terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os Instintos


Neste artigo falarei sobre os instintos naturais, tema que foi levemente abordado no artigo anterior, que trata sobre as almas e os Espíritos. Por coincidência, logo após a publicação do citado artigo, tive a oportunidade de travar um interessante debate em uma comunidade espírita no qual me deparei com várias argumentações que, apesar de serem baseadas na codificação espírita, sugeriam interpretações diversas e até mesmo opostas. Com este artigo pretendo apenas colocar de forma organizada as impressões que tenho sobre o assunto, trazendo elementos da codificação espírita para que o leitor tire as suas próprias conclusões.


Em primeiro lugar é necessário que se faça uma distinção entre as duas formas que Kardec se referiu aos instintos e para isso trago dois exemplos contidos no O Livro dos Espíritos.


Exemplo 1

605. Considerando-se todos os pontos de contacto que existem entre o homem e os animais, não seria lícito pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita e que, se esta última não existisse, só como o bruto poderia ele viver? Por outra:que o animal é um ser semelhante ao homem, tendo de menos a alma espírita? Dessa maneira de ver resultaria serem os bons e os maus instintos do homem efeito da predominância de uma ou outra dessas almas?

“Não, o homem não tem duas almas. O corpo, porém, tem seus instintos, resultantes da sensação peculiar aos órgãos. Dupla, no homem, só é a Natureza. Há nele a natureza animal e a natureza espiritual. Participa, pelo seu corpo, da natureza dos animais e de seus instintos. Por sua alma, participa da dos Espíritos.”


Exemplo 2

845. Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?

“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-las à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder.”


No primeiro exemplo ele se refere aos instintos naturais (ou carnais), aqueles que influenciam o Espírito, quando este se encontra encarnado; no segundo ele se refere aos instintos do próprio Espírito, ou seja, a sua moral, as tendências comportamentais que o Espírito imortal adquiriu na sua história evolutiva. É importante atentar para essa diferença de significados; muitos debates acabam sendo prejudicados pela falta deste entendimento.


Os instintos dos Espíritos estão, de alguma forma, gravados neles mesmos e não serão objeto deste artigo, que pretende abordar apenas os instintos naturais (ou carnais).


Na questão 75 do O Livro dos Espíritos Kardec comenta que:


"O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteligência propriamente dita por serem quase sempre espontâneas as suas manifestações, enquanto as daquela são o resultado de apreciações e de uma deliberação.

O instinto varia em suas manifestações segundo as espécies e suas necessidades. Nos seres dotados de consciência e de percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, o que quer dizer, à vontade e à liberdade."


Em A Gênese (cap. III), Kardec tece algumas considerações bem interessantes sobre os instintos, considerações das quais eu destaco esse trecho:


“A uniformidade no que resulta das faculdades instintivas é um fato característico que forçosamente implica a unidade da causa. Se a causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tantas variedades de instintos quantos fossem os indivíduos, desde a planta até o homem. Um efeito geral, uniforme e constante, há de ter uma causa geral, uniforme e constante; um efeito que atesta sabedoria e previdência há de ter uma causa sábia e previdente. Ora, uma causa dessa natureza, sendo por força inteligente, não pode ser exclusivamente material.

Não se nos deparando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas, as qualidades necessárias à produção de tal resultado, temos que subir mais alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportamos à explicação dada sobre a maneira por que se pode conceber a ação providencial (cap. II, nº 24); se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o bem de cada indivíduo. Tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos recursos tem o indivíduo em si mesmo e na sua inteligência. Por isso é que ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores, do que no homem.

Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia seguro. O instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, fica realçado e enobrecido. Em razão das suas conseqüências, não devia ele ser entregue às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre-arbítrio. Por intermédio da mãe, o próprio Deus vela pelas suas criaturas que nascem.”


A perfeita observação de Kardec quanto à uniformidade dos instintos dentro de uma mesma espécie animal e a sua perfeita conclusão quanto a essa característica ser um claro indício de os instintos não poderem ter como causa as individualidades e o livre-arbítrio são cruciais na avaliação dessa questão. Kardec, talvez por falta de opções mais palpáveis, subiu até Deus para buscar uma causa comum para tamanha uniformidade; ora, a lógica espírita nos diz que Deus age através das suas leis perfeitas e imutáveis, não necessitando atuar caso a caso; perante a essa lógica, quais seriam, então, as leis responsáveis pela uniformização dos instintos entre animais da mesma espécie e gênero? Na minha visão, as leis que melhor se encaixariam nesta função seriam as leis que regem as transmissões hereditárias, ou seja, as leis genéticas, que usam os nossos DNAs como forma de transmissão, e possivelmente por outras leis ainda desconhecidas da nossa ciência. Com a transmissão hereditária estaria satisfeita a premissa da uniformidade e, ao mesmo tempo, deixaria aberta a possibilidade para uma modelagem lenta e contínua dos instintos a ser promovida pelo processo de seleção natural, no qual os comportamentos mais favoráveis à reprodução e manutenção das espécies substituiriam pouco a pouco os menos favoráveis. É sempre bom lembrar que na época de Kardec a ciência ainda desconhecia o DNA e os códigos genéticos, o que não lhe permitia levantar hipóteses do tipo que levantamos hoje.


