terça-feira, 14 de agosto de 2012

Exercícios diários para reforma íntima.





1. Executar com alegria as nossas obrigações.
2. Silenciar diante da ofensa.
3. Esquecer o favor prestado.
4. Poupar os amigos de qualquer gentileza para conosco.
5. Emudecer a nossa agressividade.
6. Não condenar as opiniões que são contrárias à nossa.
7. Não fazer qualquer pergunta maliciosa ou desnecessária.
8. Repetir informações e ensinamentos com prazer.
9. Treinar a paciência constante.
10. Ouvir fraternalmente as mágoas dos companheiros sem reclamar de nossas dores.
11. Buscar sempre o meio de ser mais útil.
12. Desculpar sem desculpar-se.
13. Não falar mal de ninguém.
14. Buscar a melhor parte das pessoas que repartem conosco sua experiência.
15. Alegrar-se com a alegria dos outros.
16. Não aborrecer quem trabalha.
17. Ajudar espontaneamente.
18. Respeitar o serviço alheio.
19. Reduzir os problemas particulares.
20. Manter a auto estima em alta quando a enfermidade nos atingir.

(Francisco Cândido Xavier)

Persona


O termo persona vem do latim (persona/ae = máscara, figura, pessoa, etc.). Foi utilizado para denominar as máscaras da tragédia grega, originária dos rituais dionisíacos, na sua chegada à Roma antiga.

As máscaras serviam nas representações artísticas e serviços religiosos mais primitivos, entre outras coisas, para acentuar os traços de caráter dos personagens/deuses.

Em psicologia, persona serve de significante para o conjunto de caracteres comportamentais que identificam um indivíduo (pessoa), na sua relação com o mundo.

Jung utilizou o termo persona como agrupamento de conteúdos conscientes e inconscientes, integrante da formação do eu pessoal.

Numa imagem mais alegórica, persona seria a máscara que o indivíduo usa nos seus contatos com os demais indivíduos ou grupos, servindo-lhe de defesa como uma peneira, um anteparo. Primeiramente, as informações esbarram nessa amurada de proteção ao castelo pessoal. Separados os morangos dos capins e cascalhos, a informação considerada "útil" pode passar(departamento de triagem). Do processamento dessas novas informações serão geradas repostas (ou não) que podem ir de uma simples aceitação ou negação a complexas fórmulas de retorno/comunicação com o mundo exterior, a partir de aprendizados acumulados através dos anos.

Vamos imaginar uma conversa entre dois indivíduos como uma cena teatral, cada um com uma máscara à mão e à frente do rosto. A personalidade de cada um deles estaria representada pela máscara, que não é o próprio indivíduo na sua essência mas o "representa" significante para o outro, como a forma que este indivíduo se "mostra" para o mundo. Esta máscara engloba ataques e defesas, saberes e lacunas, etc., disfarçadas em um estereotipo(a própria máscara) com a finalidade de evitar que o indivíduo seja invadido pelo mundo de fora.

Cada pessoa pode utilizar a máscara mais próxima ou mais distante do rosto. Quanto menor a necessidade de dissimulação ou disfarce, mais próxima o indivíduo colocaria a máscara do rosto. Em verdade, o que ocorre é que quanto mais seguro o indivíduo está das suas verdades maior legitimidade terão suas atitudes e menor a necessidade de desvios e representações. Da mesma forma, quanto mais distante a máscara estiver do sujeito, maior o nível de teatralização do eu se fará necessária e maior a distância entre o indivíduo e sua máscara social.

Uma personalidade forjada em modelo distante do eu pessoal(variando de pessoa para pessoa), será ora envolvente, ora evasiva, ora esplendorosa, ora sombria, ora espetacular, ora medíocre, face a distância entre a verdade interior e o teatro de convencimento em curso na troca de informações e, em conseqüência, a dificuldade de se manter presente a própria "pessoa", gerando este nível de desequilíbrio.

De maneira inversa, tanto maior será o risco de perigo de invasão do espaço pessoal quanto mais próxima a máscara estiver do rosto (eu verdadeiro), o que exige segurança e firmeza de caráter. Aliás é esta inclusive a razão maior da persona servir de escudo entre as estocadas que vêm da sociedade(do outro) e de amortecedor para que se possa dar respostas adequadas e eficientes, com razoável margem de tempo.

Face ao risco de ferimentos no ego, o indivíduo se protege e afasta seu eu da linha de tiro.

Portanto, quanto mais próxima a persona estiver do eu, mais verdadeiro e mais forte o indivíduo para enfrentar a realidade.

Bibliografia
A máscara, no culto, no teatro e na tradição - Jansen, José (MEC - Cadernos de Cultura)
O eu e o inconsciente - Jung, Carl Gustav (Editora Vozes)
Dicionário Latino Vernáculo - Leite, F.J.Marques e Jordão, A.J.Novaes

Enéas Martim Canhadas



CULTURA DAS MÁSCARAS



Saara Nousiainen

Nasci na Finlândia e vim para o Brasil com meio ano de idade, mas, tendo assimilado, ao menos parcialmente, a cultura daquele povo, sempre tenho procurado usar de franqueza, mesmo me arriscando a gerar melindres e como conseqüência, tornar-me “persona non grata”, porque quando alguém se melindra conosco passa a nos ver com “maus olhos”, e o “mau olhar” se dissemina muito mais facilmente do que o “bom olhar”. Isto é natural, tendo em vista que a nossa natureza ainda viceja numa condição bastante inferior, e como nos encontramos mergulhados nos ambientes de baixa freqüência vibratória que vigem na Terra, somos continuamente influenciados por eles. Assim, basta que alguém, ao dizer o nome de determinada pessoa, faça uma expressão de desprezo ou desgosto para que a imagem dessa pessoa comece a ficar denegrida e ela passe a ser “mal vista” em sua comunidade, sem que ninguém saiba dizer exatamente por quê.
Dessa forma, para manter um status de amizade, admiração, respeito e mesmo de superioridade, nem sempre legítima, as pessoas usam máscaras ao invés de usar a franqueza. Isto é ruim para quem procura se preservar, porque mostra-se de forma irreal. É ruim para todos os membros do grupamento no qual se insere, por desenvolver a cultura das máscaras, da mentira e do melindre. Essa é uma cultura que leva a outra situação muito perversa, a de se falar mal dos outros “pelas costas”.
Na Finlândia e em muitos outros países as pessoas são francas, dizem o que pensam e ninguém fica melindrado. As coisas fluem abertamente, sem máscaras.
Esse seria um modelo ideal para os grupos mediúnicos e para quaisquer agrupamentos espíritas porque amenizando a franqueza, haveria aquelas posturas fraternas, aprendidas com o espiritismo.
Um grupo que lida com a mediunidade, se quiser ser um instrumento verdadeiramente útil às atividades dos benfeitores espirituais, capacitando-se a atividades incomuns, necessita desenvolver um trabalho intensivo, continuo e profundo de crescimento, incluindo mudanças nessa cultura das máscaras.

