedicação e persistência no Bem. Ter dinheiro auxilia, porém não garante a felicidade.
Quando o Espírito desencarna leva exatamente suas aquisições psíquicas advindas das experiências emocionais que atravessou na encarnação. Isso sim é seu grande tesouro. A paz interior, ou o estar em paz consigo mesmo e com o mundo, concomitantemente, é o caminho da espiritualização.
Importante dizer que esse estado de paz interior deverá estar associado à paz com a sociedade, pois pouco adianta estar bem, porém isolado. O mundo externo é nossa arena, onde apresentamos quem somos e em que nível evolutivo nos encontramos. Ninguém é, sem ser no mundo. Estar em paz é, portanto, um ato externo e interno, simultaneamente. A individuação real se processa enquanto vivemos em sociedade.
Vivemos numa sociedade em que, muitas vezes, necessitamos agir de forma mais persistente para conseguirmos realizar aquilo que nos determinamos, porém algumas vezes somos obrigados a atuar com certa veemência na defesa de pontos de vista importantes. Nesses momentos, é imprescindível a paz e o respeito às idéias com as quais não concordamos. Intransigência e intolerância não combinam com a brandura e com a paz. Diante da competição, seja de idéias, de posições sociais ou por qualquer motivo, é indispensável a solidariedade.
Se somos intransigentes com algo, que o busquemos com a determinação equilibrada. Nela navegaremos seguros frente ao desequilíbrio porventura existente no outro. A recomendação do Cristo é fundamental nos momentos de desafio que a vida nos coloca.
Num sentido psicológico, o Cristo nos convida a colocar a mente a serviço do Self, com seu senso de organização e propósito de crescimento. O ego, por não querer perder o poder que desfruta, entra em contendas externas desequilibrando nosso mundo íntimo. A brandura é o restabelecimento do equilíbrio necessário entre o ego e o Self. O eixo ego-Self responde pela harmonia interna. Enquanto ele estiver alinhado temos a garantia de paz interior. Quando conseguirmos colocar o ego a serviço do Self, isto é, dirigir a função psíquica central da consciência para propósitos alinhados com o Espírito, alcançaremos o endereço da paz.
O recado do Cristo serve para o mundo psíquico sempre que percebemos que seguir propósitos exclusivos do ego torna-se fator de desequilíbrio. Ao contrário, perceber os propósitos do Self é garantia de seguir no rumo certo.Ambos, ego e Self, devem estar sintonizados a serviço do Espírito, verdadeiro piloto da mente. Quando o Espírito toma a decisão de se orientar pela onda da paz e do amor, o Self passa a estabelecer princípios de organização e direção voltados para o Bem. Resta ao ego acostumar-se à nova ordem interna vigente. Inicialmente haverá o conflito entre os desejos do ego e as orientações do Self. Porém, à medida em que os embates das experiências externas reduzirem o poder do ego, os objetivos começarão a ser alcançados.
O mundo tecnológico influenciou sobremaneira as relações humanas, provocando, até certo ponto, um distanciamento entre as pessoas. As relações se tornaram mais frias e distanciadas de um verdadeiro encontro. Há, em verdade, mais desencontros que encontros. A mensagem do Cristo propõe um reencontro com o carinho e a doçura, esquecidos pelo homo sapiens sapiens. Ela nos convida a formarmos um novo ser humano, aquele que provavelmente teria a alcunha de homo sapiens sapiens ‘emotiones’. Do ser humano intelectualizado para o ser humano emocionalmente evoluído.
Um gesto de carinho, muito mais do que proporcionar a intimidade com alguém, estabelece uma ligação pelocoração, onde o entendimento pode se dar de forma mais harmônica. Nesse sentido, quando, de alguma forma, entrarmos em contato com uma pessoa, deveremos chamá-la pelo nome e tratá-la com o respeito e a dignidade que todo ser humano merece. Evitar tratar as pessoas por títulos, cargos, alcunhas ou pela função que exerce naquele momento.