Toda vez que é levantada a possibilidade de que comportamentos possam estar escritos nas moléculas de DNA levantam-se também as vozes contrárias que afirmam que a matéria, sendo inerte, não poderia ser responsável por ditar comportamentos. Em minha opinião essa é uma analogia imperfeita; seria o mesmo que dizer que pelo fato de a folha de papel e a grafite serem matéria elas não teriam o poder de transmitir as emoções de uma poesia ou ainda a de transmitir as ordens claras dos memorandos. O universo tem os seus métodos para armazenar e transmitir informações, métodos esses que não são do mundo da matéria, são do mundo do espírito (princípio inteligente do universo – não individualizado); não seria de forma alguma absurda a hipótese de esses métodos se utilizarem da matéria bruta como meio de gravação e reprodução das instruções que regem os seres vivos ou ainda, através de uma matéria mais tênue, até mesmo das instruções que regem as individualidades espirituais. No artigo “As almas e os Espíritos” há uma melhor abordagem sobre essa questão.


Outra característica observável dos instintos é o fato de serem bem mais visíveis nos animais do que nos homens. De fato, quanto menos complexos são os animais mais previsíveis são os seus comportamentos, com machos e fêmeas seguindo rituais instintivos exatos visando a sobrevivência e reprodução, mesmo estes os enviando para uma morte prematura, como acontece com os machos de algumas espécies durante o acasalamento. Foi só a partir do desenvolvimento da inteligência que os instintos passaram, ainda que de forma bem tênue, a dar algum espaço ao raciocínio, mas nada que arranhasse o seu predomínio na condução de tudo que conhecemos por vida. Foi somente no homem, com a inteligência já bem desenvolvida, que os instintos passaram a sofrer mais seriamente o crivo da razão, da falível razão. Sobre esse assunto, temos no O Livro dos Espíritos:


75. É acertado dizer que as faculdades instintivas diminuem, à medida que crescem as intelectuais?

– Não. O instinto existe sempre, mas o homem o negligencia. O instinto pode também conduzir ao bem; ele nos guia quase sempre, e às vezes mais seguramente que a razão; ele nunca se engana.


Existe um enorme fosso entre nós e o mais inteligente dos animais, e um dos diferenciais mais evidentes que temos em relação a eles é o de sermos os únicos a agir voluntariamente contra os nossos instintos naturais, seja por opção própria ou por indução de agentes sociais, como a cultura e as religiões. No homem também age por força das experiências acumuladas em suas diversas existências, das quais emergem os mais sutis gostos e preferências. Os humanos são seres complexos. Ficamos imersos nos instintos naturais, inclusive os sexuais, provenientes do gênero no qual encarnamos, ficamos imersos nos instintos espirituais (ou morais) e ficamos imersos em nossos pensamentos, através dos quais julgamos e analisamos os nossos atos continuamente. É complicado ser humano.


Para finalizar o artigo deixo a vocês essas palavras de Kardec sobre os instintos, onde ele deixa transparecer mais uma vez o seu refinado bom-senso:


A Gênese (Cap. III)


17. - Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça.

por Luiz Vaz

O INSTINTO E A INTELIGÊNCIA


Qual a diferença entre o instinto e a inteligência? Onde acaba um e o outro começa? Será o instinto uma inteligência rudimentar ou será uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?

O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo e vista a conservação deles. Nos atos instintivos não há reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a planta procura o ar, se volta para a luz, dirige suas raízes para água e para a terra nutriente; que a flor se abre e fecha alternativamente, conforme se lhe faz necessário; que as plantas trepadeiras se enroscam em torno daquilo que lhes serve de apoio, ou se lhe agarram com as gavinhas. É pelo instinto que os animais são avisados do que lhes convém ou prejudica; que buscam, conforme a estação, os climas propícios; que constroem, sem ensino prévio, com mais ou menos arte, segundo as espécies, leitos macios e abrigos para as suas progênies, armadilhas para apanhar a presa de que se nutrem; que manejam destramente as armas ofensivas e defensivas de que são providos; que os sexos se aproximam; que a mãe choca os filhos e que estes procuram o seio materno. No homem, só em começo da vida o instinto domina com exclusividade; é por instinto que a criança faz os primeiros movimentos, que toma o alimento, que grita para exprimir as suas necessidades, que imita o som da voz, que tenta falar e andar. No próprio adulto, certos atos são instintivos, tais como os movimentos espontâneos para evitar um risco, para fugir a um perigo, para manter o equilíbrio do corpo; tais ainda o piscar das pálpebras para moderar o brilho da luz, o abrir maquinal da boca para respirar, etc.