Sugestões para o grupo:

1º passo – Fazer um pacto de perdão mútuo, pleno e incondicional.
Por que um estado de perdão pleno e incondicional é tão importante dentro do grupo?
Quando estamos dispostos a perdoar sempre, sabendo que também somos perdoados, ficamos mais leves e sentimos que podemos abrir nossos corações e conviver de forma amistosa, sem reservas. Esse tipo de convívio vai eliminando os melindres, que azedam os relacionamentos e fermentam sentimentos de desamor, de repúdio, de separatividade.
A franqueza, o amor, o perdão mútuo constante e incondicional, assim como um trabalho permanente para a manutenção desses valores, são as principais estruturas para que um grupo possa candidatar-se a atender plenamente às necessidades da espiritualidade superior em atividades comuns e incomuns.

2º passo – Fazer uma rápida avaliação, ao final de cada sessão, sobre quaisquer manifestações que possam ter deixado alguma interrogação no ar. Isto deve ser feito com muita fraternidade e clareza, e com humildade por parte do médium ou doutrinador, de cuja atuação se esteja tratando. É importante que essa pessoa não se sinta como se estivesse sendo julgada, mas sim, como uma pequena parte da engrenagem que está sendo observada, visando à constante melhoria no desempenho do grupo.
É importante que todos entendam que ninguém é perfeito, que a mediunidade é uma faculdade muito complexa e que todos podem errar e ser ou estar enganados em algum momento.
 

Lobos em Peles de Cordeiros


Leonardo Pereira

Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. (Mateus 7 v.15).

Jesus em suas palavras se referia diretamente aos doutores da lei e alcançava os judeus de forma geral e mais precisamente aos que se apresentavam com a máscara da bondade, da humildade, da retidão e do amor. Estes eram representados pela ovelha, um animal dócil e afável. Por outro lado, apresentava como a figura do lobo todos aqueles que agiam no orgulho, na soberba, nas sombras, tramando, desejando o mal, humilhando os seus semelhantes.
Estes verdadeiros lobos famintos de poder, de riqueza e de domínio sobre o outro, através da falsidade se impõem como criaturas perfeitas e desejosas de guiar as almas, ou melhor, seu rebanho de ovelhas para a salvação.

A bem da verdade, Jesus, um mestre por excelência, já conhecendo os espíritos ali reencarnados, sabendo da verdadeira natureza dos mesmos e de seus grandes males e ignorâncias - sendo o principal deles o orgulho do qual deriva a vaidade e o egoísmo - alerta o espírito viajor para a necessidade de mudanças. Contudo, essas mudanças não devem ser externas, aparentes, fingidas, mas sim de dentro para fora. Devem ser medidas, avaliadas, compreendidas, vivenciadas no dia a dia da religião e da sociedade.

Dois mil anos se passaram e a fala do pastor de almas anotada pelo evangelista nos parece atual, necessária e nos chama a fazer uma avaliação profunda e urgente.
É necessário sair do marasmo de nossas vidas, complicadas e cheias de dramas, removendo as mascaras criadas para a projeção na sociedade e mesmo para as relações familiares.

Ao longo de nossa esteira evolutiva criamos estas muitas máscaras, as quais volta e meia trocamos de acordo com as nossas necessidades.

Não podemos deixar de aproveitar o ensejo e citar aqui algumas delas: mascara de bonzinho, de amoroso, de humilde, prestativo, sem cultura, intelectual, honesto, fiel, dedicado, indulgente, doce, solidário. Estes são apenas alguns exemplos entre as tantas outras facetas que nós, os espíritos, apresentamos no campo da vida física, independente do sexo ou da sexualidade.

Essas "personas" invadem também as instituições religiosas de todas as denominações, e são muitas, umas bem recentes e outras tantas que se arrastam pelos séculos e séculos em práticas externas sem nenhuma reforma moral por grande parte de seus sacerdotes ou freqüentadores .

As instituições espíritas não estão isentas e essas máscaras estão presentes principalmente entre alguns de seus lideres que se julgam profetas de uma nova doutrina. Enraizados nos enganos do passado e no atavismo religioso adentram a Doutrina Espírita e querem de toda forma modificar os seus postulados. Em nome do espiritismo igrejeiro, pessoal, em benefício próprio, intentam fazerem das instituições e nas instituições o que bem entendem.

Tais indivíduos encontram-se desequilibrados, viciados, doentes da alma. São verdadeiras montanhas russas emocionais e estão moralmente arruinados, mas se mostram mascarados com as brumas do evangelho sem vivência real, sem a pratica, mostrando apenas a teoria.Trazem a fala vazia e parecem apenas rádios a transmitirem a mensagem do Cristo e da Doutrina Espírita, sem dela nada retendo para si mesmo.
Entretanto, ainda assim, confeccionam, com maestria e talento, diferentes máscaras, uma para cada situação, uma para cada pessoa.

Apenas para exemplificar, encontraremos em todas as religiões e nos centros espíritas: tiranos domésticos e aplicados trabalhadores da fé; infiéis nas relações e pregadores da moral e bons costumes; fofoqueiros e maledicentes e atenciosos e prestativos nas igrejas e casas espíritas; chefes enlouquecidos e vaidosos e humildes e servis nos palanques doutrinários, impacientes na vida e no reduto religioso calmos e mansos.

É claro que a máscara da calmaria e da mansidão nem sempre são mantidas em todos os momentos dentro das cúpulas do poder temporal, até mesmo na própria casa espírita, principalmente quando se trata de defenderem seus espaços de poder, de liderança, ou como preferem dizer, "seus cargos de diretoria". "Muitas vezes sem os encargos das tarefas, apenas com os "nomes" e as medalhas no peito, "eu sou"!

Nestas ocasiões as chagas da humanidade são bem representadas: orgulho total, vaidade sem medida e egoísmo desmesurado. Nestes momentos as peles de ovelhas caem e os lobos, famintos de poder e status, se lançam uns contra os outros.

Logo depois de entrar em combate, elavam o olhar aos céus e oram a Deus dizendo no final uma citação fatídica para o momento "Que assim seja".
Há tantos para mandar e poucos para servir, e todos que pensam e agem assim estão doentes e ainda não sabem e acabam por adoecer a instituição.

Não pode ser assim! "Que não seja assim"!

Nós, os lobos, precisamos buscar a melhora, modificar e compreender a oportunidade que nos é ofertada. Chegou à oportunidade de nos transformarmos domesticando o lobo que ruge em nós. As disputas por cargos, por diretorias, por quem sabe mais, quem faz mais, quem fundou a casa, quem lava, quem paga, tudo isso, cai no mesmo lugar.
Para os lobos espíritas o que interessa é quem manda e quem chegou primeiro, é a defesa do território, porque sem esse território "eu não sou ninguém, o centro é meu, ninguém tasca que eu vi primeiro".

Usamos a mascara da falsa humildade com sorrisos falsos, abraços sem calor e apertos de mão sem sentimentos. O que queremos é devorar, acabar com o outro, quando na verdade ele é como nós. Ele nos reflete, mas não queremos ver.