O carinho e a doçura estarão presentes sempre que nos preocuparmos com que a nossa fala eleve o outro, isto é, faça-o sentir-se bem. Perguntar-se sempre antes de falar: o que vou dizer é construtivo ou não? Vai melhorar a relação vigente entre nós? Vai favorecer a mim mesmo e ao outro? São perguntas importantes para os objetivos a que nos propomos, isto é, de crescermos interiormente e nas nossas relações interpessoais.
Ser carinhoso e ser doce com as pessoas é o mesmo que não as expormos aos nossos conflitos íntimos nem submeter-lhes ao fígado dos nossos desequilíbrios internos. É poupar-lhes o dissabor de servir de descarga das nossas emoções desarmonizadas. O Cristo nos convida a harmonizarmos a mente com o carinho e a doçura internas. Tratar bem dos nossos conflitos, dando-lhes a atenção devida, é garantia para o equilíbrio psíquico que desejamos.
Agir com paciência diante dos outros é nossa obrigação e dever de quem deseja melhorar-se a cada dia. Porém, precisamos entender que devemos paciência para conosco mesmos. Cabe-nos considerar que não é possível resolver numa encarnação, problemas estruturados em várias encarnações. Precisamos ter paciência com nossas imperfeições, tanto quanto com as dos outros. A exigência de ser perfeito de forma rápida, pode tornar-nos impacientes para conosco mesmos.
A paz interior não é um conceito mental nem surge simplesmente do controle dos pensamentos, mas nasce da abertura para assumir-se com seus conflitos e na determinação em solucioná-los. Negar seus problemas, comportando-se de acordo com um modelo ideal propagado por sistemas filosóficos e religiosos, é fugir da paz interior. O único caminho eficiente para alcançar esse propósito é a coragem de olhar para dentro de si mesmo.
A paciência, no sentido psicológico, é a capacidade de adiar uma ação ou uma reação. Esse adiamento pode levar segundos ou até anos. A ação ou reação não devem se constituir em simples respostas aos estímulos ambientais, mas, principalmente, em sua percepção e na adição de respostas contendo valores morais superiores.
O caminho da evolução espiritual é o da amorosidade. Amorosidade nas relações com as pessoas, consigo mesmo e com a Vida. Ser amoroso é tratar as ocorrências da vida como processos a serem vencidos com determinação e tranqüilidade. Os reveses, tanto quanto as alegrias da vida, não são ocorrências definitivas nem o fim em si do viver, são tão somente experiências que nos capacitarão à vida verdadeira, a espiritual. Viver essas experiências com amor é garantia certa de aprendizado.
Mais do que evidente o sentido que se pode aplicar a essa colocação do Cristo, pois ela vai direto ao Espírito, sem a necessidade de complexas interpretações. A mensagem do Cristo é a da paz incondicional. Por mais que se lhe atribua atos de intransigência na defesa de suas idéias, não se pode negar que sua mensagem é inteiramente pacifista.
Em todas as parábolas do Evangelho pode-se ver o sentido profundo que se pretende alcançar, buscando colocar o ser humano em contato direto consigo mesmo e com Deus. A mensagem é de reflexão da própria consciência de quem ouve, levando-a a debruçar-se sobre si mesmo. Proporciona um mergulho no si mesmo, apaziguando toda forma de violência ou de projeção externa. É uma mensagem de paz, para a paz e em paz.
Além de nos colocar em contato com a necessidade de nos pautarmos externamente em atitudes de não-violência, convida-nos ao apaziguamento do nosso mundo íntimo, muitas vezes em turbilhão, face aos desequilíbrios alicerçados em experiências desarmoniosas do passado. A não-violência não é apenas um comportamento externo, mas, principalmente, um estado de espírito. Por força das leis de Deus, nosso estado interior atrai circunstâncias externas no intuito de proporcionar o necessário equilíbrio e aprendizagem. A violência externa que nos atinge é fruto da desorganização interna que nos constitui. Equilibrar o mundo interior significa não mais necessitar atravessar processos educativos onde a violência seja componente.