A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados, de acordo com a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma. Todo ato maquinal é instintivo; o ato que denota reflexão, combinação, deliberação é inteligente. Um é livre, o outro não o é.

O instinto é guia seguro, que nunca se engana; a inteligência, pelo simples fato de ser livre, está, por vezes, sujeita a errar.
           
Ao ato instintivo falta o caráter do ato inteligente; revela, entretanto, uma causa inteligente, essencialmente apta a prever. Se se admitir que o instinto procede da matéria, ter-se-á que admitir que a matéria é inteligente, até mesmo bem mais inteligente e previdente do que a alma, pois que o instinto não se engana, ao passo que a inteligência se equivoca.
           
Se se considerar o instinto uma inteligência rudimentar, como se há de explicar que, em certos casos, seja superior à inteligência que raciocina? Como explicar que torne possível se executem atos que esta não pode realizar?

Se ele é atributo de um princípio espiritual de especial natureza, qual vem a ser esse princípio? Pois que instinto se apaga, dar-se-á que esse princípio se destrua? Se os animais são dotados apenas de instinto, não tem solução o destino deles e nenhuma compensação os seus sofrimentos, o que não estaria de acordo nem com a justiça, nem com a bondade de Deus.

Segundo outros sistemas, o instinto e a inteligência procederiam de um único princípio. Chegado a certo grau de desenvolvimento, esse princípio, que primeiramente apenas tivera as qualidades do instinto, passaria por uma transformação que lhe daria as da inteligência livre.

Se fosse assim, no homem inteligente que perde a razão e entra a ser guiado exclusivamente pelo instinto, a inteligência voltaria ao seu estado primitivo e, quando o homem recobrasse a razão, o instinto se tornaria inteligência e assim alternativamente, a cada acesso, o que não é admissível.

Aliás, é freqüente o instinto e a inteligência se revelarem simultaneamente no mesmo ato. No caminhar, por exemplo, o movimento das pernas é instintivo; o homem põe maquinalmente um pé á frente do outro, sem nisso pensar; quando, porém, ele quer acelerar ou demorar o passo, levantar o pé ou desviar-se de um tropeço, há cálculo, combinação; ele age com deliberado propósito. A impulsão involuntária do movimento é o ato instintivo; a calculada direção do movimento e o ato inteligente. O animal carnívoro é impelido pelo instinto a se alimentar de carne, mas as precauções que toma e que variam conforme as circunstância, para segurar a presa, a sua previdência das eventualidade são atos da inteligência.

Outra hipótese que, em suma, se conjuga perfeitamente à ideia da unidade de princípio, ressalta do caráter essencialmente previdente do instinto e concorda com o que o Espiritismo ensina, no tocante às relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo.

Sabe-se agora que muitos Espíritos desencarnados têm por missão velar pelos encarnados, dos quais se constituem protetores e guias; que os envolvem nos seus eflúvios fluídicos; que o homem age muitas vezes de modo inconsciente, sob a ação desses eflúvios.

Sabe-se, ao demais, que o instinto, que por si mesmo produz atos inconscientes, predomina nas crianças e, em geral, nos seres cuja razão é fraca. Ora, segundo esta hipótese, o instinto não seria atributo nem da alma, nem da matéria; não pertenceria propriamente ao ser vivo, seria efeito da ação direta dos protetores invisíveis que supririam a imperfeição da inteligência, provocando os atos inconscientes necessários à conservação do ser. Seria qual a andadeira com que se amparam as crianças que ainda não sabem andar. Então, do mesmo modo que se deixa gradualmente de usar a andadeira, à medida que a criança se equilibra sozinha, os Espíritos protetores deixam entregues a si mesmos os seus protegidos, à medida que estes se tornam aptos a guiar-se pela própria inteligência.

Assim, o instinto, longe de ser produto de uma inteligência rudimentar e incompleta, sê-lo-ia de uma inteligência estranha, na plenitude da sua força, inteligência protetora, supletiva da insuficiência, quer de uma inteligência mais jovem, que aquela compeliria a fazer, inconscientemente, para seu bem, o que ainda fosse incapaz de fazer por si mesma, quer de uma inteligência madura, porém momentaneamente tolhida no uso de suas faculdades, como se dá com o homem na infância e nos casos de idiotia e de afecções mentais.

Diz-se proverbialmente que há um deus para as crianças, para os loucos e para os ébrios. É mais veraz do que se supõe esse ditado. Aquele deus, outro não é senão o Espírito protetor, que vela pelo ser incapaz de se proteger, utilizando-se da sua própria razão.