No julgamento que fazemos dos outros não enxergamos que só vemos neles o que somos, os lobos em pele de cordeiro. Como não temos coragem para enfrentar a nossa "fera" interna, desejamos destruir a outra, o outro, seus projetos, suas idéias, seus sonhos, sua vida.

Julgamo-nos católicos, protestantes e espíritas cristãos, mas não nos damos conta que ainda não conhecemos ao Cristo Jesus.

Somos doutores da lei e falsos profetas, e a afirmativa do Rabi da Galilea é mais atual que se pode pensar. Não é por acaso, que somos considerados os trabalhadores da última hora.

Aqueles que ficaram se espreguiçando na esteira do tempo, vendo a banda passar, esperando que a evolução chegue de fora, e de um minuto para o outro, "zaz", que fiquemos perfeitos, têm que compreender que infelizmente não é assim.

É necessário esforço e vontade, a evolução não vai dar saltos ou parar na esquina do tempo para nos esperar.

O seu momento é agora! O meu momento é agora!

Somos os últimos a aceitar a tarefa e viemos carregados de preconceitos, quase vergados sob o peso das latas de lixo que carregamos encarnação após encarnação.

Chega! É preciso vivenciar o espiritismo tão decantado e falado nas relações do dia a dia, em casa, principalmente "em casa".

Devemos usar de autenticidade, realidade e verdade nas relações do centro espírita, pois um centro espírita não é feito de paredes, de muitas salas, de grandes monumentos religiosos, mas é feito de pessoas, de convivência e de amor.
O nosso amor está em evolução e não somos perfeitos, mas, somos capazes de adquirir a perfeição, é só começar. Agora! Já!
Para tanto devemos usar de quatro ferramentas muito importantes:

• O bom senso para poder compreender qual de nós esta mais doente no momento e saber diferenciar os estados evolutivos, onde poderemos encontrar homens velhos agindo como crianças birrentas.

• O senso autocrítico para que possamos reconhecer nossas falhas e buscar pela melhora sem a autopiedade e o desculpismo reinante.

• O senso critico para que possamos avaliar as ações e projetos e não quem os conduz, aprendendo a eleger o melhor para todos e não mais o "meu" o "seu", e hora do nosso, dos nossos e para todos.

• E o senso de humor, pois sem ele, poderemos ser devorados pelos lobos da nova revelação que se encontram gentilmente prostrados nos cargos vitalícios ora considerados como "supra-sumos" doutrinários, onde ninguém é melhor para o "seu" lugar.

Parafraseando um texto que recebi pela internet, intitulado " A batalha dos lobos", onde um velho índio conversa com seu neto a respeito da grande batalha íntima que travamos entre o nosso lado bom e o lado mau, entre a sombra e a luz, o velho índio começa assim:

- A batalha é entre os dois lobos que vivem dentro de todos nós. Um é Mau: é a raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, orgulho falso, superioridade e ego.
O outro é Bom: é alegria, fraternidade, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.

O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô: - "Qual é o lobo que vence? "
O velho índio respondeu: - "Aquele que você alimenta!"

Que possamos não mais servir de alimento energético e ração para a alcatéia de lobos religiosos e sem religiosidade, dos lobos espíritas, famintos de poder. Falso e volátil, pois, não sabendo de nada, já aprendemos que tudo passa, tudo de bom e de ruim e o que fica de verdade é o que realmente eu sou, nos somos, eu faço, nos fazemos.



As muitas máscaras que usamos


As muitas máscaras que usamos

Enéas Martim Canhadas

Todos nós?

Sim. As máscaras que usamos são as maneiras como a nossa personalidade se apresenta ao meio onde convive e para o mundo no qual existe e se relaciona. Os Espíritos, uma vez encarnados, passam a usar máscaras para apresentarem-se como são. Assim somos um Espírito dotados da personalidade com que desejamos ser reconhecidos. As máscaras que usamos são intermediárias entre a nossa essência - Anima - (Alma na conceituação de Jung[1]) e a nossa exterioridade, Persona[2] pela qual nos apresentamos.

É possível exemplificar?

A pessoa altruísta, a auto suficiente, a pessoa carinhosa, a que está sempre desconfiada, a egoísta, a briguenta, a honesta, a pessoa carente ou parasita, a que se faz pai ou mãe de todos, a mentirosa, narcisista, a otimista ou pessimista, a pessoa colaboradora ou individualista, a pusilânime fraca de ânimo e sem firmeza, a religiosa, a sofredora, a solitária, a sonhadora, são alguns exemplos de máscaras que usamos. Não se trata, portanto, de negativo ou positivo, de bom ou mau. São maneiras de ser que compõem a personalidade de alguém e fazem parte da alma, isto é, da essência da pessoa.

Afinal de contas, somos obrigados a usar máscaras ou devemos tirá-las?

Não se trata de desvencilhar-nos das máscaras, como tiramos uma roupa que não vamos mais usar. A questão é que, precisamos das máscaras todos os dias. É assim que garantimos o desempenho dos vários papéis nas nossas vidas ao nos relacionarmos.  São atitudes adequadas para as várias circunstâncias que se apresentam na vida. O que importa é a consciência de que elas representam faces da personalidade que vêm da nossa Alma, como partes do todo que somos. Não se trata de eliminar as máscaras mas de aprender a conviver com elas, até que um dia não tenhamos mais necessidade disso. Dessa convivência, decorrem o nosso desenvolvimento intelectual, psíquico-emocional, moral e espiritual traduzindo a nossa atuação de ser-no-mundo, o que nos dá uma identidade. Este caráter mediador das máscaras, constituem-se em bastões em que nos apoiamos para dar conta do nosso modo de ser. São alavancas quando podemos mostrar um pouco mais da nossa essência interior em atitudes e são margens dando-nos a noção dos nossos limites e competências. Este “caminhar mascarado” nos conduzem na trajetória rumo à plenitude espiritual. 

Mas, não somos as nossas próprias máscaras?

Não somos. Aí é que está o “x” da questão.Pensar que somos a própria máscara faz-nos perder de nós mesmos. Se não houver nada além da máscara, seremos parciais, incompletos, pedaços de Espírito e não um Espírito uno. Se fôssemos pedaço de Espírito, seríamos como mônadas[3] aleijadas ou mutiladas, incapazes de, um dia, alcançar a plenitude. Somos um “holos[4]” em desenvolvimento. Somos completos e caminhamos para viver em plenitude. O que aprendemos não ocupa espaço e nem precisa produzir tentáculos. Assim desenvolvemo-nos como um todo. O problema não é de crescimento físico, mas sim de ampliação da consciência, e consciência não ocupa um espaço geograficamente delimitado. Quando alguém identifica-se ou deixa-se absorver pela persona, isto é, pela máscara, passando a conviver com os outros assim, estará fugindo ou afastando-se da própria essência. Isto significa, em termos práticos, que está esquecendo de si mesmo, perdendo o foco da busca pessoal, desvia-se dos seus projetos futuros. Neste caso, a pessoa ficará sujeita ou escravizada às opiniões alheias. Torna-se mais preocupada com o que os outros esperam ou pensam dela. Torna-se alguém que parece não ter vontade própria e passa a depender das opiniões e aprovações de amigos, parentes, pais e demais pessoas da sua convivência. Sente-se infeliz mediante qualquer comentário que não aprove suas ações, decisões, escolhas ou preferências Sentirá insegurança com medo de ter que enfrentar a realidade. Qual realidade? A de que necessita apropriar-se de seus desejos e preferências, idéias ou opiniões, escolhas ou pontos de vista, mesmo que não coincidam com o que os outros gostam. Escolher os próprios caminhos, é a maior tarefa de quem caminha.