As dificuldades externas ocorrem em função da necessidade de educarmos nosso mundo interno. É o mundo interno que “comanda” o externo. Nas vezes que questionamos a Vida sobre o motivo pelo qual ainda atravessamos certos problemas, devemos nos responder que continuaremos a vivenciá-los até que nos equilibremos interiormente.
Considerar os brandos e pacíficos bem-aventurados é estabelecer que o nosso mundo íntimo deve alcançar o estado da paz interior como condição para a real felicidade.
A paz interior é o maior bem pessoal. Há quem considere a saúde física como o maior bem que se pode ter, esquecendo-se de que um corpo sadio não garante paz de espírito. Outros consideram que a saúde financeira representa garantia de felicidade, esquecidos de que a paz interior não se compra, mas se conquista com esforço, dedicação e persistência no Bem. Ter dinheiro auxilia, porém não garante a felicidade.
Quando o Espírito desencarna leva exatamente suas aquisições psíquicas advindas das experiências emocionais que atravessou na encarnação. Isso sim é seu grande tesouro. A paz interior, ou o estar em paz consigo mesmo e com o mundo, concomitantemente, é o caminho da espiritualização.
Importante dizer que esse estado de paz interior deverá estar associado à paz com a sociedade, pois pouco adianta estar bem, porém isolado. O mundo externo é nossa arena, onde apresentamos quem somos e em que nível evolutivo nos encontramos. Ninguém é, sem ser no mundo. Estar em paz é, portanto, um ato externo e interno, simultaneamente. A individuação real se processa enquanto vivemos em sociedade.
Vivemos numa sociedade em que, muitas vezes, necessitamos agir de forma mais persistente para conseguirmos realizar aquilo que nos determinamos, porém algumas vezes somos obrigados a atuar com certa veemência na defesa de pontos de vista importantes. Nesses momentos, é imprescindível a paz e o respeito às idéias com as quais não concordamos. Intransigência e intolerância não combinam com a brandura e com a paz. Diante da competição, seja de idéias, de posições sociais ou por qualquer motivo, é indispensável a solidariedade.
Se somos intransigentes com algo, que o busquemos com a determinação equilibrada. Nela navegaremos seguros frente ao desequilíbrio porventura existente no outro. A recomendação do Cristo é fundamental nos momentos de desafio que a vida nos coloca.
Num sentido psicológico, o Cristo nos convida a colocar a mente a serviço do Self, com seu senso de organização e propósito de crescimento. O ego, por não querer perder o poder que desfruta, entra em contendas externas desequilibrando nosso mundo íntimo. A brandura é o restabelecimento do equilíbrio necessário entre o ego e o Self. O eixo ego-Self responde pela harmonia interna. Enquanto ele estiver alinhado temos a garantia de paz interior. Quando conseguirmos colocar o ego a serviço do Self, isto é, dirigir a função psíquica central da consciência para propósitos alinhados com o Espírito, alcançaremos o endereço da paz.
O recado do Cristo serve para o mundo psíquico sempre que percebemos que seguir propósitos exclusivos do ego torna-se fator de desequilíbrio. Ao contrário, perceber os propósitos do Self é garantia de seguir no rumo certo.Ambos, ego e Self, devem estar sintonizados a serviço do Espírito, verdadeiro piloto da mente. Quando o Espírito toma a decisão de se orientar pela onda da paz e do amor, o Self passa a estabelecer princípios de organização e direção voltados para o Bem. Resta ao ego acostumar-se à nova ordem interna vigente. Inicialmente haverá o conflito entre os desejos do ego e as orientações do Self. Porém, à medida em que os embates das experiências externas reduzirem o poder do ego, os objetivos começarão a ser alcançados.