Nesta ordem de idéias, ainda mais longe se pode ir. Por muito racional que seja, essa teoria não resolve todas as dificuldades da questão.

Se observarmos os efeitos do instinto, notaremos, em primeiro lugar, uma unidade de vistas e de conjunto, uma segurança de resultados, que cessam logo que a inteligência o substitui. Demais, reconheceremos profunda sabedoria na apropriação tão perfeita e tão constante das dificuldades instintivas às necessidades de cada espécie. Semelhante unidade de vistas não poderia existir sem a unidade de pensamento e esta é incompatível com a diversidade das aptidões individuais; só ela poderia produzir esse conjunto tão harmonioso que se realiza desde a origem dos tempos e em todos os climas, com uma regularidade, uma precisão matemáticas, cuja ausência jamais se nota. A uniformidade no que resulta das faculdades instintivas é um fato característico, que forçosamente implica a unidade da causa. Se a causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tantas variedades de instintos quantos fossem os indivíduos, desde a planta até o homem. Um efeito geral, uniforme e constante, há de ter uma causa geral, uniforme e constante; um efeito que atesta sabedoria e previdência há de ter uma causa sábia e previdente. Ora, uma causa dessa natureza sendo por força inteligente, não pode ser exclusivamente material.
           
Não se nos deparando nas criaturas, encarnadas ou descarnadas, as qualidade necessárias à produção de tal resultado, temos que subir mais alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportamos à explicação dada sobre a maneira por que se pode conceber a ação providencial; se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o bem de cada indivíduo. Tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos recursos tem o indivíduo em si mesmo e na sua inteligência. Por isso é que ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores, do que no homem.
           
Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia seguro. O instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, fica realçado e enobrecido. Em razão das suas conseqüências, não devia ele ser entregue às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre-arbítrio. Por intermédio da mãe, o próprio Deus vela pelas suas criaturas que nascem.

Esta teoria de nenhum modo anula o papel dos Espíritos protetores, cujo concurso é fato observado e comprovado pela experiência; mas, deve-se notar que a ação desses Espíritos é essencialmente individual; que se modifica segundo as qualidades próprias do protetor e do protegido e que em parte nenhuma apresenta a uniformidade e a generalidade do instinto. Deus, em sua sabedoria, conduz ele próprio os cegos, porém confia a inteligências livres o cuidado de guiar os clarividentes, para deixar a cada um a responsabilidade de seus atos.
           
A missão dos Espíritos protetores constitui um dever que eles aceitam voluntariamente e lhes é um meio de adiantarem, dependendo o adiantamento da forma por que o desempenhem.

Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhum apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais as aproxima da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça.

Sendo o instinto o guia e as paixões as molas da alma no período inicial do seu desenvolvimento, por vezes aquele e estas se confundem nos efeitos. Há, contudo, entre esses dois princípios, diferenças que muito importa se considerem.

O instinto é guia seguro, sempre bom. Pode, ao cabo de certo tempo, tornar-se inútil, porém nunca prejudicial. Enfraquece-se pela predominância da inteligência.

As paixões, nas primeiras idades da alma, têm de comum com o instinto o serem as criaturas solicitadas por força igualmente inconsciente. As paixões nascem principalmente das necessidades do corpo e dependem, mais do que o instinto, do organismo. O que, acima de tudo, as distingue do instinto é que são individuais e não produzem, como este último, efeitos gerais e uniformes; variam, ao contrário, de intensidade e de natureza, conforme os indivíduos. São úteis, como estimulante, até à eclosão do senso moral, que faz nasça, de um ser passivo, um ser racional. Nesse momento, tornam-se não só inúteis, como nocivas ao progresso do Espírito, cuja desmaterialização retardam. Abrandam-se com o desenvolvimento da razão.

O homem que só pelo instinto agisse constantemente poderia ser muito bom, mas conservaria adormecida a sua inteligência. Seria qual criança que não deixasse as andadeiras e não soubesse utilizar-se de seus membros. Aquele que não domina as suas paixões pode ser muito inteligentes, porém, ao mesmo tempo, muito mau. O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões somente pelo esforço da vontade podem domar-se.

Denizart Castaldeli
Dezembro / 2003

Inteligência e Instinto no LE

https://livrodosespiritos.wordpress.com/as-causas-primarias/capitulo-iv-principio-vital/iii-inteligencia-e-instinto/

Instintos - EADE

http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2013/05/Roteiro-10-Instinto.pdf

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Autoperdão - Hammed

Capítulo 10, item 15

       “Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si mesmo...
       “... porque se sois duros, exigentes, inflexí­veis, se tendes rigor mesmo por uma ofensa leve, como quereis que Deus esqueça que, cada dia, tendes maior necessidade de indulgência?... “
(Capítulo 10, item 15.)