Então temos que tirar as máscaras para mostrar a Alma?

Também não é assim. Identificar-se com a Anima (Alma para Jung),  significa ser uma pessoa voltada inteiramente para dentro de si mesma, tornando-se egoísta, individualista ou auto centrada, o que não permite uma relação com o mundo e com as pessoas, porque ela está em contato apenas consigo mesma. A música composta por Antonio Nóbrega[5] e Wilson Freire, diz assim: “Menina, vou te ensinar como é que se namora: põe a alma no sorriso e o sorriso põe pra fora”. Esta figura fala claramente da essência e da máscara que se usa para manifestar tal atitude. “A máscara social é, portanto, a veste necessária para a adaptação social. Com efeito, esta é entendida como indispensável por si, ou então como aquilo ao qual nenhum de nós pode renunciar. (O caráter necessário atribuído à mascara deve ser entendido como uma impossibilidade para a nudez. Aquilo que está em questão, portanto, não é o despojar-se da máscara em nome de possível nudez, e sim a possibilidade de representar uma ulterioridade ou um além em relação à máscara, isto é, através de tal noção, o indivíduo é convidado a sair do engano de trocar tal “parte” com o todo da sua individualidade e, portanto, do erro de considerar que sob, por trás ou além da máscara não exista outra coisa)”[6]. Pensar que podemos dispor das máscaras ainda não nos é possível. Ainda não podemos expor a nudez do nosso próprio Espírito. Devido a imaturidade, somos apegados a velhos hábitos[7]. Quando Adão e Eva viram-se nus no Paraíso, procuraram cobrir sua nudez, simbolizando que ainda não estavam preparados para ela. Não podemos nos suportar nus e despojados. Não somos capazes de suportar os nossos pensamentos, incongruências, anseios, desejos, maus quereres, preconceitos, motivos, etc. quando ficam à mostra para os outros pois, nos veríamos cheios de dúvidas, medos, inseguranças, vergonhas e incertezas de todo tipo.

Parece que a gente é o que é sem tirar e nem por . . .

Se isto significar consciência de si mesmo, é verdadeiro. Existe ainda um outro tipo de máscara que é a “máscara funerária, o arquétipo imutável, no qual supostamente a morte se reintegra” segundo M. Burckhardt[8]. As suposições deste pesquisador vão mais além quando diz “não se dar sem perigo quando se trata de um indivíduo que não atingiu certo grau de elevação espiritual.” No Egito antigo portanto, a máscara mortuária significava a paralisação, a impossibilidade de mudar, cessando o aprimoramento, ainda acarretando riscos para quem não tivesse elevação espiritual. Isto sabemos segundo a Doutrina Espírita quando Espíritos ficam presos por fascinação ou outros motivos à sua personalidade passada. O aprimoramento do Espírito prossegue a cada novo projeto encarnatório, e usando outras máscaras, representaremos novas condições adquiridas. Entretanto, afinidades com máscaras usadas em tempos passados permitem que os espíritos, tenham preferências por esta ou aquela aparência ao se apresentarem para os encarnados. Para Espíritos esclarecidos, trata-se apenas de mera preferência.

Como entender, ao mesmo tempo, que a evolução prossegue na dimensão espiritual?

A evolução no Plano Espiritual, não dispensa a prática que tem lugar no campo do exercício terreno, condição diferenciada de residência transitória na matéria, para consolidar mudanças e aprendizados. Somos muito vulneráveis às mudanças quando ainda não tenham adquirido consistência na vivência prática, no exercício das relações com os outros. As encarnações sucessivas bem justificada pelo comentário no Livro dos Espíritos à resposta da pergunta 619 reitera que “a justiça da multiplicidade de encarnações do homem decorre deste princípio, pois a cada nova existência, sua inteligência se torna mais desenvolvida e ele compreende melhor o que é o bem e o que é o mal”. As sucessivas encarnações não significam simples capricho da resolução criadora de Deus que se concretiza pela evolução. É condição normal e prática[9] uma vez que “a alma compreende a lei de Deus,  segundo o grau de perfeição a que tenha chegado e conserva a sua lembrança intuitiva após a união com o corpo (...). É, como poderíamos dizer, a práxis do Espírito.
[1] Carl Gustav Jung (1875-1961) psiquiatra suiço nascido a 26 de julho de 1875, em Kresswil, Basiléia, na Suíça, no seio de uma família voltada para a religião. Seu pai e vários outros parentes eram pastores luteranos, o que explica, em parte, desde a mais tenra idade, o interesse do jovem Carl por filosofia e questões espirituais e o papel da religião no processo de maturação psíquica das pessoas, povos e civilizações.
Jung morreu a 6 de junho de 1961, aos 86 anos, em sua casa, à beira do lago de Zurique, em Küsnacht após uma longa vida produtiva.
[2] Termo latino que indica a máscara que o ator teatral, tanto cômico como trágico, punha no próprio rosto no decorrer da representação. Usado para designar indiferentemente um aspecto da personalidade, da psique coletiva ou mundana que se encontra dentro da própria personalidade; uma estrutura da psique e, portanto, uma das subpersonalidades que giram ao redor do Eu, cuja relação com o próprio Eu muda continuamente no curso da vida; a imagem que o indivíduo mostra externamente, e enquanto tal um dos aspectos mais exteriores do próprio indivíduo; papel ou o “status social” do indivíduo nas relações com o mundo (cultural e social, e portanto, o aspecto que ele assume nas relações com a cultura e com a sociedade.
[3] Do Latim monade e do grego monás, ádos, que quer dizer único. Em Biologia é o organismo ou unidade orgânica diminuta e muito simples. Em Filosofia, segundo Leibniz, cada uma das substâncias simples e de número infinito, de natureza psíquica (dotada de apercepção e apetição), e que não têm qualquer relação umas com as outras, que se agregam harmoniosamente por predeterminação da divindade, constituindo as coisas de que a natureza se compõe. Dicionário Aurélio Século XXI.
[4] Do grego hólos,  e quer dizer inteiro, completo, indiviso, compacto, homogêneo, fundamenta a teoria segundo a qual o homem é um todo indivisível, e que não pode ser explicado pelos seus distintos componentes (físico, psicológico ou psíquico), considerados separadamente.
[5] Composição de Antonio Nobrega, como ele mesmo se intitula “folgazão rabequeiro, dançador e cantor-brincante reconhecido”, e Wilson Freire, “Lição de Namoro” faixa do CD “Madeira que Cupim não Rói”, gravadora Eldorado.
[6] Citado no Dicionário Junguiano dirigido por Paolo Francesco Pieri (Florença 1943), membro ordinário da International Association of Analytical Psychology, analistya com funções didáticas junto ao Centro Italiano di Psicologia Analítica, Paulus, em co-edição com Edit. Vozes, São Paulo, 2002.
[7] Ler o capítulo “Velhos Hábitos” do livro “Renovando Atitudes” de Francisco do Espírito Santo Neto pelo Espírito Hammed, Edit. Boa Nova, Catanduva-SP., 1988. 
[8]Citado no Dicionário de Símbolos, verbete Máscara, autores: Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, José Olympio Edit., Rio de Janeiro, 1988.    
[9] Resposta à pergunta 620 do Livro dos Espíritos.