O mundo tecnológico influenciou sobremaneira as relações humanas, provocando, até certo ponto, um distanciamento entre as pessoas. As relações se tornaram mais frias e distanciadas de um verdadeiro encontro. Há, em verdade, mais desencontros que encontros. A mensagem do Cristo propõe um reencontro com o carinho e a doçura, esquecidos pelo homo sapiens sapiens. Ela nos convida a formarmos um novo ser humano, aquele que provavelmente teria a alcunha de homo sapiens sapiens ‘emotiones’. Do ser humano intelectualizado para o ser humano emocionalmente evoluído.
Um gesto de carinho, muito mais do que proporcionar a intimidade com alguém, estabelece uma ligação pelocoração, onde o entendimento pode se dar de forma mais harmônica. Nesse sentido, quando, de alguma forma, entrarmos em contato com uma pessoa, deveremos chamá-la pelo nome e tratá-la com o respeito e a dignidade que todo ser humano merece. Evitar tratar as pessoas por títulos, cargos, alcunhas ou pela função que exerce naquele momento.
O carinho e a doçura estarão presentes sempre que nos preocuparmos com que a nossa fala eleve o outro, isto é, faça-o sentir-se bem. Perguntar-se sempre antes de falar: o que vou dizer é construtivo ou não? Vai melhorar a relação vigente entre nós? Vai favorecer a mim mesmo e ao outro? São perguntas importantes para os objetivos a que nos propomos, isto é, de crescermos interiormente e nas nossas relações interpessoais.
Ser carinhoso e ser doce com as pessoas é o mesmo que não as expormos aos nossos conflitos íntimos nem submeter-lhes ao fígado dos nossos desequilíbrios internos. É poupar-lhes o dissabor de servir de descarga das nossas emoções desarmonizadas. O Cristo nos convida a harmonizarmos a mente com o carinho e a doçura internas. Tratar bem dos nossos conflitos, dando-lhes a atenção devida, é garantia para o equilíbrio psíquico que desejamos.
Agir com paciência diante dos outros é nossa obrigação e dever de quem deseja melhorar-se a cada dia. Porém, precisamos entender que devemos paciência para conosco mesmos. Cabe-nos considerar que não é possível resolver numa encarnação, problemas estruturados em várias encarnações. Precisamos ter paciência com nossas imperfeições, tanto quanto com as dos outros. A exigência de ser perfeito de forma rápida, pode tornar-nos impacientes para conosco mesmos.
A paz interior não é um conceito mental nem surge simplesmente do controle dos pensamentos, mas nasce da abertura para assumir-se com seus conflitos e na determinação em solucioná-los. Negar seus problemas, comportando-se de acordo com um modelo ideal propagado por sistemas filosóficos e religiosos, é fugir da paz interior. O único caminho eficiente para alcançar esse propósito é a coragem de olhar para dentro de si mesmo.
A paciência, no sentido psicológico, é a capacidade de adiar uma ação ou uma reação. Esse adiamento pode levar segundos ou até anos. A ação ou reação não devem se constituir em simples respostas aos estímulos ambientais, mas, principalmente, em sua percepção e na adição de respostas contendo valores morais superiores.
O caminho da evolução espiritual é o da amorosidade. Amorosidade nas relações com as pessoas, consigo mesmo e com a Vida. Ser amoroso é tratar as ocorrências da vida como processos a serem vencidos com determinação e tranqüilidade. Os reveses, tanto quanto as alegrias da vida, não são ocorrências definitivas nem o fim em si do viver, são tão somente experiências que nos capacitarão à vida verdadeira, a espiritual. Viver essas experiências com amor é garantia certa de aprendizado.
domingo, 9 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Fé nas Vitórias
Livro : Reforma Íntima Sem Martírio
- Wanderley Oliveira -
Fé nas Vitórias
“Pois em verdade vos digo, se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível.”
S. Mateus – O Evangelho Segundo Espiritismo Cap. XIX
"A reforma íntima, assim como qualquer projeto na vida, exige otimismo e fé para alcançar seus objetivos.
Só será concretizada através de uma relação de confiança conosco mesmo.