       Nossas reações perante a vida não acontecem em função apenas dos estímulos ou dos acontecimentos exteriores, mas tam­bém e sobretudo de como percebemos e julgamos interiormente es­ses mesmos estímulos e acontecimentos. Em verdade, captamos a realidade dos fatos com nossas mais íntimas percepções, desenca­deando, conseqüentemente, peculiares emoções, que serão as bases de nossas condutas e reações comportamentais no futuro.
       Portanto, nossa forma de avaliar e de reagir e, as atitudes que tomamos em relação aos outros, conceituando-os como bons ou maus, é determinada por um sistema de autocensura que se encontra estruturado em nossos “níveis de consciência” mais profundos.
       Toda e qualquer postura que assumimos na vida se prende à maneira de como olhamos o mundo fora e dentro de nós, a qual pode nos levar a uma sensação íntima de realização ou de frustra­ção, de contentamento ou de culpa, de perdão ou de punição, de acordo com o “código moral” modelado na intimidade de nosso psiquismo.
       Esse ‘julgador interno” foi formado sobre as bases de con­ceitos que acumulamos nos tempos passados das vidas incontáveis, também com os pais atuais, com os ensinamentos de professores, com líderes religiosos, com o médico da família, com as autorida­des políticas de expressão, com a sociedade enfim.
Também, de forma sutil e quase inconsciente, no contato com informações, ordens, histórias, superstições, preconceitos e tradições assimilados dos adultos com quem convivemos em longos períodos de nossa vida. Portanto, ele, o julgador interno, nem sempre condiz com a realidade perfeita das coisas.
Essa “consciência crítica”, que julga e cataloga nossos fei­tos, autocensurando ou auto-aprovando, influencia a criatura a agir do mesmo modo que os adultos agiram sobre ela quando criança, punindo-a, quando não se comportava da maneira como aprendeu a ser justa e correta; ou dando toda uma sensação de aprovação e reconforto, quando ela agia dentro das propostas que assimilou como sendo certas e decentes.
A gênese do não-perdão a si mesmo está baseada no tipo de informações e mensagens que acumulamos através das diversas fases de evolução de nossa existência de almas imortais.
Podemos experimentar culpa e condenação, perdão e liber­dade de acordo com os nossos valores, crenças, normas e regras, vigentes, podendo variar de indivíduo para indivíduo, conforme seu país, sexo, raça, classe social, formação familiar e fé religiosa. Entendemos assim que, para atingir o autoperdão, é necessário que reexaminemos nossas convicções profundas sobre a natureza do nosso próprio ser, estudando as leis da Vida Superior, bem como as raízes da educação que recebemos na infância, nesta existência.
Uma das grandes fontes de auto-agressão vem da busca apressada de perfeição absoluta, como se todos devêssemos ser deuses ou deusas de um momento para outro. Aliás, a exigência de perfeição é considerada a pior inimiga da criatura, pois a leva a uma constante hostilidade contra si mesma, exigindo-lhe capacidades e habilidades que ela ainda não possui.
Se padrões muito severos de censura foram estabelecidos por pais perfeccionistas à criança, ou se lhe foi imposto um senso de justiça implacável, entre regulamentos disciplinadores e rígidos, provavelmente ela se tornará um adulto inflexível e irredutível para com os outros e para consigo mesmo.
Quando sempre esperamos perfeição em tudo e confron­tamos o lado “inadequado” de nossa natureza humana, nos sentire­nos fatalmente diminuídos e envolvidos por uma aura de fracasso. Não tomar consciência de nossas limitações é como se admitíssemos que os outros e nós mesmos devêssemos ser oniscientes e todo-poderosos. Afirmam as pessoas: “Recrimino-me por ter sido tão ingênuo naquela situação...”; “Tenho raiva de mim mesmo por ter aceitado tão facilmente aquelas mentiras...” “Deveria ter previsto estes problemas atuais”; “Não consigo perdoar-me, pois pensei que ele mudaria...”. São maneiras de expressarmos nossa culpa e o não-perdão a nós mesmos - exigências desmedidas atribuídas às pessoas perfeccionistas.
Os viciados em perfeição acham que podem fazer tudo sem­pre melhore, portanto, rejeitam quase tudo o que os outros fazem ou fizeram. Não aceitam suas limitações e não enxergam a “perfeição em potencial” que existe dentro deles mesmos, perdendo assim a oportunidade de crescimento pessoal e de desenvolvimento natu­ral, gradativo e constante, que é a técnica das leis do Universo.
A desestima a nós próprios nasce quando não nos aceita­mos como somos. Somente a auto-aceitação nos leva a sentir plena segurança ante os fatos e ocorrências do cotidiano, ainda que os indivíduos ao nosso redor não entendam nossas melhores intenções.
O perdão concede a paz de espírito, mas essa concessão nos escapará da alma se estivermos presos ao desejo de dirigir os passos de alguém, não respeitando o seu propósito de viver.
Devemos compreender que cada um de nós está cumprin­do um destino só seu, e que as atividades e modos das outras pes­soas ajustam-se somente a elas mesmas. Estabelecer padrões de comportamento e modelos idealizados para os nossos semelhantes é puro desrespeito e incompreensão ante o mecanismo da evolu­ção espiritual. Admitir e aceitar os outros como eles são nos permite que eles nos admitam e nos aceitem como somos.
Perdoar-nos resulta no amor a nós mesmos - o pré-requisito para alcançarmos a plenitude do “bem viver”.
Perdoar-nos é não importar-nos com o que fomos, pois a renovação está no instante presente; o que importa é como so­mos hoje e qual é nossa determinação de buscar nosso progresso espiritual.
Perdoar-nos é conviver com a mais nítida realidade, não se distraindo com ilusões de que os outros e nós mesmos “deveríamos ser” algo que imaginamos ou fantasiamos.
Perdoar-nos é compreender que os que nos cercam são reflexos de nós mesmos, criações nossas que materializamos com nossos pensamentos e convicções íntimas.
O texto em estudo - “Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si mesmo” - quer dizer: enquanto não nos libertarmos da ne­cessidade de castigar e punir o próximo, não estaremos recebendo a dádiva da compreensão para o autoperdão.
Adaptando o excerto do apóstolo Paulo às nossas vidas, perguntamo-nos: “...porque se sois duros, exigentes, inflexíveis, se tendes rigor mesmo por uma ofensa leve...”, como haveremos de criar oportunidades novas para que o “Divino Processo da Vida” nos fecunde a alma com a plenitude do Amor e, assim, possamos perdoar-nos?