Máscaras e personas - Adenáuer



“Bem-aventurados os humildes de espírito.
Porque deles é o reino dos céus.” Mateus,
5:3.
Quando pronunciou as palavras acima, certamente o
Cristo se referia àqueles  humildes em aprender as verdades
eternas e que se colocavam predispostos a entender o
sentido e significado da Vida, sem a arrogância
característica dos que acreditam já saber de tudo. Pobres em
espírito ou pobres de espírito são expressões que podem ser
interpretadas de formas distintas. Não importa se
encontramos aspectos distintos numa mesma coisa, pois em
tudo pode se obter um significado único. E, neste caso, ele é
a necessária condição de ignorância para dispor-se a
aprender.
Ele se referia a um estado de espírito, a uma condição
consciente de se colocar diante do mundo, a uma atitude
frente ao novo e ao desconhecido. Novamente ele busca
dirigir-se ao ser humano psicológico muito mais do que ao
ser humano social, ao interno mais que ao externo. Como
naquela época em que aquelas palavras foram pronunciadas,
também hoje o ser humano ainda se encontra preso ao
mundo exterior, ao mundo da matéria, a que se apega como
se fosse a única realidade possível. Ciente dessa condição, o
Cristo endereça sua mensagem alertando o ser humano da
necessidade de que ele busque colocar sua mentedistanciada de uma condição que lhe impeça a visão da
realidade espiritual. Condição esta possível graças à
humildade e ao desejo sincero de aprender. É como se ele
nos convidasse a sempre ver as coisas sob a ótica do
espiritual.
Ele costumava colocar que o ser humano deveria se
assemelhar à criança nas suas atitudes, devendo aproximarse de sua pequenez a fim de alcançar o reino dos céus (leiase: alcançar um estado evolutivo melhor). Por que não
igualar-se tão somente a um adulto responsável? A que
atributo ele se referia, presente numa criança e desejável de
existir num adulto? Arriscamos dizer que os preconceitos
oriundos da educação costumam embotar a plenitude da
capacidade de aceitar o novo.
Ser como uma criança é ter a condição não
preconceituosa diante daquilo que se deve aprender. É
buscar a ingenuidade e espontaneidade da criança.
Do ponto de vista psicológico é colocar sua mente
sem a máscara social. É desvestir-se dos condicionamentos
externos que impedem o aprendizado pelo Espírito.
Colocar-se de forma preconceituosa é reter as coisas no
nível do ego, impedindo, pelos mecanismos de defesa, o
Self de filtrar o que deve ir ao Espírito.
As máscaras sociais, ou personas, colocam a mente
numa condição de assimilação parcial, face as preocupações
em se relacionar com o externo, inibindo parcial ou
totalmente, a relação com o  Self. Colocar-se como criança é
permitir desabrochar o Eu interno, ou  Self, cuja condição de
centro regulador e organizador da psiquê, permite a
utilização não conflitante do ego e das personas.
A inocência da criança é um estado psíquico de total
confiança no futuro, de ausência de medo e de
disponibilidade plena para a Vida. O Cristo se referia a esse estado  de espírito como condição psíquica para
conhecermos as leis de Deus e evoluirmos.
Nas relações com o próximo, a ingenuidade da criança
é desejável, pois atenua o poder da mágoa ou do revide. A
vingança é fruto da instabilidade psíquica, caracterizada
pela  assunção de um ou mais  complexos à consciência, sem
o devido equilíbrio do  ego. Os  complexos são o ponto de
apoio das obsessões espirituais. Não revidar é não se sentir
atingido diante da ofensa, que, em realidade, atinge seu
emissor. O pobre de espírito coloca sua mente a serviço do
Bem, e não dos objetivos do ego ou de alguma persona
assumida.
O estado de espírito que não se assemelha ao da
criança possibilita que a mente crie barreiras para se
defender do mundo, não captando as leis espirituais a partir
das experiências vividas. Colocar-se assim, é não precisar
perdoar, pois não se sentiu agredido.
O Cristo dizia que  “Se alguém quer ser o primeiro,
será o último e servo de todos.”
15
, referindo-se, numa
perspectiva psicológica, ao complexo de superioridade  que
normalmente carregamos no inconsciente, e, às vezes, na
consciência. Ser servo é não permitir que o complexo de
superioridade assuma a consciência, determinando a
conduta e impedindo uma percepção adequada da realidade.
Nesse sentido, o Cristo pode ser chamado Terapeuta, que
significa “servidor de Deus”, isto é, aquele que cura em
nome de Deus. Ele é aquele que serve a Deus sem o
complexo de superioridade que infla o  ego, atingindo alguns
“missionários” que se acreditam superiores aos outros.
Servir é, então, o remédio, segundo as palavras do
Cristo, e servir a Deus é a grande terapia para o ser humano.
Podemos dizer que o trabalho em favor da Vida é a maior
                                               
15
 Marcos, 9:35.terapia que se pode aplicar a si mesmo. Quem quiser
enfrentar seus conflitos internos deve começar pela
caridade. O bem que fazemos aos outros é o bem que
fazemos a nós mesmos. Servir ao próximo é o começo da
própria cura. Quando é feito com sinceridade e equilíbrio é
caminho de libertação. É importante ajudar ao próximo
naturalmente, e não apenas como integrante de uma
instituição religiosa ou social, qualquer que seja.
Em continuidade ao trecho citado anteriormente, o
evangelhista recolhe a seguinte afirmativa do Cristo:  “...
porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é
que é grande.”
16
 Essa colocação também pode ser vista
como uma alusão aos complexos que se revezam entre a
consciência e o inconsciente. Quando atribuímos poder ao
ego, inflacionando-o, reduzimos a capacidade de aprender
pelo  Self. Quando diminuímos o poder do  ego, ampliamos a
capacidade do  Self em apreender a realidade. O indivíduo ao
elevar-se sem méritos, atribui poder ao ego, inflando-o;
dessa forma, vive-se a vida do ego, e não a do Self.
Quem deliberadamente exalta suas qualidades, mesmo
que as possua, torna-se orgulhoso e vaidoso de si. Esse
orgulho cada vez mais estimulado inibe o conhecimento de
si mesmo e impede a percepção da  sombra, isto é, de suas
qualidades negativas e do que desconhece da própria
personalidade.
A psicologia do Cristo é cristalina quando a aplicamos
ao nosso mundo interior. Não há como fugir de si mesmo. A
humildade facilita o processo de autopercepção e de
manifestação do  Self. O orgulho embota a visão do Espírito,
cegando-o à compreensão da realidade.
Quando o orgulho aparece, através da auto-elevação
do  ego, surge a primazia de uma das  personas consolidadas
                                               