Muitos idealistas orientados pelos roteiros de melhoria, mas tomados de escassa auto-estima, sucumbem sob o peso dos monstros da culpa e da vergonha, estabelecendo ideias de inutilidade e desistência através da ampliação dos montes e dos obstáculos interiores.
Supervalorizam suas imperfeições através de excessivo rigor consigo mesmo, instalando um circuito mental de inaceitação e desgosto, a um passo do desespero e do desânimo com os nobres ideais de transformação e melhoramento, gerando um clima de derrotismo e menos valia de si mesmo.

" Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos..."
De fato, a sensação de frustração acompanhará por muito tempo nossos esforços de progresso em razão das opções que fizemos nos sombrios vales da ilusão e da queda. Fortes condicionamentos exprimem-se como traços marcantes da personalidade que contrariam as mais sinceras intenções de aperfeiçoamento. Isso, porém, é o preço justo que temos que pagar perante a vida, pelo plantio do bem em nós mesmos.
"Já sonhamos juntos, semeando as canções no vento..."
Costuma-se observar na atualidade uma neurotização da proposta de renovação interior. Muita impaciência e severidade têm acompanhado esse desafio, levando ao perfeccionismo por falta de entendimento do que seja realmente a reforma íntima.
Precisamos aprender a ser gente, a ser humano, a exercer o auto-perdão, a admitir falhas. Cientes de que podemos recomeçar sempre e sempre, quantas vezes forem necessárias. Sem que isso signifique, hipocrisia, fraqueza e conivência com os desajustes.
O objetivo é sermos melhor e não os melhores.
Essa neurotização da virtude gera um sistema de vida cheio de hábitos e condutas radicais e superficiais que são fronteiriços com o fanatismo. Isso nos afasta ainda mais da autêntica mudança e nos faz preocupar mais como que não devemos fazer e, esquecemos de investir esforços e descobrir caminhos para aquilo que devíamos estar fazendo, aquilo que queremos alcançar e ser.
"Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar..."
Valorizemos aquilo que gostaríamos de ser, contudo, valorizemos também o que já conseguimos deixar de ser.
Valorizemos a luz que há em nós; é com ela que resgataremos a condição de criaturas em comunhão com as Sábias Leis do Pai.
Utilizemos, ilimitadamente, o auto-perdão na construção mental da auto-aprovação, porque se não nos aprovamos nas faltas cometidas, caminhamos para o desamor a nós próprios atraindo o fracasso.
Fé pequenina asseverou o Sábio Nazareno, do tamanho de um grãozinho de mostarda. Isso bastará para solidificar nossa confiança no projeto de transformação que, inexoravelmente, vamos conquistar sob a égide de pequenos êxitos de cada etapa.
Vitória sobre si, esse é o nosso bom combate, conforme destaca o nosso querido Apóstolo de Tarso.
"Mesmo assim não custa inventar uma nova canção
Que venha nos trazer...sol de primavera..."
Que venha nos trazer...sol de primavera..."
Nunca esqueça que, mais importante que a severidade da disciplina com nossas imperfeições, é a alegria que devemos cultivar com nossos pequenos triunfos e nossas tenras qualidades como fonte de motivação e bem estar para viver todos os dias.
Nos momentos de decepção contigo busque o trabalho, a oração e prossiga confiante na tua luta pessoal, acreditando nas tuas pequenas vitórias.
Com o tempo, perceberás, espontaneamente, o valor que elas possuem para a tua felicidade e o quanto significam para os que te rodeiam. “
"A lição sabemos de cor,
só nos resta aprender."
Que possamos nos abrir para mais um ciclo de vida !
É preciso coragem....para aprender a voar !
Beijocas em todos <3 !
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Você tranquiliza ou excita?
"Somos parte integrante da farmácia do nosso próximo.
Observe as reações que a sua presença provoca no semelhante e pacifique aqueles com quem convive, não só pela palavra, mas até mesmo pela aparência e pelas atitudes, pois com a simples aproximação funcionamos como tranquilizadores ou excitantes de quem nos cerca, aliviando ou agravando os seus padecimentos físicos e morais."