Renovando Atitudes
Espírito - Hammed
Médium -  Francisco do Espirito Santos

Convite ao perdão

Convite ao perdão

Francisco Cândido Xavier foi um homem que viveu semeando  a palavra do Cristo. Através das suas atitudes, pregou a paz e ensinou a caridade. Sua vida foi um exemplo de conduta cristã.
Médium, viveu por noventa e dois anos, foi desprezado por muitos e durante sua vida sofreu ofensas e insultos, tendo passado imune a tudo.
Em uma de suas muitas frases que ficaram registradas, ele disse:
Graças a Deus, não me lembro de ter revidado a menor ofensa que sofri, certamente objetivando, todas elas, o meu aprendizado. E não me recordo de que tenha, conscientemente, magoado a quem quer que fosse.
Esta frase nos faz refletir sobre a forma como agimos diante das ofensas que sofremos. No cotidiano, nos deparamos com situações que põem à prova a nossa conduta.
São os olhares de desprezo ou de inveja. As palavras que ferem, humilham, magoam. As indelicadezas e os gestos que perturbam e ofendem.
São também as atitudes contínuas de omissão, de abandono dos deveres, ou de opressão, que acontecem entre irmãos, casais, pais e filhos, que vão se somando e se transformando em imensas mágoas.
É comum vermos famílias desestruturadas pelo cultivo da raiva, do rancor e da indelicadeza. Enfim, vemos com frequência, relações se esvaindo pela ausência do perdão.
Seja qual for a gravidade do ato infeliz que nos atinja, enxerguemos o outro, que nos fere e magoa, como alguém que pode estar enfermo e precisando de ajuda.
E como escolhemos agir diante de quem nos ofende?
Quando procedemos da mesma forma que o outro, entrando na sua sintonia, revidando, seja com palavras ou com atitudes, estaremos deixando que o outro dite a nossa conduta.
Estaremos nos equiparando àquele que cometeu o gesto desequilibrado.
É certo que ficamos tristes quando alguém nos ofende, mas o que deveria mesmo nos entristecer, é quando somos nós os ofensores.
Trabalhar o perdão ao próximo, assim como o autoperdão, é um exercício diário que podemos nos propor. Todos nós somos capazes de perdoar.
Não nos esqueçamos de que, por diversas vezes, nós é que desejamos ser perdoados.
Temos que começar relevando e perdoando as leves ofensas, para que estejamos preparados, quando nos depararmos com situações mais delicadas que nos exijam essa virtude.
Perdoar também é doar. Ao perdoar estaremos doando   entendimento,  paciência, compreensão e o amor que purifica. O esquecimento das ofensas é próprio da  alma elevada.
Mas o perdão não é o esquecimento do fato. Por vezes, torna-se difícil eliminar da memória uma atitude que tenha nos ferido.
Perdoar é cessar de ter raiva, é deixar de nutrir em nós o ressentimento pela pessoa que nos causou a dor ou o gesto infeliz que nos atingiu.
Perdoar acalma, liberta, traz paz e harmonia às nossas vidas.
O verdadeiro perdão é aquele que vem do coração e não dos lábios.
Façamo-nos hoje o convite para que deixemos que o perdão triunfe sobre a mágoa e o ressentimento.