16
 Lucas, 9:48.nas encarnações anteriores. Essas personas inconscientes se
tornam uma espécie de  sub-personalidade. O indivíduo vive
artificialmente pela manifestação de uma subpersonalidade, emergida pela energia demasiada atribuída
ao  ego que lhe dá sustentação. Essa sub-personalidade é
nucleada por um ou mais complexos. Como exemplo
podemos ver nas pessoas que, em outras encarnações
estiveram em posições sociais importantes, mas que na atual
encarnação  não ocupam lugar de destaque na sociedade,
poderá permitir que, pela inflação do ego, essa subpersonalidade assuma a consciência.
Quando não adicionamos excessiva energia ao ego,
ampliamos a percepção de nossas próprias limitações,
permitindo que enxerguemos a nossa sombra, antes
inconsciente.
Da mesma forma, a simplicidade facilita a percepção
dos  complexos inconscientes, trazendo-os equilibradamente
à consciência sem que eles predominem sobre o ego. Na
humildade o verdadeiro Eu sobressai-se, para que o Espírito
possa crescer, desenvolver-se e alcançar sua plenitude.

O Terapeuta Maior - Adenáuer



“Se me amais guardareis os meus
mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos
dará outro Consolador, a fim de que esteja
para sempre convosco, o Espírito da verdade,
que o mundo não pode receber, porque não o
vê nem o conhece; vós o conheceis, porque
ele habita convosco e estará em vós.” João,
14:15 a 17.
As principais nações do mundo ocidental se formaram
sob a orientação religiosa do Cristianismo Católico. Elas
alcançaram seu apogeu científico-tecnológico, bem como a
boa qualidade de vida de seus povos, após o advento do
Cristo. Dois milênios de Cristianismo foram significativos,
pois trouxeram importantes avanços no campo das relações
sociais, da qualidade de vida e da aproximação entre os
povos, em que pese o atraso moral que a humanidade ainda
se encontra. A mensagem do Cristo trouxe consolação,
esperança e fé para boa parte da humanidade. Ela continua
sendo um grande consolador para o ser humano deste século
e, com certeza, ainda o será por muito tempo.
O alívio que o Cristo prometeu nos leva a entender,
dentre outros significados, que sua mensagem promove o
bem estar íntimo, fazendo-nos vibrar numa faixa psíquica
superior. Entrar em contato emocional, vivendo sua
mensagem, é garantia de disposição íntima para
enfrentarmos as dificuldades da vida.
No trecho citado do Evangelho de João, o Cristo
também poderia estar se referindo à necessidade deutilizarmos nossa energia psíquica interior a serviço do Bem
e do Amor através da caridade, pois, dessa forma, jamais
estaremos desamparados.
Ao dizer “Vinde a mim todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei.”
13
, ele se colocou como
um terapeuta que acolhe o ser humano em suas dores e
conflitos íntimos. Convidava os sobrecarregados e
desgostosos da vida a fim de se abastecerem na sua energia
amorosa. Ninguém que deseje ajudar alguém deve deixar de
tomar a postura de acolhimento, isto é, de compreensão das
dificuldades do outro e não de condenação. O Cristo é o
terapeuta da humanidade, pois toda a sua mensagem nos dá
prova disso.
Quando nos ocorre o desejo de julgar ou recriminar
alguém, devemos procurar conduzir nossa crítica de forma a
amparar e educar a pessoa. A boa psicologia nos convida a
ensinar amorosamente o outro. Quem acolhe o outro se
solidariza com ele e se predispõe à empatia. Colocar-se no
lugar do outro é a regra áurea para a convivência
harmoniosa.
O Cristo age como o verdadeiro terapeuta que acolhe
e compreende as dificuldades de seus pacientes. Ele não
falava para terapeutas ou para uma classe especial da
sociedade, mas dirigia-se à consciência do ser humano.
Ao afirmar “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei
de mim, porque sou manso e humilde de coração; e
achareis descanso para vossas almas. Porque o meu jugo é
suave e o meu fardo é leve.”
14
, coloca a sua vida, isto é, sua
personalidade, como sendo o principal método de trabalho.
Nesse particular as modernas escolas psicológicas afirmam
que a verdadeira técnica psicoterapêutica é a personalidade
do terapeuta. Podemos estender essa colocação, dizendo que
                                               
13
 Mateus, 11:28.
14
 Mateus, 11:29 e 30.a verdadeira técnica de auxílio ou de convencimento é a
vida do próprio divulgador da mensagem. Caso a mensagem
não transforme quem a divulgue, certamente ela não está
sendo bem assimilada.
A mensagem quer nos fazer entender que, se o ser
humano seguir os preceitos cristãos, alcançará a
tranqüilidade necessária para enfrentar suas dificuldades.
Pode-se entender também que ela se dirige ao mundo íntimo
do ser humano, buscando inserir a idéia de que, quando a
tivermos apreendido e vivenciado, conseguiremos alcançar
o nosso próximo de forma a verdadeiramente educá-lo.
É um convite para que o ser humano assuma a própria
vida e não tema o processo de autoconhecimento. Muitos
temem o inconsciente, preferindo não conhecê-lo ou negamlhe a existência. Seus aspectos aparentemente densos e
obscuros amedrontam os menos preparados. Tais aspectos,
se bem compreendidos, tornam-se facilitadores do
desenvolvimento espiritual, suavizando a existência.
Ela, a mensagem, oferece repouso, alívio, redução de
tensões e dos medos. Possibilita ao ser humano viver
melhor, liberto das culpas e confiante no futuro. O claro
fundo psicológico da afirmação consolida nossa percepção
de que a mensagem do Cristo se dirigia ao mundo interior
do ser humano, a fim de que ele melhor pudesse atuar no
mundo exterior. Ela tanto pode ser aplicada objetivamente
quanto subjetivamente, isto é, numa ação sobre um objeto
externo ou numa internalização de novos valores.
Ao dizer que nos mandaria outro consolador além
dele, quis afirmar, face à nossa tendência a encarar a vida de
forma pesada e sofrida, que sua mensagem necessariamente
era de consolo e que ela estaria sempre conosco. Suas
palavras nos levam a entender que o consolador, que ficará
eternamente conosco, deve ser algo que permanecerá
internalizado, a ponto de não mais afastar-se de nós. Isso nos sugere, além da clássica interpretação de que o
Espiritismo é esse consolador, que se trata de algo que
venha a ser integrado à personalidade, adquirido na vivência
da mensagem. O Espírito da verdade (ou de verdade) pode
ser também considerado o conhecimento das leis de Deus,
isto é, a verdade em nós.
Novamente chamo a atenção para que não se pense
que pretendo sobrepor a interpretação de que o consolador
prometido é a mensagem espírita. Penso que ambas não se
excluem. O Espiritismo é a lente com a qual se pode melhor
perceber a mensagem cristã, bem como melhor entender o
mundo.
Ter conosco o Espírito de Verdade é conseguir melhor
perceber-se, pois a mensagem levanta os véus da
ignorância, permitindo uma visão clara sobre nós mesmos.
A mensagem espírita devidamente assimilada, pela razão e
pelo sentimento, implica na capacidade de verdadeiramente
nos conhecermos.
Ao Espírito, princípio da essência divina, chega as leis
de Deus. Suas instâncias psíquicas, ego e Self, são
instrumentos de elaboração das aquisições de sabedoria,
emanadas de Deus. Reter a mensagem do Cristo, no formato
espírita, capacita-nos a conhecer melhor a Verdade e a
estabelecer melhor juízo de valor sobre as coisas.
Devemos considerar, também, que o Cristo
consolador está dentro de nós, constituindo-se numa
consciência plena da nossa capacidade de renovação e
modificação das circunstâncias que nos afligem. A
descoberta dessa força renovadora é um processo que pode
durar anos, décadas ou até encarnações.
Ser uma mensagem consoladora quer também
significar que ela tem a capacidade de harmonizar nosso
mundo íntimo. Traz em si a possibilidade de alavancarmos
novas atitudes em nosso favor e da Vida. Ser espírita nosconvida a mais responsabilidades do que ter uma religião,
tendo em vista as concepções precisas sobre a vida
espiritual no Espiritismo, o que nos convoca ao trabalho
tanto internamente quanto em favor do esclarecimento da
natureza espiritual do ser humano.
O Espiritismo, se verdadeiramente conhecido e, mais
importante, sentido e internalizado em sua essência, é uma
das expressões do consolador prometido, sem qualquer
exclusão a outras doutrinas, religiosas ou não, que
promovem a mesma função de preparar o ser humano para
as necessárias provas da vida.
A mensagem do Cristo estará sempre conosco, pois
por detrás do  ego, há o  Self, centro diretor e organizador da
Vida, que estará absorvendo-a. Enquanto o  ego é o centro
da vida consciente, o  Self é o centro de gravidade da vida
psíquica; ambos, ego e Self, são instâncias psíquicas do
Espírito imortal, o qual, verdadeiramente, é o sujeito e o
objeto da Vida.