(André Luiz)
domingo, 2 de setembro de 2012
O espírita e o desafio da reforma íntima
Rosildo Brito
“Somos o que fazemos repetidamente, por isso, o mérito não está na ação e sim nos hábitos” Aristóteles.
Ser espírita é estar comprometido, antes de mais nada, com a árdua e imprescindível proposta de reforma íntima. Apesar de não ser novidade para aqueles que se autodenominam espírita, esta afirmativa precisa ser sempre relembrada e melhor refletida no sentido de nos levar a uma compreensão mais fiel possível acerca de nossa conduta diária aqui neste planeta de provas e expiações em que estamos todos encarnados para uma nova etapa de aprendizagem intelecto-moral.
Assim, retomando a discussão aqui levantada em outros textos sobre esse tema que particularmente, cada vez mais me convenço de que se trata da chave central da compreensão do Espiritismo, considero relevante convidar o caro (a) amigo (a) a uma breve reflexão em torno dos principais desafios que parecem caracterizar, de maneira geral, os (in) sucessos da reforma íntima.
Nesse sentido, como nos esclarece a literatura espírita, seja através da própria codificação ou dos inúmeros livros psicografados por médiuns renomados, o primeiro e mais importante desafio que surge àquele que se propõe verdadeiramente ser espírita, ou seja, abraçar a proposta de se tornar melhor, domando suas más tendências e fortalecendo as suas virtudes, é a de se conhecer melhor.
É preciso a consciência de que não há transformação íntima sem o autoconhecimento. Premissa essa simples, uma vez que, afinal de contas, como mudarmos aquilo ou aquele – no caso nós mesmos – sem nos conhecermos o suficiente?. Trata-se aqui, vale salientar, de uma preocupação já esboçada há milhares de anos antes de Cristo, por meio, sobretudo, dos filósofos da antiguidade, e que tem no Espiritismo, um de seus preceitos basilares.
Nesse sentido, na condição de doutrina enraizada nessa meta inadiável do homem na sua permanente busca da autoperfeição, muito mais que chamarmo-nos a atenção para essa questão da vida humana, o Espiritismo nos fornece, de maneira objetiva e de fácil compreensão, a receita principal para trabalharmos em nós a reforma íntima. A resposta nos vem por meio de uma das questões elencadas no LE, através de um dos fiéis discípulos de Cristo, Santo Agostinho. Diz-nos ele: “Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar”.
Em consonância com essa verdade, na obra: “O problema do ser do destino e da dor”, parafraseando o espírito de Victor Hugo, Léon Denis nos adverte que: “É dentro de nós que devemos olhar o exterior... Inclinando-nos sobre este poço, o nosso espírito, avistamos, a uma distância de abismo, em estreito círculo, o mundo imenso...”.
Em ambos os casos fica patente o fato de que não há progresso sem a observação atenta a nós mesmos, ou como costumam se dizer na literatura de cunho psicológica, ao nosso “eu”. E, complementando, de maneira sábia essa verdade incontestável, nos diz Emmanuel, através da psicografia de Chico Xavier, em “Pensamento e Vida”, que “[...] a educação, com o cultivo da inteligência e com o aperfeiçoamento do campo íntimo, em exaltação de conhecimento e bondade, saber e virtude, não será conseguida tão-só à força de instrução, que se imponha de fora para dentro, mas sim com a consciente adesão da vontade...”.
Portanto, como se percebe, engana-se quem pensa que conhecer a si mesmo é enveredar-se pelo caminho literário a busca do que nos dizem os grandes sábios e autores da psique humana, a maioria desses, vale salientar, também a procura da vivência real e eficiente da autotransformação. É necessário, antes de qualquer coisa, vestir-se da pureza de espírito e munir-se da força da vontade real, aquela que nos faz seguirmos adiante, mesmo depois de haver descoberto no nosso âmago, as verdades incômodas e sombras de que tanto fugimos, utilizando-nos para isso, dos diversos subterfúgios psicológicos de autoenganação.
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