Redação do Momento Espírita.
Em 03.06.2011.

Perdão e Autoperdão, por Divaldo

http://espiritismonocotidiano.com/2012/05/06/perdao-e-autoperdao/

Perdão e Autoperdão


Para completar suas atividades em nosso Estado, no domingo, dia 11, Sandra falou durante 3 horas na ExpoUnimed, em Curitiba, para uma atenta plateia de aproximadamente 400 pessoas que receberam judiciosas orientações sobre “Perdão e Autoperdão”.

Sandra discorreu filosoficamente e juridicamente – ela é advogada – sobre o tema, ilustrado com muitos exemplos.

Quando o ofendido perdoa, liberta-se da mágoa, ao passo que não liberta o ofensor, porquanto a lei segue seu curso e de alguma forma o ofensor terá que haver-se com as consequências de seu ato.

A primeira atitude do ofendido normalmente é o desejo de vingança, de desforra, de que o ofensor seja castigado. O perdão está completamente fora de cogitação. No máximo deixamos o castigo a cargo de Deus.

No entanto, o ofensa não é problema do ofendido, é problema do agressor. Se o ofendido perdoa, liberta-se completamente do problema; muda de vibração; desvincula-se do problema e ainda liberta o agressor dos maus fluidos de ódio e de vingança. De sua parte, nada precisa fazer além de perdoar. Não precisa envolver-se emocionalmente, porque a ofensa é problema do agressor.

Ao final, mencionou a história do sedutor da mulher adúltera, do Evangelho, narrada por Amélia Rodrigues, em que o dito sedutor, anos depois do episódio com Jesus, chegou à Casa do Caminho, onde foi ouvido e orientado por Pedro.

Autoperdão e ação responsável

Autoperdão e ação responsável



Suponhamos que a cada reencarnação recebemos do Criador um canteiro com uma terra muito fértil, para plantar flores, durante toda nossa vida.

Nascemos com as sementes das flores mas, ao invés de plantá-las, arranjamos sementes de espinhos e as semeamos, enchendo nosso canteiro de espinheiros.

Vamos plantando os nossos espinhos, até o dia em que olhamos para trás e percebemos um grande espinheiro.

Então, podemos ter três atitudes diferentes:

Se cultivamos o culpismo, devido ao remorso de não ter plantado as flores que deveríamos, simplesmente nos condenamos a deitar e rolar no espinheiro para nos punirmos, tentando aliviar a consciência de culpa.

Se somos pessoas que cultivamos o desculpismo, começamos a dizer que foi o vento que trouxe as sementes de espinhos, que não temos nada a ver com isso, etc.

Finalmente, se buscamos a ação responsável, ao perceber o espinheiro, assumimos tê-lo plantado e arrependemo-nos do fato.

Depois, percebemos que as sementes das flores continuam em nossas mãos e que podemos começar a plantá-las, agora que estamos mais conscientes.

Ao mesmo tempo sabemos que devemos retirar, um a um, todos os espinhos plantados e plantar uma flor no seu lugar.
Reflitamos sobre as três atitudes:

De que adianta cravar os espinhos plantados na própria carne? Por que aumentar o sofrimento?

Por acaso os espinhos diminuem quando agimos assim? A verdade é que não. De nada adianta. Este é o mecanismo dos que nos afundamos na culpa e deixamos que ela comande nossas vidas.

Substituir os atos de desamor praticados à vida com mais desamor ainda para conosco mesmos não resolve e não cura.

Por outro lado, pensando naqueles que ainda conseguimos achar desculpa para todo e qualquer desatino, por mais absurdo que ele pareça, veremos:

Os que fingimos que o espinheiro não tem nada a ver conosco, apenas estamos postergando o despertar da consciência.

Agindo assim, muitas vezes continuamos plantando mais e mais espinhos, fazendo com que o estrago fique cada vez maior.

O hábito de sempre encontrar desculpas e justificativas para todas nossas ações tem caráter doentio e precisa de atenção imediata de nossa parte.

O ego, em fuga desastrosa, procura justificar os erros mediante aparentes motivos justos. Tal costume degenera todo senso moral e pode nos levar a desequilíbrios psicológicos seríssimos.

Apenas a última opção, a da ação responsável, é caminho seguro.

É uma atitude proativa, pois ao assumir a responsabilidade pelos espinhos plantados, arrependemo-nos e buscamos substituí-los pelas flores.

Nesse ato cobrimos a multidão de pecados, conforme o ensino da Epístola de Pedro, referindo-se ao poder de cura do amor.