Jesus psicoterapeuta


Jesus psicoterapeuta


Abstraindo-nos de qualquer sentimento religioso ou reverencial à figura histórica de Jesus, constatamos que a mensagem que nos legou possui inequívoca aplicabilidade ao homem de todas as épocas. Ela é atemporal. Jesus foi o Mestre por excelência, não só por dominar todo o conhecimento teológico e escritural judaico de sua época, mas por evidenciar em sua doutrina o Evangelho, a Boa Nova, conhecimentos que transcendem a Filosofia, a Psicologia, a Pedagogia, a Sociologia etc. de nossos tempos. Ele responde às mais pungentes indagações filosóficas, ao mesmo tempo em que desvela a natureza humana e a maneira desta ser transformada para a construção de uma sociedade feliz, composta por indivíduos felizes, realizados. “O Reino de Deus está dentro de vós.”
Revelava assim a nossa natureza crística que nos cabe conhecer ou reconhecer, num encontro profundo conosco mesmo. É a descoberta da nossa verdadeira identidade espiritual, de seres eternos em busca da perfectibilidade. Jung, notável psiquiatra suíço, criador da “Psicologia Profunda”, identificava, já há algumas décadas, o principal arquétipo do homem, a que ele chamou de Self, a instância perfeita de nossa individualidade, que irradiando a sua energia pura, conduz o aperfeiçoamento da personalidade humana em sua marcha evolutiva.
Jesus representa, de alguma forma, o psicoterapeuta do gênero humano, de todos os homens. Sua mensagem vem, sobretudo, salvar-nos de nós mesmos, que insistimos em prestigiar o nosso lado sombrio (a sombra – outro arquétipo junguiano) pela adesão a falsos valores, ao egoísmo e ao orgulho, manifestações diretas do culto ao ego. Por que a infelicidade se multiplica por toda a parte, hoje e desde o princípio da história, senão pela atitude do homem que elege o ter em detrimento do ser, optando pelo efêmero e as aparências, esquecendo o que é eterno e essencial?
Por que o brasileiro, antes considerado um povo cordial, hoje possui uma das sociedades mais violentas do mundo? A resposta está na nossa adesão ao consumismo voraz, insaciável e a um individualismo insensível. Onde estão os valores de solidariedade e afetividade dos nossos avós? Onde a amizade, a simplicidade, o respeito, a tolerância que nos caracterizavam como povo? O Brasil foi engolfado pelo pior da globalização, cuja teoria econômica repousa no capitalismo selvagem e no individualismo socialmente irresponsável, que nos faz regredir aos primitivos tempos da nossa organização social. A sua inconsistência, em todos os aspectos, fica patente por esta crise econômica mundial em que estamos submersos, se já não o fosse pela fome que acomete mais da metade do Planeta.
León Denis, iluminado filósofo espírita, antecipando-se aos tempos que vivemos, já dizia em seu livro O Problema do Ser do Destino e da Dor: “A filosofia da escola, depois de tantos séculos de estudo e de labor, é ainda uma doutrina sem luz, sem calor, sem vida. (...) Daí o desânimo precoce e o pessimismo dissolvente, moléstias das sociedades decadentes, ameaças terríveis para o futuro, a que se junta o ceticismo amargo e zombeteiro de tantos moços da nossa época; em nada mais crêem do que na riqueza, nada mais honram que o êxito.”
Jesus veio nos salvar desta opção pela infelicidade, mostrando-nos a nossa filiação divina e nossa destinação gloriosa. Ele mesmo foi o protótipo do homem realizado, conectado com o seu Self, iluminado pelo Deus interior, fagulha divina que somos todos nós. Dele falam os Evangelhos: sabia ensinar e falar “com poder e com toda autoridade”. “Ficavam todos convencidos daquilo que ele dizia” (Mc 1,22) “porque dele saia uma força que curava todos os males” (Lc 6,19). Sua terapia era a sua doutrina de amor e seu instrumento terapêutico a sua própria personalidade.
Jesus obviamente não foi um psicoterapeuta como modernamente entendemos, no sentido de tratar traumas e neuroses e transtornos de personalidade, mesmo porque não dispunha na época destes recursos conceituais. Ele o foi no sentido lato, mas profundo, pois conhecia plenamente os processos psíquicos construtivos e destrutivos da vida. Ele detinha as qualidades precípuas do terapeuta, pois quem mais senão ele atingiu a integração da personalidade, a identidade e a individuação? Jung frisa que o próprio terapeuta é o próprio método ou a própria terapia. Nenhum terapeuta pode ultrapassar a si próprio na terapia.
No Livro dos Espíritos, obra básica de Allan Kardec, este assim faz a pergunta nº 625 aos espíritos: “Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para lhe servir de guia e modelo?” Resposta: “Jesus.”
Simples assim. Assim é que Jesus vem a ser o paradigma, o terapeuta imortal que através dos séculos temos buscado na nossa ânsia de libertação, de felicidade. Mas como tem sido mal interpretado! As interpretações dogmáticas de sua doutrina têm-se constituído em verdadeira camisa de força a desnaturá-la e limitá-la.
Em outra pergunta, a 621, indaga-se: “Onde está escrita a lei de Deus?” Resposta: “Na consciência.” Jesus vem a ser, portanto, o nosso guia para adentrarmos os caminhos do nosso interior psicológico, no processo de integração de nossa personalidade, descoberta de nossa autêntica identidade e consequente individuação, ou crescimento, ou evolução psicoespiritual. Isso só acontece pela vivência da lei de Deus, insculpida que está na intimidade de nossa própria consciência. E a lei de Deus, já nos ensinava o Mestre incomparável, é a vivência do amor em suas manifestações mais puras de solidariedade, cooperação, tolerância e fraternidade para com o próximo.