Assim crescemos, aprendemos e ressarcimos à Lei maior.
Sempre que cometermos erros, procuremos nos autoperdoar, atendendo à proposta da ação responsável, que troca o peso da culpa pela carga educativa da responsabilidade.








Redação do Blog Espiritismo na Rede, baseado no cap. 3 da obra
Psicoterapia à luz do Evangelho de Jesus, de Alírio de Cerqueira Filho, ed. Ebm.


Clique aqui para ler mais: http://www.forumespirita.net/fe/meditacao-diaria/autoperdao-e-acao-responsavel/#ixzz3pyiK2T46

A liberdade do perdão e do auto-perdão



— É vaidade de nossa parte querermos agradar a todo mundo. Jesus, que foi o ser mais perfeito que já veio a este planeta, não conseguiu.

— Jesus praticou só o bem, e claro, num mundo de expiação e provas, isso contraria muitos interesses. Quem se contraria com a prática do bem, não está com boas intenções.

— Não devemos nos preocupar com isso, nem pensar em ser o estereótipo do “bom moço” ou da “boa moça”.

— Não é um bom sinal, portanto, quando todos têm uma boa impressão sobre nós —certamente há muita falsidade no meio disso. Isso não é atestado de boa conduta.

— Lembre-se da parábola em que Jesus diz que não há como servir a Deus e a Mamon. Na época de Jesus, Mamon era uma espécie de demônio, ligado às coisas financeiras, às posses materiais.

— Se estamos sendo rigorosos na prática da honestidade e da Caridade, fica complicado não achar alguém a quem desagrademos.

— Como há gente que não se preocupa tanto com estes valores, se nós nos esforçamos por eles, é óbvio que vamos contrariar os interesses destas pessoas. Portanto, vamos tomar cuidado com a hipocrisia.

— Nunca devemos forçar as pessoas, nem as situações.

— Se estamos levando esclarecimento, auxílio, e vemos que a pessoa está interessada, vamos continuar. Mas se a pessoa não está interessada em ouvir, é perda de tempo. Vamos deixar a pessoa no rumo dela, e no final das contas ela vai acabar aprendendo.

— Jesus não veio para nos transformar em seres perfeitos. Mas para ensinar o caminho para que possamos construir nossa própria perfeição.

— Devemos então construir o Reino de Deus dentro do nosso próprio coração, sem nos preocuparmos com os erros dos outros, mas apenas com nossos próprios.

— Polemizar nunca é bom. Se você esquece o erro, ele desaparece. O que é bom vai ficar. O que é mal, não.

O perdão liberta

— Mas, para perdoar, não é preciso esperar que o inimigo se arrependa? E se o malfeitor tentar nos prejudicar, inclusive com falsidade?

— O perdão não extingue a necessidade da vigilância, ensina Jesus. Mesmo que eu perdoe, devo ter cuidado para não dar chances para que a pessoa que tenha me prejudicado volte a fazer algum tipo de mal. Isso seria faltar com a Caridade.

— Da mesma forma, o amor não prescinde da verdade. A paz é um patrimônio que precisamos todos defender, fazendo aquilo que estiver em nosso alcance.

— Devemos perdoar e pronto, sem ficar pensando se o outro perdoou ou se arrependeu —se fico pensando, ainda o cobro de alguma forma.

— A única forma de esquecer o mal é criar o bem. Não vou conseguir crescer espiritualmente se odiar alguém —portanto, se espero alguém se arrepender, e a pessoa demora 200 anos, 300 anos para se arrepender, vou ficar marcando passo ao lado dela? Preciso, então, perdoar.

Perdoar a si mesmo

— O auto-perdão é fundamental também.

— A partir do momento em que você erra, vem o arrependimento. Se ele continuar lhe sufocando, você não terá força para reagir.

— As pessoas mais orgulhosas têm mais dificuldade para isso —a humildade é fundamental.

— Se sou orgulhoso, acho-me muito bom. No fundo, poderia traduzir meu pensamento assim: “Como um ser tão perfeito foi fazer isso?”.

— Se tenho humildade, penso o contrário e fico mais leve. Errei porque sou imperfeito, tenho defeitos, e está na hora de parar para consertar.

— O auto-perdão então ajuda a eliminar o sentimento de culpa, que é algo terrível.

— Ao invés de se deixar dominar pelo sentimento de culpa, use o auto-perdão. Mude —culpa não resolve o problema de ninguém.

— Tive capacidade de fazer o mal? Então eu tenho capacidade. Vou usá-la para fazer o bem. Dá trabalho? Claro. Mas vou conseguir.

Palestra conferida por André Luiz (espírito) em São Paulo no dia 03/03/2010 durante comentário do capítulo 10 (O Perdão) do livro “Boa Nova”, de Humberto de Campos.