Luiz Antonio de Paiva
Psiquiatra e vice-presidente da Associação Médica Espírita de Goiás

domingo, 12 de agosto de 2012

A MEADA


 Irmão X

- A conversação entre as duas jovens senhoras se desenvolvia no ônibus.
- Você não pode imaginar o meu amor por ele...
- Não posso concordar com você.
- Decerto que não me entende.
- Mas, Dulce, você chega a querer o Dionísio, tanto quanto ao marido?
- Não tanto, mas não consigo passar sem os dois.
- Meu Deus! Isso é coisa de casal sem filhos!...
- É possível...
- Você não acha isso estranho, inadmissível?
- Acho natural.
- Noto você demasiadamente apegada, não é justo...
- Sei que você não me compreende...
- Simplesmente não concordo.
- Mas Dionísio...
- Isso é uma psicose...
Dona Dulce e a amiga, no entanto, ignoravam que Dona Lequinha, vizinha de ambas, sentara-se perto e estava de ouvido atento, sem perder palavra.
De parada em parada. Cada uma volveu ao lar suburbano, mas Dona Lequinha, ao chegar em casa, começou a fantasiar... Bem que notara Dona Dulce acompanhada por um moço ao tomar o elétrico, aliás, pessoa de cativante presença. Recordava-lhe as palavras derradeiras: “vá tranquila, amanhã telefonarei...”
Cabeça quente, vasculhando novidades no ar, aguardou o esposo, colega de serviço do marido de Dona Dulce, e tão logo à mesa, a sós com ele para o jantar, surgiu novo diálogo:
- Você não imagina o que vi hoje...
- Diga, mulher...
- Dona Dulce, calcule você!... Dona Dulce, que sempre nos pareceu uma santa, está de aventuras...
- O quê?!...
- Vi com meus olhos... Um rapazão a seguia mostrando gestos de apaixonado e, por fim, no ônibus, ela própria se confessou a Dona Cecília... Chegou a dizer que não consegue viver sem o marido e sem o outro... Uma calamidade!...
- Ah! mas isso não fica assim, não! Júlio é meu colega e Júlio vai saber!...
A conversa transitou através de comentários escusos e, no dia imediato, pela manhã, na oficina, o amigo ouve do amigo o desabafo em tom sigiloso:
- Júlio, você me entende... somos companheiros e não posso enganá-lo... O que vou dizer representa um sacrifício para mim, mas falo para seu bem... Seu nome é limpo demais para ser desrespeitado, como estou vendo... Não posso ficar calado por mais tempo... Sua mulher...
E o esposo escutou a denúncia, longamente cochichada, qual se lhe enternassem afiada lâmina no peito.
Agradeceu, pálido...
Em seguida, pediu licença ao chefe para ir a casa, alegando um pretexto qualquer. No fundo, porém, ansiava por um entendimento com a esposa, aconselhá-la, saber o que havia de certo.
Deixou o serviço, no rumo do lar e, aí chegando, penetrou a sala, agoniado...
Estacou, de improviso.
A companheira falava, despreocupamente, ao telefone, no quarto de dormir: “Ah! sim!...”, “Não há problema”, “Hoje mesmo”. “Às três horas”... “Meu marido não pode saber...”.
Júlio retrocedeu, à maneira de cão espantado. Sob enorme excitação, tornou à rua. Logo após, notificou na oficina que se achava doente e pretendia medicar-se. Retornou a casa e tentou o almoço, em companhia da mulher que, em vão, procurou fazê-lo sorrir.
Acabrunhado, voltou a perambular pelas vias públicas e, poucos minutos depois das três da tarde, entrou sutilmente no lar... Aflito, mentalmente descontrolado, entreabriu devagarinho a porta do quarto e viu, agora positivamente aterrado, um rapaz em mangas de camisa, a inclinar-se sobre o seu próprio leito. De imaginação envenenada, concebeu a pior interpretação...
O pobre operário recusou em delírio e, à noite, foi encontrado morto num pequeno galpão dos fundos. Enforcara-se em desespero...
Só então, ao choro de Dona Dulce, o mexerico foi destrinçado.
Dionísio era apenas o belo gatinho angorá que a desolada senhora criava com estimação imensa; o moço que a seguira até o ônibus era o veterinário, a cujos cuidados profissionais confiara ela o animal doente; o telefonema era baseado na encomenda que Dona Dulce fizera de um colchão de molas, ao gosto moderno, para uma afetuosa surpresa ao marido, e o rapaz que se achava no aposento íntimo do casal era, nem mais nem menos, o empregado da casa de móveis que viera ajustar o colchão referido ao leito de grandes proporções.
A tragédia, porém, estava consumada e Dona Lequinha, diante do suicida exposto à visitação, comentou, baixinho, para a amiga de lado:
- Que homem precipitado!... Morrer por uma bobagem! A gente fala certas coisas, só por falar!...

Livro Estante  da  Vida  –  Pelo Espírito “Irmão X” - Psicografia Francisco C. Xavier

Ver e ouvir


A visão e a audição devem ser educadas, tanto quanto as palavras e as maneiras.



Em visita ao lar de alguém, aprendamos a agradecer o carinho do acolhimento sem nos determos em possíveis desarranjos do ambiente.



Se ouvirmos alguma frase imperfeitamente burilada na voz de pessoa amiga, apreciemos a intenção e o sentimento, na elevação em que se articula, sem anotar-lhe o desalinho gramatical.



Veja com bondade e ouça com lógica.



Saibamos ver os quadros que nos cercam, sejam eles quais forem, sem sombra de malícia a tisnar-nos o pensamento.



Registrando anedotas inconvenientes, em torno de acontecimentos e pessoas, tenhamos suficiente coragem de acomodá-las no arquivo do silêncio.



Toda impressão negativa ou maldosa que se transmite aos amigos, em forma de confidência, é o mesmo que propinar-lhes veneno através dos ouvidos.



Em qualquer circunstância, é preciso não esquecer que podemos ver e ouvir para compreender e auxiliar.



Chico Xavier/André Luiz